Tuesday, April 03, 2007

Epifania e Eu: I

6 de Janeiro. Eu estava lá sentada no canto da sala, quieta, na minha, não incomodava ninguém. Era ela que vinha dizendo bom dia mumurado, e jogando as roupas pelo tapete de entrada, e esticando as pernas mal depiladas na minha poltrona favorita. Um abuso só. A sala de aula estava com umas cadeiras tortas, cheirava a desdém, e o quadro negro tinha borralhos brancos, gizes usados pra rabiscar rascunhos fedidos, dos desconhecidos vizinhos de classe. Ela chegou simples e pura, nem disse nada, ela costumava, basicamente, se comunicar com olhos e face, dependurou a mochila na cadeira à frente a que ela se sentou, abriu o caderno iniciando as primeiras anotações do dia. Ela sentava na poltrana rosada, e adorava ir até a geladeira pegar suco de cajú e pudim. Comia, babava, lambuzava, sentava e pulava na poltrona, sempre dizendo do dia, uma bosta como todos os outros.

Ela sequer perguntou meu nome, e indagou que horas eram. Ok, respondi de canto de boca, três e cinquenta da tarde eram, e continuei na minha, procurando ânimo para recomeçar a estudar. Ela ensaiou um sorriso, e já meio sem paciência, cuspi a pergunta: qual era a graça? Ela sempre ria das minhas manias estranhas, como não saber como dizer as horas de forma abreviada, como em "15 p'ras 5", ou mesmo, apesar de ser moça, esquecer sempre a tampa da privada aberta. Pediu desculpas, e continuou a fitar o seu caderno, que nem parecia caderno de "menina". Tinha um tigre branco, de olhos violeta, com bigodes tortos, no meiode uma paisagem que nem de longe parecia a África, aquele mesmo fim de mundo.

Perguntei que de turno ela era, por até então não tê-la visto pelos corredores da faculdade. Ela sempre se gabava de ter conseguido passar na prova de transferência para o curso de Engenharia Civil. Mesmo tendo se formado no ensino médio em colégio público paupérrimo morinbundo, ela era uma nerd com “n” maiúsculo. Dedicada, minto, não, obscecada pela carreira e pelo futuro. Suas obsessões e apegações... Ela comentou que tinha acabado, sim, acabado, bem há pouco, de ajeitar a “papelada” para transferência, e que agora, finalmente, poderia se considerar “caloura da universidade X ...”. Estiquei ambas as vistas, e estranhei, parecia auto confiante demais. Nada tinha a ver comigo, afinal. Não, eu prefiria aquelas mais caladas, silenciosas, até autistas. Ou seja, as parecidas comigo, contudo, ainda mais subjetivas e anti-sociais, anti-anti-sociais, anti-qualquer-coisa. Definitivamente não fazia meu tipo. Ela vivia resmugando sobre a minha mania de ser do contra, e brincava, enquanto arriscava umas quase-cócegas, dizendo que eu era a “pseudo-telectualzinha” dela. Virei de lado e a ignorei, fechando a face voltei para mim mesma.

O professor mentecapto-fedido-aidético-tísico de Cálculo chegara mais cedo, para nosso espanto, e começou a apagar o quadro. Pronto, agora que a paz descera ralo a fora. Ainda faltavam dez minutos para qualquer coisa: aula, contato-calor humano. Blá, blá, blá. Inventei de beber água no bebedouro mais longinquo do universo. Ela perguntava, com a falsa curiosidade dos que já sabem o que querem: “Você não tem distúrbio de uretra, nem nada, então, você não sente tanta sede, sente?”

Tuesday, March 27, 2007

O Pombo e o Assassino

Caído de banda no chão, o pombo tinha cor azul escura, cor cinza, e um pouco de cor roxa de intermedio entre ambas. Fresco, morno, sem moscas, vermes, devia ter sido abatido há pouco. Óbvio, ainda se mexia, ainda emitia ruídos baixos, e piscava o par de olhos a cada par de segundos.

Seu assassino, já devia ter descido rua abaixo, tropeçado em algum paralelepípedo, ralado o joelho, enrubescido a pele e os lábios, levantado novamente, e deve ter ido embora, ainda saltitante, com seu meio sorriso nos lábios, com o elástico preto, velho, comido, do estilingue envolvendo seu pescoço, por sua vez empestiado de suor meninesco, que fedia ardido e salgado.

