Sunday, May 17, 2009
no ritorna più
o poeta estava passeando de mão dada com minha solidão
acenava pela janela do ônibus uma semi-conhecida que beijava
o vento, dedicando seu sorriso ao resto de céu azul que esvaziava a minha tarde
outros poetas, mancos e manetas, jamais escreveram um poema
e detestavam ser citados em notas de rodapé, em livros de auto-ajuda
os outros poetas eram como ele, afinal, e dedicavam as sobras do sol ao prazer barato de caminhar sozinho antes das primeiras estrelas dizerem 'oi' (ainda que haja estrelas e estrelas)
II
voltando ao ponto de partida, odiava com um ódio seco como sua tosse tísica ser lembrado por tanto tempo sem ter feito nada que considerasse adjetivo nato de prazer e ria de si e do espelho pendurado no teto do hotel barato onde dorme enfim sentindo-se bem ao ouvir dos quartos ao lado gritos de desespero, choro, gozo, e se lembra da noite passada, dividia no colo quente outra lembrança, que daqui umas horas já também lembraria menos, se rubra, se morena, se indígena, se afro-descendente, se iguais, iguais, iguais
iguais, e abrindo a porta do quarto, e dirigindo-se a rua vazia de lembranças
sentia-se novo, são, salvo, a lata que chutava com força batia forte como devia na parede
voltava com força dobrada reduzida, e passava por esquinas onde já sentara e adormecera em vidas passadas, e a noite pela metade consigo assim desacompanhava tais memórias, por vezes correndo em desespero, para ter certeza de que deixara-as para trás à uma distância segura.
...que fosse escura a avenida prestes a acabar, escura o bastante para ser impossível ler na próxima placa a palavra "Retorno"
III
o tempo passaria em breve, e em breve seria a lua tua, no assento de casa
no choro do próprio cão, do beber da própria água e estancar as próprias manchas de sangue no vestido dela, para ouvir do passado como que agora dizer:
"já esqueci que tinha pressa e esperança de estar aqui"
diz lhe ainda que vida e dor passam, e diz me também, o poeta, que dos rostos que me rodeiam agora nesse metrô tenho receio e dúvida, pois sei que jamais verei uma vez mais nenhum deles e eu rabisco os versos que evitarei de ler da próxima vez, mesmo sabendo que jamais voltarei a tocar estas páginas, e detesto, protesto, infesto minha saliva de pressa e angústia... daí enfio meu sorriso no peito com pressa e escondo, sufoco meu amor até que ele seja um gole só de raiva, jogo o livro já sem capa dentro da mochila, levanto como se tivesse descoberto derepentemente ter esquecido um compromisso inadiável no sentido oposto para o qual eu estava me encaminhando até um minuto atrás.
erro o ônibus, desço a estação errada, me atraso e desencontro de quem...
...
...da viagem que retorno, da saída que se traça pisando quando pisa o lar
digo que tenho certeza apenas da pena que sinto de mim, e me digo, do alto do meu cinismo
que a odeio pela mesma razão estúpida que um mendigo, ao ser cagado por um pombo, tem por este que defeca.
e diria mais se o sono me arremessasse ao despertar ao invés de
IV
passa rápido a jovem que se joga nos braços apaixonados e desconhecidos do amante
e juram jurar as juras mais sinceras que alguém possa proferir por entre as paredes desse cinema nessa sessão deste mesmo horário e dia de agora
disso ele, o poeta, pensa um verso belo, e recita para si, mas acha-o breve e futil, e engole o cuspe dentro do próximo trago de vaidade, mas dita aqui, nestas páginas amassadas, da vista prensada se pressionando a ler o que está faltando, e diz depois que o que há de mais precioso para se guardar da vida é o amor que se viveu, mesmo se este se sepulta há muito mais tempo do que a vida que se segue depois dele, mesmo que a suposta fila referida anteriormente já tenha andado, esvaziado, preenchido-se novamente, e desertificado-se outra vez mais e me ri o desdém que guarda para essas horas, e aponta pra tela do cinema mudo ditando no final da estrofe: "há mais palavras num filme de Chaplin que sentido na vida de 99% das pessoas nessa sala, contando com o projecionista, e, claro, a mim mesmo, aqui, ditando o talvez e o incerto de tantas coisas que faço de conta que vivo. só faça de conta que me lê e fica tudo por isso mesmo."
daí, acho que concordo e viro pro lado, e concorda também o casal que citei, agora prestes a silenciosamente transar de tédio, e a sessão interminável termina e esqueço a razão de tanto desespero até a próxima...
(...)
V
quando sou obrigado a beber a água que cai do teto de casa eu chego a conclusão que estou preso, imóvel e mexo meu corpo com força e o que eu consigo é correr (deixando meu corpo para trás) para os braços de minha mãe, por mais que ela esteja fora de casa, em festas que sempre me convida só para ouvir o som do meu desprezo e
VI
e do susto despertamos, eu e a melancolia de uma civilização inteira
acenava pela tela da televisão a jovem de cabelos cacheados rubros, beijando sem paixão, como quem está a pensar em outra coisa, como quem se despede de um desconhecido, e a madrugada inteira saía caladamente pela porta da frente.
o frio e o vão azul claro que escapam e espreitam pela veneziana esvaziam minha noite passada, pois, às 7 horas, o mundo vai ter de voltar a girar, e encarar de frente a vergonha à luz do dia, íris na íris, e por mais que, infortunamente, tenha que fazê-lo pela raza perspectiva minha, o que nos resta a essa altura é a resignação que cultivam os doentes terminais daquele hospital no meio da Avenida Rio Branco.
Thursday, May 14, 2009
Sonata
O sol já fazia de conta o seu desprezo
E vice e versa, quietas, palavra e ela
A manhã ensaia o passo de sua dança
última, pressa dissonante, desapreço
Cantara antes da banda o amor à capela
Queria logo ser o colo, a madrugada
sem interlúdio vespertino ou meio dia
Amar de um gole só o sereno por vir
Porém, brotará tais esperanças, que fada?
Se entre ambos os atos destas vidas havia
Mais horizontes que o oceano ia suprir
Sunday, May 10, 2009
9 dicas pra poetas pós-modernos que fingem que não o são, ou pretendem um dia sê-los para fingí-los não sê-los
[insira aqui uma estrofe inteira com adjetivos óbvios e nomes comuns. mas finja que não são. "amor desnudo", "chuva cinza", "riso pálido", "olhos de faísca" são boas dicas]
[aqui é a hora que você fará trocadilhos idiossincráticos, como "cuscuz" com "avestruz", e "tatue" seguido de "menstrue", pra provar sua mente aberta às pós-modernidades]
[escreva todos os seus textos em letras minúsculas. estamos na era da internet, então você precisa propagar a idéia de que na "contemporaneidade a língua enfim se faz livre das amarras de uma sociedade opressora que..." é isso aí]
[quando passar da fase dos adjetivos óbvios e nomes banais, faça metáforas que ninguém compreende. como "a vida inteira passa em canos enferrujados e minhas lágrimas são chuva ácida." e justifique isso com uma afirmativa como "a verdadeira poesia vai além dos alicerces da razão" ou algo do gênero]
[tenha a afirmativa citada anteriormente salva no seu "ctrl+c" e anotada na penúltima folha do seu caderno. para emergências]
[faça textos idiotas e irônicos divididos em tópicos diferentes. pode ser uma receita de bolo disfarçada ou um passo-passo para qualquer coisa. isso também é original e pós-moderno. pra ser mais cool ainda, diga que é um poema com um olhar crítico da civilização ocidental disfarçado com uma pequena influencia de humor britânico, à la Monty Phyton. (nossa, boa, vou anotar isso...)]