Estendido, no meio do gramado não-tão-verde, o pombo cavoucava entre suas penas com a asa livre - aquela cujo o peso do seu corpo não imobilizava-, sob um leve, tênue desespero. Tênue a ponto de ser como um desespero tranqüilo. Tranqüilidade que vinha da ausência de consciência sobre este desespero, sobre a morte eminente, sobre a hipótese de que nunca mais faria as coisas que gostava, também ser ter idéia das mesmas. Nunca mais voaria aleatoriamente por pelas ruas cinzas. Nunca mais visitaria praças desertas lotadas de lixo e bagulhos jogados. Nunca mais pousaria no alto daqueles prédios do centro da cidade, em sacadas esquecidas, ciscando pedaços de não-sei-o-quê trazidos pelo vento. Nunca mais seria aquele inconsciente passatempo para os idosos ociosos e suas migalhas de pão dormido, e para as crianças estúpidas e seus trejeitos barulhentos.

Seu algoz já devia estar em casa, teria lavado as mãos depois de ordens maternas, e desobedecendo prontamente, abriria a torneira sem estender suas mãos sob a água, e logo estaria sentado, em algum momento, frente à mesa, com toalha listrada vermelha e branca, e estaria com fome, e estaria anscioso para degustar o que a mãe preparara naquele dia, e se satisfazeria ao descobrir que se tratava de frango, e arroz com feijão fradinho, e comeria com fome e pressa, e ouviria sua mãe dizendo para comer mais devagar, e sorriria com os dentes cheios de feijão enganchado e agarrado, e ouviria da mãe frases do tipo “mas que menino mais lindo. Mais lindo do mundo.”, mas não se importaria com o que isso poderia significar, porque ouvia essas frases todo dia, e fazia essas coisas todo dia, e então não devia haver significado relevante afinal para aquilo tudo.

Desbotado, o pombo se ajeitava, e sentia a cabeça doer deveras. E era apenas isso, a cabeça doendo, e mais nada. Sangrara medianamente, mas o sangramento já se estancara e se tornara coágulo por si só. Ainda se mexia com dificuldade, e como a maior parte do que acontecia na sua vida, não se dava conta do milagre que acabara de vivenciar. Não se dava conta que a pedra acertara de raspão sua cabeça, e não em cheio, e que não morreria mais – mesmo não tendo passado pela sua mente, em nenhum momento, a consciência da sua eminente morte -. Impreciso, vôou dali a uma semana, sem se lembrar de coisa sequer. Ingnorante e ingnorantemente, se dependurou novamente nas sacadas cheias de poeira, planou sem pressa pelas ruas de cinza desbotado e foi mais uma vez a diversão dos velhos ociosos e das crianças estúpidas.

Seu carrasco levantaria da mesa, logo depois do almoço, correndo para escovar os dentes, e os escovaria muito mal, e se jogaria no sofá para ver este fazer barulho, e gritaria um pouco, pela felicidade e satisfação animal de estar de barriga cheia, e sua mãe pediria pra que ele parasse com aquilo, e ele seria teiomoso e não pararia, e ambos seriam interrompidos por um baque estrondoso de porta sendo quebrada e botada à baixo, por onde homens encapuzados com metralhadoras entrariam, e matariam fugazmente ambos, com mais de cem dezenas de tiros, e a sua mãe estaria minutos depois encharcada de sangue, dela própria, e de água, da pia que ficara aberta, com o olhar pintado nos olhos de quem encarou a dama morte de frente e perdeu, e o menino, com uma metade do corpo estendido no sofá, e uma outra metade pendurada, perto de tocar o chão, teria para sempre no rosto a expressão de desespero, angústia, e plena consciência do seu fim.

Enganchado, o pombo prende a sua asa em um pedaço de arbusto, entreaberto à uma raiz grande de árvore. Solta-se, perde 3 penas, e volta a voar, apreciando com um par de vista negro, ignorante e indiferente, o pouco que resta do dia, das pessoas passando, e do sol que se pôe, nem amarelo, nem branco, mas como todo resto: cinza.

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Fonte (da foto): site: www.olhares.com
Usuário: Manuel Ribeiro (clique aqui para ver seu perfil e seu álbum de fotografias).


Friday, March 23, 2007

De

De que ele já havia aposentado seus calos. Tombou cabeça para canto, novamente, apontando parede, fechando olhos, palpebras, mente. Escrevia com quase coragem e quase covardia, quando mais jovem. De coragem tinha de fitar desconhecidos, deste ou de outro lado de espelho. De covardia havia “bons dia” e “...’tarde”, sequer evitados, ou senão, respondidos com sustos e gaguejos. De seu relógio sem ponteiro, não digital, cuja importância era irrelevância: jamais soubera ver horas nele. De indeterminação, tanto fazia.

De saudades de mãe e irmã sua. Com dados sinais periódicos de vida, em quarto de lado. Saudáveis, sociáveis, normais, saudáveis, deve-se citar. Lembram-se de dia que ele desaprendera pronuncia de nomes próprios. Vocativos. Sem mais, pensavam vizinhos ser mudo, agora. Não. Gritava, quando calor e sufoco das cobertas quentes pinicavam. Iam interjeições, deuses, putas. Nunca ninguém chamado. De si para si, tudo. Da mesma forma, não atendia chamados. Mãe, irmã, batendo em porta de quarto. Sem resposta. Abria porta e saia quando queria. Trancava-se sob mesma regra. Apenas. Em início, consternação de parte delas. Com tempo, costume. Sentia falta, claro, como qualquer boa mãe e/ou irmã. Tardes eram solitudes, contudo, nada mais que isso. Solitudes.

D’ele, em seu quarto, divagava, devaneava, sem lembrar de certo quando deram início surtos, sandices crônicas, ou quê. Desaprendera vocativos, já acostumara-se com isso. Preocupação veio quando artigos também foram desaprendidos. Nem determinados, ou indeterminados. Tanto fazia se aglutinados em preposições ou tolices linguísticas outras. Seja que era que fosse, chegara a controlar cada palavra. Escrita, pensada. Seu último souvenir de desesperanças e memórias vagas reinventadas –escrever- despedaçava-se junto de outras coisas. Indefiníveis.

E escreveu até tinta de teclas apagarem.

E escreveu até tinta de canetas secarem.

De folhas em branco, inimigas de antes, agora criara costume.

E escreveu até tinta que ilustrava pensamentos acabar.

Deu por fim a saudade da mãe e da irmã.

E de céus estralados e campos verdejantes de glacê.

Só a parede, do sem sentido tombado e ao calo maior cada vez mais.

A vida do ensaio improvisado era uma vaga sentença do primeiro versinho daquele poema, enpacotado em papel crepom rosado, forma de coração-abacate.

O primeiro soneto também estava debaixo da cama, num papel manchado de café, dividindo moradia com umas aranhas feitas de poeira e umas formigas desabrigadas.

Monday, March 19, 2007

...

Preciso de idéias leves e compactas
Que caibam de baixo do braço
Que eu possa tocar rapidamente
Pela tecla certa
Pelo acorde dissonante
Pelo braço descoberto

Nem tão feliz assim
Até que talvez faça chuva e sol no quarto trancado

--

Ele era um menino que curtia poesias, sabe? Tava rodeado de rascunhos tortos e palavras, frases, textos prontos. Tinha toda e cada solução para cada atribulação d'alma, e essas simpatias universais. Tava bem entre os quereres e os deveres. Tava bem com seus horóscopos, com suas estrelas em parede quarto, com seus rabiscos...

(Se)

Havia talhos e telhas despencando pelas pontas da casa e dos quartos.

(Se)

Vazavam acordes p'ros ouvidos: escorriam versos das unhas

(Se)

Sentia que quase meio caminho estava andado: o vento batia a porta e rachava as frestas e fazia parte do teto despencar.

E tudo havia começado com seus devidos pedaços faltando...

Thursday, March 15, 2007

Cale-se

E eu estou meio cansado de estar acorrentando minha língua lambida e babada
Eu não digo "calalho", digo "caralho", não digo "pola", digo "porra"
Com suavidade cuspo "foda-se", "susurro" te amo, e tudo vai
Sem precisar voltar, nem deixar um bilhete em cima da mesa
Ainda estou meio termo, meio livre, e me sinto quase completo
O que digo evapora com minha saliva, e o que fica é um éter estranho, que nem me dou o trabalho de distinguir ou discernir
O que digo nem faz questão de fazer sentido, nem pra mim, quanto mais pra mim (ou vocês)
Evitem o trabalho de se magoarem ou emocionarem por qualquer coisa que saia desse buraco aqui
É tudo por ser, por estar oco de tangibilidade e recheado de pó de estrelas.

Tuesday, January 23, 2007

sobre watashi

(aquele que tava com as tripas do avesso, cansado de ver sonhos em forma de souvenirs se despedaçarem e exausto de chegar sempre atrasado e ter de ver o barca furada partir. aquele que, irritado com as mesmas canções tortas e desafinadas gritando alto em seus tímpanos, começou a socar a parede crespa até estourar e sangrar os pulsos. aquele que engoliu o seco, e uma meia dúzia de facas de 2 gumes afiados, fantasiadas de amor-meu-bem-me-ame, disfarçando a agonia de ter que continuar a sorrir, mesmo quando o resto do mundo lhe faz careta e atira-lhe pedras e garrafas de cerveja -vazias-.)