[escreva títulos longos e versos assimétricos para seus poemas. para demonstrar sua versatilidade, depois, escreva sonetos de métrica incorreta. justifique o equivoco com o mesmo papo sobre "pós-modernidade liberta o individuo contemporâneo..." blablablá. use essa mesma desculpa esfarrapada pra justificar seus erros gramaticais]
[compre meia dúzia e meia de dor e amadurecimento no mercado livre. reze para não darem um lance maior que o seu antes das 2 horas da tarde do próximo sábado, senão...]
acho tão metafísico esse botão estampando a palavra "Criar", na primeira sub-aba da sessão de "Postagem". juro, tanto por ele vir de cara, a primeira e imponente opção, quanto, mas principalmente por dele vir, justamente, a derradeira e única saída para a produção e publicação de textos. tá, e? é que eu vejo muito peso no verbo "criar", e, talvez só veja e sinta tal peso em outro verbo, o "amar", provavelmente por razões bem similares... talvez eu acredite que ambos os verbos criem, em um sentido mais abstrato, mas em espécies diferentes. um, coisas 'inanimadas' além do indíviduo, outro, 'laços' entre coisas animadas, também além dele (embora muita gente ame coisas de existência pessoal, sem vida, literalmente, como amar um carro ou uma pia entupida, mas isso é outra história, pois pra mim estão apenas exteriorizando um pedaço de si no objeto x e ali...ENFIM, isso é outra história. e pro inferno minha achologia limitada).
dai garoam as perguntas... e os filhos? se criam? só se utilizar-se da etimologia "cuidar", associando seu sentido ao verbo que me refiro. porque parir um filho é diferente de "criar" um. na verdade a própria noção de criatura criada (nós) já traz por definição o ato de dar a luz por união sexual e/ou amorosa de um novo ser. nada está sendo criado nesse sentido, apenas está sendo efetivada a continuidade da criação em seus termos "contratuais", digamos. se fôssemos tão poderosos assim, poderíamos parir crianças com rabo de porco, como no romance de Garcia Marquez, ou eu poderia optar por criar um rinoceronte africano com minha futura esposa (que provavelmente me mandaria pro inferno ou exigiria um divórcio logo que eu tenha proposto isso à ela).
outra pergunta: qualquer tipo de criação leva a um elo de exteriorização do indíviduo? talvez, sei lá. eu posso criar algo dentro de mim mesmo e fazer isso brotar? sim, isso é o sentido da criação "artística", naquele papo metafísico que endeusa quem produz qualquer tipo de arte. mas e se criar algo dentro de si e isso continuar confinado lá, terá sido isso, nessas condições, criado? e se eu disser que criei, que amei, que fiz um cadinho a mais de vida partindo de mim, sem ter botado pra fora, seja em forma de discurso oral, ou em poema, conto, babaquice. alguém acreditaria? poderia clicar no botão "Criar" e dizer: "pensei num poema. eu juro"? vocês acreditariam em mim?
Friday, May 01, 2009
ser parcelado, desapressado, descompromisso contigo
que ei de levar prum outro plano, babe
num outro plano estaremos de braços dados
embora você se apresse pro amor dado
então você se aquece e joga os dados
seu cheiro, lavanda, e outros nomes com anda
vai, vai duma vez que já o amor desanda
sai mais com pressa que receio, vai
antes, antes que eu te chame de luanda, amanda
leva essa sofreguidão pra lá que aqui eu quero tua mão
não o teu bilhete de volto logo nunca beijos
quero sorrir a calma de cantar lado a lado essa miragem viva
mero sorrir da alma, andar despedaçada essa coragem fina
se engrandecendo diante do teu medo e da sua fuga em ré menor
se repetalando tão inversamente proporcional ao teu adeus
cedendo e minto: estou e vou calmo esquecendo a vida
que ela me esquece e somos dois: corpos ao vento e ao sol
sombra e grão, horizonte me perpendicula, firmamento se acima
caia por mim sua tempestade de areia que a visto inteira
Monday, April 27, 2009
Monday, April 13, 2009
ensejo
que deus abençoe quem com amor extende a mão para retirá-la com pressa logo em seguida
e que perdoe com amor cada beijo escarrado a distância que darás de peito aberto (e mais, que mais sagrado ainda seja o ato de nem assim lhe reagir e continuar a caminhar simplesmente)
que deus abençoe nosso lar maior prisão que poderíamos ter comprado à prestação, consórcio e financiamento
que deus abençoe nosso futuro para sermos felizes com cada pedaço de chão no qual caímos tontos de bêbados e podemos chamar contudo de nosso e abençoe-nos uma vez mais quando isso assim nos for o bastante
que deus abençoe com seu poder e glória o fato de termos aprendido a viver apesar de: apesar de não vivermos, apesar de termos aprendido a não querer viver, e que a partir do momento que isso for razão de nossa felicidade seja instaurada a paz em nossa alma
que deus abençoe a graça de termos nascido prontos para compreender ninguém, nem a nós, muito menos (e agora damos uma risada) ao próximo
que deus abençoe estarmos nos beijando agora e termos sidos agraciados com o dom divino de não sentirmos falta de nada depois que o tempo impor-se como de natural separando-nos
que deus abençoe o fato de eu ter braços para cruzar ao invés de abraçar, e pernas para correr ao invés de andar (lado a lado)
que deus abençoe o nosso pouco saber, pouco saber torto de lidar com o que queremos de fato, com o que queremos do passado
que deus abençoe os dias que nem a chuva que me traz febre e que nem o sol que me sua o corpo seriam o bastante para fazer esquecer de mim em detrimento do meu corpo e que por alguns instantes eu poderia sim talvez quem sabe estar em algum lugar além de mim e conseguir desejar um pouco, mas um pouco que fosse e que seja que eu fosse um pouco bem pouco daquelas coisas que um dia eu quis com tanta força e quando digo isso me refiro menos aos sonhos de infância que ao me foi instruído: afinal o que eu desejo é sim o que me foi dito como bom, por isso mesmo digo que eu quero o mal, eu quero ver o ódio abençoado a impregnar minha alma e fazer-me pecar, mas pecar com força maior, força estranha a mim então, força incisiva principalmente contra aquilo que me definiram pecado
que deus abençoe o tesão que sempre sinto por ti se o próprio me ajuda a sentir algo além dele
que deus abençoe o bloco que passa e me leva e me quer porentre seu canto pois quero-lhe por entre oqueeu canto também
que deus abençoe as estrelas cujo nome me é impossível esquecer
que deus abençoe o desespero que sinto quando diante da minha vida inteira a única coisa que consigo querer é fazer sentido
Sunday, April 12, 2009
de sorrisos entupo os ladrilhos
das portas batidas revivo as despedidas
lasca caída - pessoa que veio, ficou e passou
na calçada deitada fica aquela que me cedeu o colo
há poucos estranhos passando em suas bicicletas
o rosto novo que me fica é o rosto antigo que ficara antes
a pessoa incógnita que me fita me preenche e compreende
do alto, podia, seria uma zona sul ou o açúcar a me voar
ma'são vozes-radio, ao invés de paisagens-óleo
ecoando o meu peito afora, vi as canções compostas
de conversa, amor, praia, trilha, minha, vida, pódio
se estou lhe fora, sinto-lhe de fato amputada em mim
como se cidade Redentor me rendesse a luta
tampouco o asfalto ou o horizonte cimento tenham culpa
ciente faço o amor ferro e brasa que vós me fizestes
aonde quer que eu vá carrego já, já é tarde, diria
lugares? sim pessoas, nuas em mim, a luz do dia
Saturday, April 11, 2009
fds
Thursday, April 09, 2009
veríssimo
vamos correr agora que a pressa vem aí
atrás de carne podre fresca e almas virgens em caridade
cheio meu peito incha de tanta interjeição por dizer
de tanta saudade deixada pelo caminho que tropeças tu
que destinada fora a querer demais aquilo que jogas fora
ó, teto azul de nuvens cujo traço desaprendo
ó, descampado que preso ao meu quarto sopra um vento magro
opaco, incapaz, leva e deixa aqui com e sem urgência quem eu quero
vamos ver para que lado tu sopras, embora, vento
creia eu que há para ver menos, a essa altura, teu destruir
que o que constróis, que corre, que curra, que o que acorrenta
numa necessidade cega e tísica, que te passam pelo tempo
leve, desmantele e sele os abraços dos braços que ficam dos que vão
seja o peso inexistente, seja o esquecimento maduro que preciso (para ser) forte
Monday, March 30, 2009
livre de mim o escuro que faço conforme te vejo e te faço em mim pra mim apenas
livre assim estarei no momento que fechar do lado de fora (de mim) a cegueira que
livra dum açoite o tédio tanto amor sem causa se me amo menos o resto do mundo e fim.
Sunday, March 29, 2009
nada a temer = nada a encarar
nada a encarar = problema de vista
falo a verdade mais por falta de vocação à mentira que por honestidade
"melhor não ter o que confessar e pecar sem referencial de erro"
ultimamente, a melhor qualidade que me descobri foi de eu não ser tão 'bom' quanto que eu achava que era.