Monday, January 15, 2007

Ela e a Inspiração Dela.

A garotinha queria escrever, sabe? Mas estava sem inspiração. Rabiscava com seu compasso e com a ponta da lapiseira sem ponta a superfície do papel. Rasgava-a, na verdade. Chegava a arranhar a mesa de madeira, até. “Merda!”, pensava, sem censuras. Na verdade, sem ninguém para censurá-la. “Quero escrever! Preciso escrever! Estou morrendo, e não sai uma porra d’uma palavra da minha cabeça!”. A situação deixava a menina inquieta, como vocês podem ver...

O ócio, o mal de nossa geração, e o silêncio, outro mal, mas não só de nossa geração, fazia-a lembrar de seus primeiros poemas. Tortinhos, com rimas óbvias. Porém, dela. Todos dela. Os sentimentozinhos, correndo naquele coraçãozinho, tudinho à flor da pele e alma. Lembrou daquele soneto, seu primeiro, sobre a chuva. Escorria da janela muita água. Do teto, despencavam goteiras. “Ó, a nossa casa era humilde. E eu era tão feliz. Só não sabia. Bosta...” E lá foram os versos... Um, dois... decassílabos! Um par... dois pares... sete pares... Pronto! Lá estava seu primeiro soneto, “Ode À Garoa”. Como ficara orgulhosa de si.

Esta noite, contudo, fedia a óleo. A casa era grande, a porta saia para a Avenida X., e os carros cortavam-na à velocidade do som... ou da luz. Tanto fazia. O cheiro de óleo queimado, do dióxido de carbono espalhado, já começara a entranhar em sua pele. E aquilo “desinspirava” a jovenzinha. Além de lhe encher de dores de cabeça. Queria campos, verdejantes, com vacas a pastar. Esconder-se naquele sítio que a vovó tinha. Queria, também, voltar àquela casa de praia, aonde tinha ido com o ex-marido o verão passado. “As crianças tinham adorado...“.

A cozinha era espaçosa demais. “Eu vou enforcar esse corretor de imóveis. Nunca compre uma casa grande quando você vai se mudar sozinha”. Barulho da água batendo no fundo do copo era companhia dela, das aranhas nos cantos das paredes e das poucas baratas escondidas sob o armário. “Em dias bons, eu comporia uma prosa inteira, simplesmente dissertando sobre o quanto o eco de um ruído idiota numa cozinha pode ser barulhento quando se está sozinha em casa”. Sem perceber, tentou se equilibrar num pé só, fingindo ser Saci. Pulou duas vezes, sem cair. E orgulhou-se, também.

Sentada, novamente, à mesa, ajeitou o abajur, espreitou o bloco de papel, e tomou nota sobre o que acabara de pensar. “Vou dissertar futuramente sobre o eco da cozi...” E de repente rasgou o papel. Tivera uma genial idéia. A inspiração, aparentemente, voltara de supetão. “Vou falar sobre goteiras, isso! O jovem morava no segundo andar de um prédio de 20 andares! E goteiras de chuva caiam no meio da sua sala de estar! E...”. Os carros continuavam passando, como loucos, do outro lado da rua. O cheiro ainda era podre. Para os padrões dela, ao menos. Porém a menina se sentara, puxara, com sede, o papel e lápis, e mergulhara a escrever. Os seus olhos brilhavam tanto, que parecia aquela mesma “Liginha”, que acompanhada de sua excitação, abria a embalagem vermelha, cercada de durex, separando-a de sua tão sonhada boneca da Cinderela... Os olhos brilhavam tanto, que lembravam muito de perto, a mesma “Lí” que acompanhada de sua inquietação, ouvira do namorado as palavras “casar” e “comigo” numa mesma sentença... Brilhavam tanto, que nem parecia a mesma Lígia, acompanhada, agora, apenas de seus 35...

Épico romântico em Liqüidação de queima de estoque:

De graça

Digo que te amo
E me contradigo no verso seguinte
Antes mesmo do poema acabar
Pois não te faço o sentido, nem a cabeça

...Vá se fuder antes que eu me esqueça.