[da serie 'eu gosto do obvio' ~perdi a conta]
Wednesday, March 18, 2009
Monday, March 16, 2009
migs
ama meu peito sem sangrar, sem escorrer
ao ar livre, sem gritar auto-falante que ama
a tarde que eu cheguei e soube de cara que eu queria você
queria você, mais que nua, fosse vestida de mais que simetria, de moda, de estética, de meio, de baba, de assobio e cantada, que fosse cantada como canção que devia ser, ao invés
em segundo lugar, guardo de ti a certeza do que me faz
perder a paciência, o ônibus e as horas, você me traz
cada xingo e ódio com mesmo amor que guardaria
as traições que 'cê me faria, mas nem fará
por terceiro, pera, vou lembrar bem, eu acho, ter achado, te querer com os outros quando preciso, comigo quando eu preciso, qualquer parte que precise
só me deixa um recado quando for porque necessito sim que você me seja também.
Sunday, March 15, 2009
pausar logo mais um "quê" que lhe darei
em breve, juro, vamos nos salvar, por quem
daqui a pouco, espere um pouco, me dê um pouco
de tempo, do tempo descompromissado
que você despejava do bom dia ao por favor
das recepções, ao salão, no bar e no elevador
até amanhã, me esteja, me despeja em ti
a dura verdade é metade do que já foi
era que eu queria muito guardado em mim
você cai tão cedo, já as seis beija com medo
minha boca, e bate a porta, e mata a sorte
sem chover, amor, salta esse infinito
que você ensejava do bom dia ao por favor
se acalme, em alguns minutos-luz chegaremos
aonde queríamos estar - e até lá, esteja aqui.
Saturday, March 14, 2009
..
eu me digo pelo adeus que lhe nego
refaço na estrela, manhã que rodeio
à órbita remota, mundo, desapego
incircunstancialmente carreguei a saudade em meus braços até o rio baldio mais próximo e lá fizemos nossos filhos com pressa e temor doído de que chovesse, de que nos vissem, de que nos abraçassem e beijassem, de que estivesse escuro em breve, de que o céu aberto se tornasse derepente os elevadores e os azulejos das segundas e quinta-feiras, e com o amor inteiro que nos restava aprendemos a nos jogar com paixão e dúvida nos esgotos e valas da vida pelas quais pássavamos frequentemente desde então e sempre, e deixamos a terra mijada por ratos e cadaverizada por baratas e latas de refrigerante entrar em nossos tênis, e nos arrependemos de nós mesmos afinal.
na tv, na internet, nas poucas rádios que restaram, nas ruas e becos e assaltos, nas boates e botecos, no jardim e colegio, na universidade, nossos estranhos, coadjuvantes, figurantes, pais, amigos, colegas, apresentadores, professores, advogados, personal-trainers, astrólogos, cientistas, psicólogos, filósofos, comentaristas esportivos, narradores, cineastas, cantores, romancistas, poetas, críticos de arte e culinária, nos ensinaram apenas uma palavra, e com ela dizemos, e suas letras desmembramos, recombinamos, resignificamos, negamos o que estava escrito antes de nós, negamos o que fora escrito antes por nós, vezes o bastante até sangrar os ossos da mão suja que buscara em desespero um sentido destro, sem tempo, nem sempre foi possível ser e estar, o tempo esgota e descobrimos só enfim que a tal única palavra era a palavra errada (pra nós).
noite a fora nos bolsos, meus amigos n'umbigo
meu amor na beira da boca, meu prazer na palma da mão
agora esqueço as verdades que me têm lido
e cedo e tarde em mim entram em comunhão
não.
deixarei no mesmo exato instante de sê-lo
(ainda que o que eu diga não seja de fato nada:
nem eu, nem ela, nem ninguém)
aliás, desconfio que já me disseram isso
-
veja bem,
escrever é absoluta e concretamente diferente de querer escrever
verbos diferentes, semânticas diferentes, planetas diferentes
quem quer dizer acha que diz, enquanto quem diz nem está consciente daquilo
-
e que fique claro que estou bem longe de querer ditar
o verdadeiro e o falso
(como se o mundo fosse tão limitado quanto um bolo de morango - divisível pela metade)
sobre qualquer merda que eu possa proferir aqui
eu não quero nada
[dá série "eu gosto do óbvio". 'parte 02']
Tuesday, February 17, 2009
here's to you
você encena uma despedida e eu penso em dizer oi
mas estamos sem tempo para sentimentalismos
ou de fazer o que nos der vontade
enquanto chove você fica perto d'aqui
e a marquise se encolhe de alfinetes
vamos nos abraçar mas esquecemos
nossos braços em casa
e o que sobra é o que dizemos
e dizemos nada
estamos a sós na mesma memória
temos tempo o bastante para estragar as coisas
ainda, você pensa, e pensa duas vezes
enquanto eu penso dezesseis, até finalmente
não termos mais paciência para frescuras d' carne e d'alma
uma vez me disseram que as coisas são mais fáceis
para o lado que quer dizer adeus
mas esqueceram de me avisar que elas são desumanas
quando ambos tem que dizê-lo
sem ninguem ter vontade de querê-lo.
e surpresa
*respira*
o tempo que torramos é o suficiente
a saudade que colhemos nos basta
só que há de desmedido aqui
é essa mania de (querer) dar certo
e a fobia do (que é) contrário
[dá série "eu gosto do óbvio". 'parte 09']
se
ferir, resolveu
tornar
pro lado que
fere
(fazendo de conta que as duas coisas são tão diferentes assim)
para
pôr fim
na cantoria, decide
se tornar a audiência
calada
... (um lado finge que diz, outro finge que ouve;
mas no fundo estão fazendo isso mesmo)
[dá serie "eu gosto do óbvio, eu acho" - parte '03']
Saturday, February 14, 2009
up there
pessoas que se amavam se procuravam versos para dar-lhes umas às outras
Sofia saía de manhã pra colher gotas de chuva, exclamações e comprar pães
A parte boa do dia, sempre, ela dizia por debaixo de um meio sorriso
A tarde e a noite e a madrugada era o corpo inteiro dela que chamava
O universo que se reduzia à atómo para acarinhá-la e tê-la consigo
E os dois se guardavam, para si, para ti, para que o resto do mundo tivesse ainda sentido
A cada manhã que levantassem para continuar vivendo o tempo que lhes restavam
Então que Sofia saía de manhã, colher gotas de sereno e lágrimas, porque era muito bom
e triste que a vida estivesse tão cheia nela, antes que cheia de si, cheia no céu que caía na chuva, na gravidade, no meteorito, na nuvem e na névoa, na luz de sol e radiação lunar
Triste porque... porque sei lá, tem sentimentos que são tão grandes e sem nome que o melhor é dizer que são o que não são, fiapos de velha fantasia vazando sob a cama em pedaços de carne de um velho monstro já extinto
A vida que estava com tempo o bastante para ter tempo de sobra e gastar sua vaidade pura, desespero quieto, poesia eunuca, e ansiosa de despejar seu desejo cego e sincero sobre o(s) que amava.
E então Sofia saía de manhã sem pensar quantas manhãs seriam daqui pra frente, ou daqui pra trás, ou daqui pra cima... Sofia saía e queria muito que o resto do mundo saísse também.
Sunday, February 08, 2009
quiçá
Saturday, January 31, 2009
q
se a necessidade do isso e aquilo fosse desespero clínico psiquiátrico tratável
ou doença erradicada
se o meu e teu fosse nem nosso nem del
fosse infinito qu'eu quero
fosse deslocado onde estou
incógnita insolúvel a certeza e beijo à três o descaso que faço de ti agora
por sermos diferentes
que restos de eternidades seriam essa noite e as quarta-feiras-não-sextas
que incontáveis, inrotuláveis canções cantaria em sacadas, quartos, terreiros
que sonhos pariria sob quantas árvores, colégios e celeiros
que misturas heterogêneas amaria num mesmo abraço
onde guardaria meu medo de amar
se amasse tudo
quê seria eu, se amasse tudo.
quem seria eu se amasse o que
Monday, January 26, 2009
10 e meia
se está prestes a chover ácido e coca-cola do céu
você corre prum teto e abraça seus lençóis pingados de suor
ou extende as mãos pros céus e diz "sou bem maior do que pensas, viu?"?