Tuesday, January 09, 2007

Ponto final

bela hora, você escolheu
para se juntar ao circo
e ir embora da cidade
momento ótimo
este
para se juntar as minhas palavras
joga-lás no sentido literal
e ir pro inferno
de vez

outro dia estava eu
sentado na beira da calçada
amarrando em cadarços
sujos
o sonho mais cru
de te ver aqui
pra sempre:
até meus olhos se decomporem
e deles se esbaldarem outros olhos
e de minha boca
que jamais tocará a sua
fazerem festa outras bocas
e por onde eu disse
o que virou pó
em pleno ar
na frente de nós dois

tudo é tão colateral
tudo é tão proporcional
o ódio
seco
que escorre dos lábios molhados do amor
o ciúme
cru
que se espreme
no espaço vazio entre cada linha escrita
ou pulada
dos versos de paixão e paixão

o reflexo irreconhecível no espeplho
é tão tristeza quanto tudo o que dissemos
por termos deixado de dizer tudo

e a poeira
que como sem sal
enquanto comtemplo a
(sua)
carruagem
(uma vez abóbora)
ir embora
pra bem longe
.

Wednesday, January 03, 2007

Ele
















Fim.

O rito de tempos em tempos se repetia, fazendo-se de tolo
Ainda que da ponta dos olhos se pudesse ver
Ele cruzar a esquina, murmurando, de mãos nos bolsos
Aproximando-se, com os relógios parados, com palavras tatuadas
O rito de tempos em tempos se repetia
Encostava-se na porta, ouvindo, de manso, o que diziam do outro lado
O ouvia os ruídos se tornarem cada vez mais intensos
Até a hora que ele chegava, novamente

Ele, em qualquer média definição
Arrastando...se. E eu sabia tão bem o que isso significava

Ah, ele era a moeda jogada no poço sem fundo dos desejos
Era a saudade sutil do que estaria por vir
Ah... ele causava aquelas sílabas, afiadas, ricocheteando dentro da boca
Cada vez mais cortando um pedaço do céu
Que vermelho, avermelhava-se mais
E que de tanto rubro, viria sair, escorrer
Ou cedo, ou tarde, e por todo resto.

Fim.

E então.
E de novo.
Ele, vinha, em riscos e travessias
Em saltos de uma perna só
De anos à fio, fazia
Frases monossilábicas mal trocadas (depois daquele dia)
Abraços retalhadores, segredos pálidos, cometas perdidos e apressados
Arrastando...me. E eu nunca fiz idéia o que isso significava

Porém me diziam... (que ele)
Era o mal que fazia bem
Era a luz que perpetuava, e fazendo mais luz, seus frutos
Era o que havia de novo nascendo após cada brusco escurecer
Era eterno
Era divino
Era cristão
Era amante
Era desejo
Era o fogo que ardia sem doer
Era cego
Era todas as cores numa só
Era... meu (e dela)

Fim.
Que querer, saber, de tropeços e pedaços cortados?
Pele e mão retalhados e cicatrizados pela metade?
Chega: do que disse, faz-se ponto final.
E faz-se sua memória, que aqui, já nada recorda.
Virando esta página e deixando-a para trás.

Fim.














E então...

-xx-








Edit: Foto originalmente publicada no site Olhares pela usuária Ana Red (clique aqui para ver o seu perfil e suas fotografias).

Monday, December 25, 2006

Dois posts, natalinos, ou não

I

Eu digo adeus, apenas para soar um pouco mais breve
Do sem-fim que isso aparenta ser
Giro, giro, giro uma caneta vazia
Sob o papel vazio
"É a noite que se veste de azul", ela dizia
"Sou eu que me abraço aqui, na quina dessa esquina
Na beira dessa calçada, sou eu, que, cansada também
Te abraço, como se isso trouxesse algum conforto
Como se isso trouxesse o nosso sorriso de volta à estante
E você sabe, não é...
É a noite, também, que se despe do azul."
Porque as palavras são muito mais fáceis de se manipular
Quase dizer dos amores e dos fracassos
Jamais será untá-los, em fôrma de nada, e junta-los n'um futuro qualquer
É quando a soma do todo é menor que as partes
Eu tenho visto o que isso tem feito de mim
Por isso, te digo, mesmo, o adeus, devera, enfim
Que seja mais brusco o intervalo
Entre o desfraldar do lenço, e a porta batendo.

--

II

E eu digo a Deus, que passe um tempo mais
fora de casa, porque estamos bem, e é, já é tarde.

Da esperança fizemos um presépio, uma noite,
um alento, uma estrela guia, um labirinto
uma perdição, uma reza oca, uns pares de olhos estrábicos
um retalho, uma colcha, umas ovelhas, um choro rouco
uns magos sem magia, um pastor, uma virgem santa,
um pedaço de argila, um pedaço de papel,
um pedaço de filme, um pedaço de conto
uma luz que desceu de algum lugar além daqui.