(páre de rir pois agora sei onde está se escondendo)
fique longe de mim
dê uma sapatada no abajur
e esteja perto outra vez de vez
hoje em dia o que te abriga é a dúvida?
vou te dizer que acho que ainda preciso entender o que sinto por você, tá?
mas fique calma, terei menos certeza se às 11 e meia da manhã vai estar claro
do que disso
então, hoje em dia o que te abriga é o que enlaçamos agora?
espero que isso seja um bom sinal
.é
Wednesday, January 14, 2009
As baratas me intrigam. Em dias frios você quase esquece a existência delas. Pensa em caramujos pendurados na veneziana de suas janelas (e em porque diabos eles escolhem lugares tão peculiares para tirar uma naninha), pensa em assistir novela das oito (ou nove?) pra ter assunto com a trocadora de ônibus, pensa cortar as unhas, porque elas já estão engaixando entre as teclas do teclado do seu computador, pensa em continuar a escrever aquele livro sobre monges australianos e pedófilos, pensa em sair na rua e ser atropelado, enfim... Menos nelas. E elas surgem em dias de calor tão naturalmente quanto a gravidade jogará minha barriga pra baixo daqui uns anos. Da última vez eu vi, inclusive, a tampa do ralo se mover, e se fechar para trás, enquanto um desses indivíduos passava à velocidade da luz (na verdade li uma vez, usando minhas horas vagas para ler sobre baratas na enciclopédia, que se elas tivessem o tamanho de um homem correriam 150 km por hora. Weird.) Tentei contornar o problema com um tijolo, e só deus sabe como, elas passam por debaixo dele, se materializando aos poucos do lado de fora. Conclui que as baratas são paranormais, alheias à qualquer coerção social, tem poderes psiquícos, se teletransportam, voam como jatos supersônicos, emitem raios ópticos destrutivos de calor, e nunca vão desaparecer. Tá, em parte eu devo sentir um pouco de inveja.
Meu quintal tem uns esquilos também, que volta e meia entram pela famigerada janela da cozinha. De lá pegam alguma coisa do fruteiro, geralmente frutas (dã), claro, sem deixar derrubá-lo e espalhar as coisas chão a fora. Uma vez um deles veio e dormiu na minha estante de livros, e certo dia, à procura de um livro do Dostoievski, eu vi... Tá, é sacanagem, não há esquilos na droga do meu quintal, e tãopouco eles entram na minha casa, conseqüentemente (com trema mesmo). Mas eu queria de fato que isso acontecesse. Porque sei lá. Eles são rápidos, e comem nozes, e eu adoro nozes... tá, não me olha com essa cara, não tenho deficiência mental, é sério! Acho eles especiais. A beleza involuntária, a vida natural em florestas temperadas, hiperatividade compulsiva, moradia em buracos de casas de árvore, escalar dezenas de metros todos os dias, e, dependendo da espécie, a incrível capacidade de voar (pelo menos reza a lenda)! Na próxima vida eu arranjo um requerimento e nasço esquilo.
Quando acordo tenho certeza do quero e de onde estou. E os gafanhotos que vi outro dia na televisão, sendo esmagados contra a hélice do avião, daqueles E-16 ou alguma sigla do gênero, tipo antigo, adoram me vir à mente com seus três pares de pata e asas. Uma manhã de sábado, você sai de casa em busca de alimento para si e sua família quando uma máquina de metal gigante atrevessa teu caminho te trudidando em incontáveis pedaços. Bem em dias assim que eu não me sinto melhor que inferno algum nesse mundo.
Será que há fila de espera para o requerimento de esquilos?
Thursday, January 08, 2009
como dizia, eu
Monday, January 05, 2009
Thursday, January 01, 2009
Wednesday, December 31, 2008
.
Thursday, December 25, 2008
Monday, December 22, 2008
assim
hora de partir
está em casa ainda
despedida sem tanta saudade
acumulando-se em tufos de poeira pelas vielas sem varrer.
meu lado que grita desaprende de ver do céu as coisas que ele precisa ver para estar aqui
rezaedesesperaaindaassimcontudo, para as estrelas que... não faz idéia se tem nome
ele diz com tanta certeza que não quer mais que me convence por um segundo negativo
daí lembro que isso não existe
hoje cedo chutei as paredes do quarto até aranhas caranguejeiras caírem do teto e
e foi então que eu descobri que eu não sabia mais o que dizer, e, naquele ponto. eu resolvi parar de sentir saudade daquilo, para sentir saudade disso.
Saturday, December 20, 2008
quase randômico
a minha alma está em partes
partes diferentes que guardo conforme quero errar
partes iguais tingidas, e que eu quero dividir
eu queria mesmo era que a minha alma
estivesse em toda parte
que eu queria estar
mas até lá, eu vou estar separado e separando
me e os dias que quiser gritar
digo, esquecer o que eu vier a gritar
(as frases que guardo estão em parte de mim também
as que ouvi dizer e as que fí-lo eu mesmo
essas sim estão espalhadas pelo ar
que as vezes ainda tento respirar
essas sim estão por toda parte
no abraço que faço você dar por mim
saudade que digo que os outros sentem
ah, tão pouca verdade eu tenho carregado
e digo que estou bem, que estou bem
mesmo que esteja, querendo dizer
com diferentes letras e idéias
que o mundo inteiro eu queria ter
querer que o mundo inteiro tivesse um pouco mais
de gente do que eu, você, ela, ele
porque quem sabe assim...
quem sabe assim):
fechei a hora e a parte errada, como sempre
Monday, December 15, 2008
cansei
sua voz só faz sentido
se está frio e tarde e ruim
ma'disfarça e vamos dobrando esquinas
e bilhetes, e vamos colhendo
o que temos:
o que quis ontem
o pedaço era outro
o que eu mesmo está lá
aqui nunca
e eu sei que digo e disfarço mas
faça o contrário ou o que quiser
faça nada, é segredo agora
está frio e tarde e ruim
e a última coisa que quero é fazer sentido
Monday, December 08, 2008
prelúdio
vou te dizer umas histórias e pouca verdade você irá tirar delas. só
espero que quando a hora chegar, saiba você que eu escondia, sim,
principalmente as coisas que eu sabia que me custariam muito. as que me
seriam deveras complicadas de proteger, eu enterrei, e as que ainda
estão por aqui, escondi tão bem que nem me lembro mais onde estão.
as coisas que eu vou dizer aqui são segredo até para mim mesmo, e vão
continuar assim até eu realmente ter vontade (e entenda isso como
capacidade, em sentido de limitação mesmo) de dizê-las.
Thursday, December 04, 2008
Monday, November 17, 2008
2 terceiras Pessoas
...
as nuvens se formam e chovem em cima de mim e me pego falando em voz alta, achando que você estará atrás da porta esperando eu te dizer para sair de uma vez. o quarto está vazio, e a televisão está ligada para ninguém assistir. as coisas estão organizadas finalmente após milênios, só para quando você voltar de uma vez novamente, e eu espero que ainda não seja a última, e que ainda hajam muitas e muitas, mesmo sabendo que um dia só o que vai voltar são as más impressões, meu nome que ouvirei sem ninguém ter me chamado, o telefone tocando sem... eu me pego assim com os braços doendo e a cabeça fumegando cansaço e dor, e encaro o teto vezes o suficiente para me certificar de que ele será o mesmo pelas próximas horas. começo a suar, ainda que esteja, como disse, frio, e que as janelas estejam sempre abertas, e vou tirar comida da geladeira para fechá-la logo em seguida, afim de ter a sensação de no momento que eu bato a porta dela, será você virando a chave e trancando a rua do lado de fora. aumento o volume do aparelho de som, e começo a cantar distraidamente, ainda que em momento algum eu realmente esqueça totalmente de mim ou de você. eu realmente espero a cada instante tomar um susto com você já trocando de roupa e rindo da minha cara enquanto banco a retardada me fazendo de Janis... só que dessa vez sem sustos, ok?
...
e eu te digo bom dia, e você está se encaminhando para o outro lado da sala, com alguma cara que me é desconhecida e planejo te perguntar o que é mas desfaço a pergunta. a semana se passa e a sua cara se repete e as perguntas continuam se desfazendo. eu te pego pela mão e sorrio, e lembro que você sequer veio hoje. dou de cara com os braços vazios à sua porta e digo que não vamos mais matar aula para sua mãe, e que sinto muito, sem saber o que sentir. porém, parece que foi você que tinha aberto, e foi você que disse "eu também". foi para o seu quarto que fomos assistir desenho animado, e a sua mãe só bateu a porta trazendo pipoca e guaraná. e na hora da saída te pergunto dele, e você diz que jamais, e juntas repetimos, "jamais", conforme nós vestimos nossos casacos de novo, e você me promete guardar segredo, e eu prometo e guardo. e nos juramos abraços que saberíamos negar no futuro, ainda que você tenha se saído muito melhor que eu quanto a...
...
o telefone quer tocar, e eu sei. eu penso em ligar para ela, ainda que sejam anos sem notícias. os anos de silêncio que eu insisto em esconder aqui. de quando guardávamos juntas o que temíamos e cavávamos, e enterrávamos juntas nos nossos quintais o que tínhamos de mágoa e desespero. agora me é impossível medir o quê e o quanto nos separa. eu grito para dentro tão rouca o que quero dizer pra ela, que me arrependia de ter implodido tantas pontes e cartas, e que se você se for eu só terei a ela, e às vezes acho que ela deve ter me esquecido, embora saiba que isso seja impossível. por mais que eu merecesse. e eu acho que sempre vou precisar del... e você não chega e eu começo a te odiar. e à essa altura eu realmente já estarei te odiando. ainda mais do que eu o faço agora e muito menos do que você mereceria. e os telefones passam as próximas semanas e meses sem tocar, e eu enfim já tinha desistido.
...
queria que você estivesse aqui. ele nunca.
...
eu acordo nessa manhã lembrando que daqui a pouco você não estará, e sinto uma saudade com gosto de desespero. um desejo com angústia e pressa de aproveitar e estar aí contigo e de ter perdoados, em um abraço, de antemão, os pecados que eu sei que lhe vou cometer nos próximos anos. sinto que quando te ver eu aproveitarei de forma fútil, inconseqüente e medrosa o tempo que tivermos, e vou lhe dizer "não" vezes demais. e agora-agora? o que posso querer é que você esteja dentro de mim até a consciência de quem eu sou se apague completamente. eu acho.
e, e eu acho que acho que é só saudade. e espero mesmo que seja só.
Monday, November 10, 2008
eu acho
Tuesday, November 04, 2008
Que um dia faz de mim o que quer e eu quero
Que desesperei e com amor teu vício amei
Que luz e luz são vida e eu e você é sorte
Que bom era o que já passou eu já sabia estar passando
Que pesei às minhas costas menos do que pesaram às suas
Que nuvem cai quando quero um céu distante de quedas
Que dia faz que eu soube um sim sem saber o que então fazer
Que toda vez que eu durmo eu posso prometo uma última vez
Que o dia fez de mim o que quis e eu nem
Que exasperei e sem esperar eu te esperei
Que luz e luz apagam com o eu e você
Wednesday, October 29, 2008
Monday, September 22, 2008
tels (outra canção)
o que é dito é o que não se diz em três palavras
o que é dito é o que acontece conforme
o que se entende por tempo passa
o que há pra se dizer não se faz com sujeito, pronome pessoal e verbo
o que há pra se dizer se dissolve disforme enquanto
o que está sendo dito não importa tanto
o que é dito é o que se diz quando se quer dizer outra coisa e
o que fazemos para demonstrar isso é não dizer
o que é dito é o que eu quero, mas estamos longe demais disso, então
o que eu vou fazer é querer dizer e guardar
o que é dito é o que eu firo e protejo
o que é dito é o que eu firo e protejo
o que é dito é o que eu firo e protejo
Tuesday, September 16, 2008
this is a love song
vamos estar errados
vamos ficar encharcados de suor e chuva
vamos esquecer que devemos esquivar
vamos proteger
vamos desconter
vamos jogar dados e acertar a hora de dar certo
vamos gritar todas as palavras que acabamos de aprender
ao vento
e deixar elas nos acertar o rosto
e sangrar e lagrimar
o que ainda temos de vivo
Sunday, September 14, 2008
estou quase lá
mas me sinto muito bem com isso
acho que isso é um bom sinal
Wednesday, August 20, 2008
com
Sunday, August 17, 2008
Sundae
Thursday, July 31, 2008
veja bem, aprender a amar foi a coisa mais estranha que me aconteceu. tanto que eu não aprendi e fiquei assim. tentei tentar quando devia me prometer, e correr nas horas que eu deveria estar abraçado. mas isso não é sobre o que eu já tinha dito até agora. aliás, nada disso é sobre coisa alguma. há coisas que não podemos tocar e elas continuarão intocadas, e por mais que estejamos distantes da hora certa, elas estarão lá, as que tinham acontecido ou que estão para emergir. e por mais que você aperte o peito com força, e preencha de significâncias àquele momento posteriormente, não seremos capazes de saborear mais nada. minha galáxia crepom preta, de porpurina ao invés de estrelas, de insuportável proximidade ao invés de distância-luz... estaremos divididos demais, entre nosso lado afetivo-sepultado, entre o certo-errado, e entre o que eu estou prestes a te dizer agora, mas que não direi. e só irei dizer "não" mais uma vez pelo simples prazer de me privar.
Wednesday, July 02, 2008
e, em um belo dia, quando o céu estiver mais próximo do que jamais estevevocê prometerá estar sempre ao lado dela
mas você não estará
e notará, no dia seguinte, que o céu estará no mesmo lugar que sempre estivera
e então você passará boa parte do tempo que lhe resta aqui se perguntando
quem se afastou de quem
Friday, June 27, 2008
s
os outros pensam que
ele esta aqui e que
ele vai dizer as coisas que
os outros precisam ouvir, e que
ele só faz isso por eles, ou por algum amor distante, e que
é comum ele parar ali, e que
não é nada anormal ele gastar umas horas da vida dizendo que
as cores que ele via eram destoantes do que
ele gostaria e acreditava que
fosse o resto das coisas que
o rodeavam, e que
rendo ou não, no final inacabado que
não fazia sentido, é engraçado pensar que
ele que
ria dizer algo especificamente, e que
aquilo precisava ter um sentido, sendo que na verdade o verso está em branco porque
a parte hilária é chegar a conclusão que
eles realmente pensam que
ele respira porque
é normal respirar, e não porque
ele precisa ou porque
ele que
r
Wednesday, June 25, 2008
gago
Que eu diluí em minhas palavras
alguns segredos e então
misturei com o que eu encontrava
mas acontece que eu encontrava
qualquer coisa que eu encontrava
umas coisas a mais para desmentir
eu encontrava para poder desmedir
para desmentí-las
e parar para o segundo e saber
perguntar o caminho para Babylon
para aprender a perguntar à
um jornaleiro qualquer e
de uma vez aprender a saber
o caminho para o qual
eu apontaria o dedo indicador e
poderia dizer enfim que seria este
ou aquele, e seria assim que eu te diria
e que seria assado o que eu esconderia
e descoloriria o que eu viesse a tropeçar sobre
e descobriria o que eu viesse a destroçar sobre
um mundo inteiro de pedaços que ainda
(mas espero mesmo um dia)
tenho
um dia inteiro pela frente
e o rio que cai ignora a gravidade
e é para o céu que isso vai e são as
estrelas o chão, e o chão, mas não o teto
que se faz de barro e azulejo
e eu encontro, e, um pouco
fecho por entre as mãos
(em forma de concha)
observando de soslaio
pintando um sorriso bem breve nos lábios
o brilho estelar do grão de areia
que ainda agora caiu sobre meu colo
...
esperando que
o que restar da gravidade
nos leve para longe das órbitas dessas
vidas que de quarta à terça
a gente faz girar com a mesma vontade
que mordemos cacos de vidro e
esperando
que o que tiver de brilho ainda
faça essa palavra se dizer por si
só
digo
acompanhada
de vez
e de uma vez
por
tudo
as opções
acima
são falsas
ou verdadeir
as
vezes acho que sei o que eu realmente devia querer
além de
você
(vírgula)
é
claro
Thursday, June 19, 2008
Thursday, June 05, 2008
Ainda Pt. 2
obscuro, disfarçado, dessentido
o lado que você não escolheu para ser
o lado que outros poderiam ver
deixa eu ver a sua indecisão
e a sua dúvida quanto ao que mentir dessa vez
o lado que você fingiu realmente ser
o lado que você queria ter
e você irá apontar o caminho com estrelas nuas
e nenhum de nós irá brilhar, de noite ou de dia
o lado que você não escolheu para ser
o lado que outros poderiam ver
e você irá dizer que é medo, é errado, é estúpido
e confuso, destroçado, desmedido
o lado que você fingiu realmente ter
o lado que você queria ser
e ainda assim eu vou querer ver
Sunday, May 11, 2008
Five Little Boats Kept Inside A Margarine Pot
Digo dois, você diz quatro
e então seis, aqui está
O frio está em gotas
O papel em alto mar
Embaço, meu, seu
Nomes, temos assim
Quanto tempo mais?