(Estava escrito, colorido, tingido, imprimido, impresso)
Que os dias cairiam bem aqui
A virtude: a benevolência
Os dias, os vintes, os cincos, cairiam bem aqui
No bolso do senhor do mundo de lá de fora e daqui de dentro

Orávamos, sentados ali, quando uma estrela passou atrevessada
fez a curva mal feita, tangenciou o céu azul
fechamos os olhos, então os abrimos, abrimos os
presentes, o presente, de embalagem vermelha, de
soluços compulsivos reprimidos, isolamos
a voz do vento lá de fora com uma janela fechada,
tapamos ouvidos, cantamos gritando contra qualquer um, coisa, além de nós,
trancamos, então trituramos, a chave do coração, já apertado,
pedindo a um alguém que o mundo fosse melhor da próxima vez, do próximo instante, do próximo ano.

No tal dia, da discórdia, benção, rendenção
Na tal glória, do juízo inicial, final, e o do meio.

Tuesday, December 19, 2006

Dois posts, para comemorar o fim da abstinência poética.

Completando o título: talvez eu realmente estivesse precisando de um pouco de literatura. O pouco que li de "Crime E Castigo", de Dostoiévski, de certa forma, renovou minhas energias.

E lá vão dois poemas, paridos logo após a nebulosa trégua, dessa constante guerra que é escrever.

--

Equívoco

"Estou errado em querer me curar em suas feridas?"

Minha pergunta cortou o ar como luz em fresta de janela
E sua boca aberta nem murmurava, nem sussurrava

Até que "é a hora de mentir, e você sabe tão bem quanto eu
Que mentiámos, e nos julgávamos, o tempo todo"

Era eu, pensei, que colhia palavras saindo de casa
E a caminho daquele encontro, era eu que colhia
Palavras e frases feitas, para então esquecê-las
A caminho do fim

"O sol está nublado, como sempre, como sempre essa nuvem vai
encobrir nossos pensamentos, até que nos agasalhemos, e encaremos essa chuva
e caminhemos para nossas casas"

Mas você era inquieta também, e bem sabia como
Dizer o que queria, de fato

"Sabe que poesia não salvam as pessoas, que estamos tão longe dos livros
E longe de qualquer idealização, pseudo-romântica. Você sabe que eu te quero, tanto quanto qualquer
besteira grande e pomposa a qual eu possa comparar o nosso amor. Mas você sabe que eu não posso te querer, também..."

E eu sabia que estava errado em querer me curar em suas feridas.

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Ae Revouir

Não, você não pode amá-la
Não pode trazé-la à luz pela mão
Se os braços dela estiverem cruzados

Não pode dizer ae revouir ou eu te adoro
Quando ela estiver perdida n'um abraço de ontem
ou
Quando ela amarrar o riso e o laço apertar-lhe o pescoço

Não, você não pode atacá-la
A cada dia que ninguém disser nada
E que do silêncio não se fizer consentimento
E que do silêncio se fizer ressentimento

Não se atreva, você, também
A atá-la pelos pés, toda vez que ela fugir
Quando alguém esbarrar nas beiras da verdade
Porque ela irá...

Por mais que os caminhos que ambos, vocês, cruzem
Sejam círculos em labirintos viciosos
O retalho viciado não se curou
Mas você também fará de conta que sim

Afinal, a hora mais indicada para dizer adeus
É agora...

O 'de novo'
Para chama-lá pelo nome amanhã de manhã
E acordar com o barulho da porta, pelo vento, batendo no quarto vazio.

--

Sim, os temas são parecidos... E dai? =P


Friday, October 27, 2006

Mais que uma qualquer coisa

O que está em jogo é mais que um meio abraço
E mais que um seco beijo, cortado e raspante
Mais que um talher e um prato, ou o sabor que convir
Mais que uma visita esporádica a sessão de achados e perdidos
Mais que aquela frase não-monossilábica doada com ambas as mãos e bocas
Mais que aquele abraço que interrompeu o discurso e chocou a platéia
De ninguém além de nós dois

Isto nem chega a ser uma despedida
Entalada do lado esquerdo e empoeirado do peito
Nem é um dia, queimadura solta e exposta
Nem é tarde, uma nuvem parada sob a sua exitação
Nem é noite, mesmo, de verdade
Não é a lua minguante que você fez questão de cobrir
Com aquela paixão minguada

Isto nem é o coração, torturas de desapaixonados
Isto nem é oração, ou mantras pagãos que se precipitaram
Boca a fora...

É só tudo aquilo que eu via em mim
E não via em você

-xx-

(Fazia tempo hein? Ainda tenho escrito coisas... a questão é postá-las...)

Thursday, September 07, 2006

Múrmurio

Os braços estão abertos, e girando em círculos
Ambos de mãos dadas, jogam a sorte em dados viciados
Trocam-se de desejos e risos no meio da mesma cantiga
Da mesma canção sem refrão nem verso
É só murmúrio
Que murmura em notas o que nem sente

Lá se vão
Ele diz: "apesar dos outros, serei eu mesmo"
Enxuga a face dele, acaricia a face dela
É de manhã, e é isso apenas o que ele tem
Um bloco de palavras para divdir com o resto do mundo e do sempre
Ou do nada
Tudo

a letra seca, áspera, risca na saliva a página
virada, vidrada, cortada, sangra
a página amassada, orelhas surdas
o canto mudo que não sai, a busca do cego pelo belo
"é belo o meu cantar é belo meu cantar é belo meu cantar"
orelhas ampultadas, palavras afiadas, espinho encravado
espinha encravada, no peito, no rosto, no pedaço da página
amassada, a letra seca e Áspera

que murmura em notas o que nem se sente

Lá se vão
Ele diz: "apesar de mim, serei os outros
apesar de mim... serei eu mesmo"
O bloco de notas se aproxima do fim
O lápis mastigado sangra sua última palavra
Que teima em não escorrer para o rodapé da página

*borrão*

"Estamos tão perto de casa, daqui vejo a nossa janela"
As mãos dadas, voltam a girar e a cantar
Ela limpa o rosto dele borrado pelo borralho da sargeta
(ambos se banham do mesmo sereno)
Ainda não é chegada a hora de parar de murmurar a vida
dos que nem sentem o que é ser alguma coisa
Continua o canto teimoso: "é hora de ser feliz..."

*borrão*

Friday, August 18, 2006

Bobices

Eu preciso muito dizer...
Que sou escravo de tantos impulsos. Alguns animais, alguns racionais, outros um tanto o contrário. Eu preciso dizer que percebo o sabor dos meus próprios lábios secando. Que tenho passado a lingua no céu da minha boca que a minha saliva tem secado rápido demais. Meu suor fede mais que antes. E eu suo o meu suor barato de padaria a qualquer instante.
Tenho até pressentido milagres. Banalidades que atravessam a minha noite com um toco de vela em mãos. A cera queima a pele. A cera derrete. A vela é acesa. É noite, a luz faltou. Quer saber? A luz acabou de vez. Quando voltou eu vi um outro milagre acontecendo: estava de pé outra vez.
Eu preciso muito dizer também que ainda preciso crer naquilo que canto. Minha voz escoa, escorre, ecoa entre gotas e memórias (talvez você perceba). Fico rouco sempre, fico leucêmico de vez em quando. Mas tudo volta a cada canção. É a canção que eu quero lhe dar. É a canção que preciso dizer:
Que eu tenho tanto a doar... o meu sangue: nem tinto, nem branco, que é o mesmo que o seu. Temos o mesmo sabor amargo. Bebemos com as duas mãos da vida crua e mal fervida. E repetimos a dose. A culpa é de ninguém. Nos saboreamos ainda.

Tuesday, August 01, 2006

O Sol

Um dia nasceu por trás da janela do meu quarto
E eu esqueci de me avisar
Que era noite ainda
Que eram noite os vestígios de mim
Tanto que escureci o meu avistar
Tanto que enegreci o peito

O sol nascia de vez em quando pelas frestas das portas
As mãos tocavam-se nuas, de pele e de medo, vida sim, vida não
A linha do horizonte, torta e incompleta
Tocada e ferida é pela pedra que jogo
(Ou o mar escuro que a envolveu e carregou me leva consigo?)

Podia ser assim
Até eu mesmo aprender a andar sobre a água
Nem importa mais, agora agora
Apaguei manchas de incêndios e abraços
Julgo, volta e meia, ser árduo e difícil o aquecer desta lareira, é verdade
Até eu lembrar que a noite é brisa e passará
O vento já vai ter batido todas as portas de casa...

Trocarei as cortinas, então
Abrirei as janelas
E na próxima manhã que eu avistar
Verei amanhecer aqui dentro também.