Dois minutos, ok
Segure aqui, diga xis
Diga bis, diga o que você
Não quer, e então diga
O que você mais quer, e
Então diga se você me quer
Tenho em mãos, as suas mãos
Cinco barcos e dois braços, e você
Some, em tempos assim
Quanto temos mais?
Quanto tempo faz
Que você passou
Que você esteve aqui
Friday, May 02, 2008
pêndulo
precisamos ir pra um lugar muito distante
distante o bastante das coisas que já fizemos
distante em um instante de nós mesmos
longe daqui, e desse riso que guardamos
breve e tênue, como... como aquela lembrança!
vai planando no ar, pendulante à nossa frente
mas tocá-lo, nem eu nem você conseguimos
muito mal sabemos querê-lo aqui presente
vamos para longe daqui, e agora
lugares novos, livres de saudade e horas
e secretos, como o tempo que não temos
escondidos entre pedaços de bolo e selos
escondidos entre pedaços de sonho e vê-los
voar desajeitados - com uma asa a menos
longe daqui, e desse peso que guardamos
escuro e bruto, como... como a insegurança
que caía entre flocos de neve e pesadelo
que tocávamos pra fazer de conta a esperança
mas no final dos versos que acabamos por sê-los
acabamos e acabamos por sê-los
acabamos por sê-los, acabamos por
for
por um distante o bastante das coisas
por distante um o bastante coisas das
baby, longe daqui riso guardamos que
baby, secretos como o não temos se
vamos ser adiantes longe de a aqui
escuros, brutos, novas saudades, parti
distante o bastante das coisas que não fizemos
distante em um instante dos nós mesmos
Monday, April 21, 2008
bleu clair
Quando você me disse para dizer adeus, eu pensei que era algum tipo novo de brincadeira ou peça a ser pregada, então fechei os olhos e disse: adeus, adeus mamãe. Era já a manhã seguinte, e a porta do seu quarto continuava fechada, trancada, e dei batidas leves contra ela, com medo de te acordar com um susto e te deixar mal humorada tão cedo. Sem resposta de volta, passei a bater mais forte, e assim progressivamente, até minhas mãos doerem a um ponto que pensei que iam começar a sangrar sem parar. Cessei as batidas, e meu coração apertou e eu comecei a chorar copiosamente. Na rua uma banda, dessas baratas e meio desafinadas, começou a tocar umas canções, provavelmente contratadas para celebrar sem naturalidade a reinauguração daquela farmácia velha dos Almeida.
Sunday, April 20, 2008
Sobre Caramujos Alpinistas Na Parede Do Banheiro
E diz que ”sempre” é duas vezes
Aquele dia formalmente dividido em 7 partes
Repete “tanto faz, um dia ou 9 meses
Fazem-me prisão e decomponho qualquer arte”
Eu estive além do muro, onde quem mente
Encontra a mais supremadivinacasta rendenção
E, sim, lá estive porque lá o fiz, “’sente?
Eu perco um dedo a mais cada vez que extendo a mão”
Enquanto a hora passa, o vento arrota
Vão dizendo que um dia você se atreve
E morre com 3 facadas diferentes, “sem porta
Aberta, ou certezas e convicções: jamais as teve”
Preste atenção! quando acabar, corra e não desate os nós
E associe esta lógica ao seu mais extremo sentido
Ninguém jamais dirá, e palavras em si não se dizem por si sós
A verdade é inogârnica e só grita ao pé do ouvido:
“Desejas-me quanto mais sabe que jamais me terás
Porém não me amas, pois não existo: o que é jamais será."
Saturday, March 29, 2008
.Eu
Vou aprender a beber água de chuva
Vou aprender a fugir quando precisarem de mim
Vou aprender a olhar pra trás (e cuspir naquilo que eu ver)
Vou aprender a rir de você (e nas horas mais inapropriadas)
Vou aprender a me esconder por trás do que eu deixar de dizer
Vou aprender a correr com desespero rumo a cada coisa que eu odiar
Vou aprender a ser falso e vil, e a usar o próximo em meu proveito, e a saber trair
Vou aprender apertar a vida contra o peito com tanta força que vai ela sufocar, praguejar e morrer
Vou aprender a desconfiar de quem eu amo até chegar a hora que deixarei de amar qualquer coisa que respire
Vou aprender a escorrer a minha saliva e sangue em cima da ferida dos outros (e depois jogá-las na cara dessas pessoas)
Vou aprender a fingir que sei que estou errado quando eu 'realmente estiver' (sem ter idéia de que eu possa estar de verdade)
Eu juro.
Wednesday, March 26, 2008
Sobre maçãs
Sunday, March 16, 2008
11º Dia
Agachei-me mais ou menos na direção dos trilhos para pegar uma meia-meia dúzia de pequenas pedras e jogá-las contra o lago, absurdamente quieto, e enfim testar se o resto do mundo estava inanimado ou se, por acaso, assim ele reagiria de alguma forma, pois já havia horas que eu estava deitado contra os trilhos, inclusive já havia dormido, acordado, tido pesadelos, e algumas dessas coisas aconteciam ao mesmo tempo e eu cantava canções para mim mesmo e tentava fazer o tempo ou coisa que o valesse passar, só que nada acontecia, até o ar parecia estático e, assim, foi quando eu saí dali um pouco, e fui mirar as pedras contra o lago e, parece, que haviam mais montanhas do que eu supunha, e elas eram mais altas do que qualquer montanha que eu jamais tenha visto antes, e a base delas parecia ser constituída de rochas amareladas, e o seu topo era levemente arroxeado, e, no céu, havia alguns trechos onde as cores se misturavam como quando chocolate quente começa a se misturar ao café, e as cores são distinguíveis entre si através de finas linhas distintas, que se entrelaçam em forma de espirais, ondas, etc, e, lembro-me agora, as nuvens eram verdes e púrpuras, e o lago era cinza, cinza escuro, e ela estava caminhando na superfície dele, aproximadamente no meio, e eu andei com calma pela praia em sua direção, mais surpreso por encontrá-la ali do que por vê-la naquelas condições, e deixei a água me tocar até os joelhos, e ela então parou, e, é importante dizer, olhando para baixo, com as mãos cruzadas para trás, na beira de sua coluna, e estava de lado, de acordo com o ângulo em que eu me encontrava, mas era fácil reconhecer seu perfil, com o qual já estava tão familiarizado, e, enfim, eu voltei a fitá-la, e ela estava lá, olhando para algo dentro da água, e, também, acabo de me recordar que mesmo vestindo meias, os pés dela que tocavam a água estavam bem secos, e, aliás, a superfície do lago não esboçava nenhum movimento, mesmo quando eu havia entrado em sua parte rasa, e, eu tentei socá-lo, chutá-lo, e nada era dado como resposta, nenhuma reação, e, nessa hora, notei que nada era refletido na sua superfície, nem eu, nem o céu, só havia o cinza, cinza escuro, e eu gritei com muita força, voltando-me uma vez mais para a direção dela, tentando fazer com que ela voltasse a se mover, como há então há pouco, e cantei o refrão de uma canção que amávamos, e xinguei ela de nomes que sei que ela odiava, mas ela continuava parada, e eu tentei adentrar-me no lago, e caminhar até a direção dela, e a água estava, até então, apenas batendo no meu joelho, quando meu próximo passo pareceu ser em falso, e senti estar sobre um abismo, e eu caí por um tempo que me é impossível tangir agora, e como tudo ao meu redor, e tive a sensação de que a única coisa que não parecia inerte em todo o universo, naquele instante, era o meu corpo a cair, só que eu, finalmente, depois, recobrei um pouco de força que eu devia ter guardado, ou que eu, momentaneamente, esquecera que possuía, e, com umas dez braçadas, atingi a superfície novamente, e saí do alcance do lago com desespero e pressa, e quando eu pude recobrar plenamente os sentidos e respirar novamente, levantei a cabeça e vi que ela ainda estava lá, na mesma posição, a fitar o fundo da água, e foi aqui que eu joguei a única pedra que ainda tinha em mãos em direção a ela, talvez em uma última tentativa desesperada, e eu tinha certeza que tinha mirado na direção correta, porém o projétil fez uma curva estranha no ar, em piruetas assimétricas, pequenos movimentos em forma circular, como se uma força superior me estivesse me impedindo daquele ato, e foi para uma direção totalmente oposta da qual eu tinha o jogado, passando por cima da minha cabeça e voltando à altura dos trilhos, e, então, o céu multicolorido de outrora se tornou negro, e trouxe nuvens, na verdade, talvez fosse uma única nuvem, enorme, colossal, que ocupava ele por completo, ou pelo menos até onde os meus olhos podiam atingir, e uma chuva fina começou a cair, e ela era estranha, pois tinha gosto de mel, e era fria, e ela se tornou intensa, e se tornou em tempestade, e só aí a superfície do lago demonstrou ainda conter vida por meio de intensas borbulhas, e um barulho forte começou a soar por trás de mim, e eu vi que uma locomotiva estava passando, com todas as suas luzes acesas, e um apito estrondoso cortou meus ouvidos, e por uns instantes nem a mim mesmo eu podia ouvir, e mais alguns segundos depois, quando a locomotiva parou, pouco a frente de onde eu estava no início, e eu voltei a olhar para o lago, e vi que ela não estava mais lá, e eu corri, sem pensar, para ver o que havia ocorrido, onde ela estava, e percebi que dessa vez eu podia andar sobre a superfície da água, como ela estava fazendo, e notei, ao chegar mais ou menos no ponto onde ela estava antes, que somente aquela parte da água podia refletir algo, e foi aí que, depois de um longo período de tempo, eu pude ver a minha face novamente, e quando isso aconteceu, eu parei, e me olhei-me, e me olhei, como jamais havia feito antes, como se o meu rosto tivesse mudado radicalmente desde a última vez que eu o vira, ainda que racionalmente eu sabia que pouco havia mudado, e, então, tive a sensação de que a locomotiva tinha voltado a pitar, ameaçando ir embora, e de que meteoros começavam a cair por todo o lugar, destruindo superficialmente o solo e fazendo a terra tremer, e de que um enxame de milhões de abelhas tinha surgido não sei de onde, já que não havia florestas lá, e de que o céu tinha se tornado um vermelho só, e de que o lugar começara a ficar terrivelmente quente, e também estava sentindo que tudo parecia estar de alguma forma acabando, e eu acho que ouvi gritos distantes, e outros sons que não sabia distinguir, mas eu não conseguia mais me mexer, eu estava parado, e parado eu só conseguia olhar para o meu próprio rosto, e não porque era belo, e não porque me trazia paz, mas porque... porque eu não sei.
Saturday, February 23, 2008
Friday, January 18, 2008
otherwise
and now we're back here one more time
and now we'll fly away from our nests
very fast, very fast, very fast, every burning cradle
we'll spit us back
and
you...
you...
will hold me very tight
very tight
tighter than the last time
and now you know why
why I took all the hell back
cause it's so much easier
to repeat our last steps
you...
you...
will stab me very deep
very deep
deeper than the last time
c'mom, take my hand
pretend and take my hand
Monday, January 14, 2008
A Despeito
você sabe querer
sabe infiltrar
no que se vê
e no que não tenho mais
e me diz assim, tão simples
é hora de partir
me diz o que passou
o que eu perdi
enquanto dormia
lá atrás
as horas eram tanto sono
serei eu o que eu fizer do que sobrar de mim?
Saturday, January 05, 2008
atmosférica
define
constata
reflete
pondera
esmiuça
contesta
recrimina
declara
dispara
relata
comenta
diz
pontua
opina
disfarça
revela
confessa
gagueja
sussurra
resmunga
grita
choraminga
esbraveja
implora
sua
escorre,
o etílico rapaz da contramão acerca de si mesmo .
Wednesday, December 26, 2007
Cof
daqui de cima é difícil de ver algo
mas claro que há!
eu mesmo vi umas balanceando rimas sobre despeito e ódio
sentadas na calçada que dava de frente pra padaria que abriram semana passada
e isso foi ontem
Pare de levantar essa sobrancelha
você dá descrédito a tudo que digo!
veja, eu vi o soneto, isso, o mesmo de quem te falei outro dia
comprando café, cuspindo, e depois derramando dois litros de vodka garganta a dentro
e entrando em coma alcoólico e sendo levado de maca àquela clínica
acho que nunca mais saiu de lá, mas a questão é exatamente o fato dele estar vivo
e completamente no controle do que chama de vida
O quê?
que vida? como assim que vida, a vida, você sabe...
a vida, que fazemos e vivemos, e o tempo
que algemamos bem no pescoço e cuspimos à cara
Dedique seu papo de que só fazemos o que fazem de nós à outra pessoa, cara
Ninguém está enganando ninguém! é poesia! a vida é isso!
vivo loucamente, e o desejo e o prazer que carrego
são minhas únicas bandeiras
e...
O que é isso molhado em meu rosto?
Monday, December 10, 2007
Ode a Saudade
sou aquilo que sobrou de você dentro de mim
e sinto falta do que está aqui
do que desabafa traçando a mão
contraaboca
des, abafa, des, aprende
des, constrói em pingos
muitos, muitos pingos
monumentos inteiros de gelo
q'eu mesmo derreto ao tocar
e
ao
nem
parar
de
secar
cansado, remenda dois cacos e meio
eu derrubei sem querer
desculpe
prometo que isso jamais se re, re
remendando dois cacos ao meio
assim que se faz a saudade
ou costumava fazer
seja como for, queria aprender a sentir falta
do que se foi
do que está distante
distantedemaisassim
mas se não se foi, e se está aqui
bem aqui
aqui, assim, ó
e, se pelos pesares plenos e definidos, continuo
definitivamente devo dizer
que não sei o que querer
mais
só sou aquilo que sobrou de você dentro de mim."
Friday, November 30, 2007
Wednesday, November 28, 2007
4e2
Dois soluços em um arpejo
Lábio no veneno dedo em foice
Arrepio e convulsão ao tato
Apetece sacia quando hora propícia
Que sejam 15 minutos
Suor duo funde queima
Cospe fumaça em carbono
Bufa arqueja sopra
Guturalmente esgüela
Elaelaelaelaelaela
filho amo puta
te caralho de
O peito pingando
Que sejam 6 minutos e um terço
Vai breu e vem luz
Deixa o cansaço em dia
Pra esquecer que dia
...
Cicatriza selando rompendo
Orloff Lambrusco Heineken
Enxarca pele quase toca
Que sejam 15 segundos e meio
Faz madrugada assim
Quatroquatroquatro números divinos
E dois
Finge se vestir
Cai pela janela
Entra pela portinhola
Se escondem de lençol
Inundam seus corpos de maremotos
E suas almas de silêncio
.
Saturday, November 17, 2007
Azul lá longe
"Realmente me importa saber o que tanto você rabisca aí, nesse canto, esfolando esse papel azul machê,” disparou R., tentando mostrar segurança e incisão em suas palavras. Havia dito em vão, contudo, afinal T. mostrava total desatenção acerca de qualquer coisa que não fosse o citado papel azul. Machê. E arranhava um traço, dois traços, dando a impressão de ser apenas ela um gato revoltado tentando se defender de alguma ameaça. A ameaça, no caso, o papel, que faça-se a verdade, era rabiscado forçada e impetuosamente, a ponto de ser quase atravessado pela ponta de seja-lá-o-quê estava sendo usado para pungir-lhe à tinta.
Pingos azuis e verdes manchavam a mesa quando por instantes T. levantava a folha de papel para observá-la contra luz. De tão rápida e praticamente instintiva forma o movimento se fazia, que visualizar com exatidão do que se tratavam os traços se tornava tarefa impossível. Porém, à uma hora da manhã, cansaço começava a imprimir suas cores na face de T. Faria em pouco tempo cerca de 8 horas que começara o misterioso “ritual”, como R. mesmo afirmava em voz alta. Na verdade... Dentro da sua cabeça. E franzindo a testa ao tentar passar gravidade nesse gesto, esquecendo-se de que nada havia dito em voz alta, e que ela não virava a cabeça para outra posição do cômodo da sala à não ser a direção do papel, no meio da mesa, até então. O seu estado parecia um constante transe que se movia vagarosamente assim como fazem nuvens em formas de elefante ou cegonhas, riscando o céu afora.
R. chegara do trabalho no horário de sempre neste dia. T. parecia ter chegado do seu serviço mais cedo do que de costume, visto que no determinado horário da chegada dele, ela estaria ainda trabalhando. Talvez sequer tivesse saído de casa, reconsideraria ele posteriormente. Quando chegou encontrou-a fitando o papel com a mesma intensidade de agora. Somente pôde supor que começara o ato naquele instante, ou dentro de poucos minutos anteriores a este, após notar dentro de um certo tempo que a pilha de papel amassado jogado sob a mesa, em um canto afastado contra a parede, crescia com certa regularidade e constância, e que quando chegara, apenas havia dois pedaços rasgados em simetria quase perfeita, provavelmente o primeiro rascunho rabiscado e abandonado.
A impressão que a situação marcara em R., e esta seria um outro ponto das coisas que ele depois refletiria, mais frio e impassível, passava a idéia de uma T. correndo contra o tempo, à passos largos, contudo, com saltos de joaninhas. Havia pressa fugaz e desespero em cada traço, sim, mas havia calma evidente onde deveria haver insatisfação e inquietude quando um esboço se mostrava aquém das expectativas, e que era amassado, rasgado e jogado à pilha, junto dos outros pedaços passados. Os traços, curiosamente, difusos e aparentemente aleatórios a princípio, representavam certa ordem lógica após os recomeços dados a cada novo pedaço de papel azul machê pego na pilha, envolta em um embalagem de azul mais escuro, postado ao lado dela. E havia outra questão intrigante na situação, deixando R. realmente apreensivo: a face de T. Ela parecia constantemente virada pra dentro, de uma forma que em momentos passados de sua vida ele jamais poderia imaginar ou visualizar através de quaisquer descrições. Somente ali, ao vivo, isso faria sentido. Que os gestos encenados involuntariamente pela boca, pálpebras, narina e, bem mais discretamente, orelhas, pareciam acenar para um eu lírico invisível, que ele apenas conseguia, ou se atrevia imaginar, ser um espelho abstrato. O espelho abstrato das palavras. Ou das palavras que estão no embrião de formação na mente, que nem chegam a ser palavras de fato, que tem seus sentidos ainda intangíveis pela razão, cheias de figuras oníricas ininteligíveis a compreensão dos demais. Ela parecia observar cautelosamente os traços e os gestos do seu rosto, e isso descrever. Descrever através daquilo que ela rabiscava no papel. Fosse o que fosse. Caía como chocolate quente sob ambos a escuridão da noite.
Além, T. parecia evitar, ignorar suas necessidades físicas. Durante o tempo transcorrido, R. observou que ela ainda não se levantara para ir ao toalete ou para se dirigir a cozinha pegar algo para comer. Assim, ele tomou a iniciativa de extender um prato cheio de frutas cortadas próximo a ela -e foi isso o mais perto que ele chegou dela até aquele instante-. Esperou reações físicas à fatores diferentes ao conteúdo de sua tarefa, sentou-se em um sofá o canto extremo oposto da sala, e voltou a observá-la atentamente. Após um período de horas, notando que pequenos insetos já demonstravam maior interesse em fazer moradia por entre as maçãs e as pêras do que ela em comê-las, retirou o prato, evitando chegar mais perto do que antes, esticando o braço o máximo que podia. Já não tinha esperanças de ouvir sinais de protestos, e assim foi. O silêncio deslizava como a tardinha depois do almoço. Às 3 da manhã, R. apenas continuava a observá-la em sua distância calmamente porque o dia seguinte seria feriado, sem haver risco para qualquer um dos dois de perder horas de sono ou se atrasar para o emprego.
Novamente, R. roía os dentes uns contra os outros quando disse, e dessa vez efetivamente, em voz alta: “Também gostaria de saber até quando você ficará aí. Até quando ficaremos assim?”. Foi a segunda vez que se comunicara verbalmente com ela dentro de um período de 12 horas. E sequer atrevia-se a se levantar, sair do lugar, fazer algo, ou pronunciar outra palavra além daquelas. Parecia que o esforço extremo e derradeiro do seu corpo havia sido dado, e que agora já força alguma restava dentro dele. O último suspiro. Sem açúcar. Em momento nenhum, também, se atreveu a tentar olhar por cima dos ombros dela, ou aproximar-se discretamente por suas costas, evitando fazer barulho, para saciar a dúvida que apetecia-lhe o peito. O que tanto ela rabiscava no papel. O que tanto...
A questão? Ele sabia. A resposta. Chamava de dúvida o que na verdade tinha fobia de formar em sua mente. É. Isso aí. A certeza.
Friday, November 16, 2007
e
Tuesday, October 30, 2007
Thursday, October 25, 2007
3am
É, boa noite!
E chega!
Já tive saudade de tudo em monte!
Exatamente!
Eu sei que você sabe o que eu quero dizer!
Não é preciso gritar!
Sem figuras de linguagem, por favor!
Vai continuar transpirando forte assim!?
Pare de gritar!
Já terminou de falar?
Deixa que agora é a minha vez!
Fim!
Já senti falta, o bastante por uma existência inteira!
Chegadebilhetesrabiscadosemfolhaarrancadasdoblocode...
...notasjogadas...dequalquerjeitoemcimada...
...
...mesaoucolocadascomfita-crepeoudurexnãomeioda...
...teladatelevisãodasaladeestar!!!
Au revoir...
Pare de gritar...
Só eu posso gritar aqui. E é isso...
Se quiser, eu desenho...
Para de fazer essa cara que eu sei que você está fazendo...
Ok...
Devolveria algumas coisas que já não as tivesse queimado...
Já disse quase o que eu queria...
Pode desligar.
Wednesday, October 03, 2007
Ela me tolhe com os trechos mais frios da manhã
Ela corre até qualquer direção, me cai sob o colo, e me vê esguia
Ela salta e faz, 'foi susto', 'não quero', escala esse muro de cimento áspero e desfaz suas unhas
Ela deixa um fiapo estreito de janela aberto para o sol e a garoa entrarem
Ela dorme com a porta trancada à 10 cadeados
Ela não faz sentido, mas faz outras coisas
Ela anoitece sem querer
Ela amanhece quando quer
Ela estava bem aqui, bem pouco, mas estava
Ela queria dizer, eu não
Ela chove lá fora tantos dilúvios que nada vai ficar submerso
Ela colhe de mim as gotas frias de sereno que ficam espalhadas pela sacada
Ela chove o último dilúvio lá dentro e eu não sei nadar
Não que fizesse diferença
Ela queria dizer 'eu não'
Ela chove em mim as gotas de chuva que não caem em mim
E ela sabe, e ela sabe, e ela sabe que isso me enferruja
Ela sabe que vou me afogar
Ela sabe que vou ficar repetindo isso aqui fora ou lá dentro
Ela sabe que essa foi e será a última vez
Ela chove por toda parte enquanto minha arca está furada
Eu não quero ir a lugar
Ela escorrerá quando eu abrir a porta e disser
Nem eu, nem ela dirá, ou irá ou diremos e iremos ambos?
Eu não faço sentido nem outras coisas nada
E ela vai chover como sempre choveu pra sempre.
Tuesday, September 25, 2007
Ode Aos Poetas
uhum, pois é, enfia, pois pouco me lixo se você é poeta
se sente a dor do mundo, se respira o ar que as flores
mortas do campo trouxe... foda-se
não vou estar aqui pra cheirar o seu corpo putrefar
pelo triste vento caído do outono em cinzas
e não vou fitar o firmamento com palavras de conforto
de sentimento, de paixão e saudade, pelo amor que se foi
e não volta, a não ser nos seus sonhos, a não ser nas gravações da
secretária...
óooooooooo vida cruel...
eu cuspo o sangue
o sangue que escorre da lingua que eu mesmo mastiguei
ahhhhhhhhh...
é, mesmo, e isso aqui também não é um poema.