Friday, July 28, 2006

Aqui tão longe

Eu não te quero tão perto assim
Quero uma distância bem assim, não palpável
Um ou dois anos luz
Bem longe, bem perto

É quando eu quase consigo problemas não me causar
É quando por um triz a sua alma passa rente a minha
É quando eu quase consigo problemas não te causar
É quando por um triz eu te roubo e protejo com mãos não minhas

Que sejam minhas, que seja minha
Que seja minha, que sejam minhas

É quando eu tento dizer quase tudo de improviso
É quando eu busco me apegar a simplicidades
Sem conseguir
É quando eu tento jogar tudo pro alto
E acabo jogando você também
(E lá está eu tentando te salvar de novo
E lá está você tentando nos salvar)

Há mais coisas entre um meio sorriso e um quase dar de ombros do que sonha minha vã filosofia.

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Isso aqui é uma quase canção ainda em gestação. Isso explica a estrutura mais redonda , diferente dos poemas usuais que escrevo =]

Saturday, July 22, 2006

Pela madrugada...

Eu te falei
Já anoiteceu

Todo o tempo e o tempo todo foram lá meus passos
Dei-me um nó, é verdade
Caí de cara, e a face borrada de lama que se erguia
Então...

Fica bem, está tudo bem afinal
Nem gostaria de te lembrar, nem tão cedo
Está aí, tão livre e solto
Dei-te um olhar, e em uma palavra
O olhar traduzido na palavra exata
Em cada sílaba apressada
Mas isto não é pra você
Isto não é nenhuma tentativa inprecisa de te dizer de novo o 'de novo'
É só outra porta que vejo o vento tocar e bater

Recomendo que esqueça
Já anoiteceu, já aprendi, já fervi o som do não
Quis, mesmo assim, estampar essa inquietação e essa vontade
N'um sorriso assustado
Que eu, meio por acaso, vi

Faz de conta, faz de conta
Eu... que eu... faço de conta também
Isto não é pra você
Isto é pra se ouvir calado, de luto, como em prece
O tempo já tá despedaçado mesmo
O tempo já tá derretendo aquela vela mesmo
O tempo já deu seu espetáculo, recolheu os aplausos do chão e desceu do palco mesmo
E o relógio já bateu as dez faz tempo

Já anoiteceu
É tarde... boa noite

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(E a melhor parte é tentar não se importar com tudo isso...)

Tuesday, July 18, 2006

Interlúdio em mi maior

Estamos presenciando uma transição. Estamos dançando a valsa da vida, claro, a toda parte e a todo tempo. Mas aqui finco com um colchete este bilhete. Bem no meio, incisiva e precisamente marcado, do interlúdio. É tempo de mudança. Ouço a minha voz rouca de trastanteontem ficando mais nítida. Claro, não é sempre.

Lembrei de umas imagens curtas. Estava passando na pele minha mão banhada de dúvidas, afim de sarar eventuais chagas que vinham a tona. De mim e para mim. Estavam ali por algum tempo, ou melhor, estariam ali por algum tempo. E eu as apaguei. Nunca quis saber de deixar pra limpar depois as mãos sujas do que me envergonhava. Envergonhava-me de tudo ou quase que se referia as memórias estampadas com um "eu" bordado. Isso era o tempo também. Era outro interlúdio. Outra máscara a ser trocada.

Lembrei de um dia frio e breve. Eu, sob as cobertas, tentando evitar o frio lá de fora. Lá fora... caia um tiquinho de solidão, um tiquinho de excitação instável, um tiquinho de sorrisos misturados a areia da varanda. Os pés sujos limpam a terra da rua no tapete. Eu limpava os meus em dobro. E a janela entreaberta, que eu fechei toda a vez que ventava mais forte, estava lacrada com tábuas e pregos. Outro interlúdio. Outra máscara a ser trocada.

Lembrei de uma tarde e uma noite. Eu, distraído, contando saudades que não tive, colhendo flores de jardins alheios. Sujei minhas mãos de novo pela primeira vez. Fitei o próprio espelho com tanta impaciência desesperada, que este, trincado, me gritou. Gritou-me sobre o tempo cristalizado na retina que já não enxergava. Sobre o carnaval que passava (regojizos, danças, festas) que eu, pela janela, apenas comtemplava. Bem assim como sempre. Gritou-me sobre meu sorriso insincero, que cavara um buraco na varanda, jogando o quase cadáver do "eu" bordado lá. Que cada vez mais jogava terra para cobrí-lo. Fechei os punhos. Abri o peito. Desci as escadas do meu quarto, e fui cantar a beira da rua também. Cavei a tona todo o caminho para a superfície. Outro interlúdio. Outra máscara a ser tirada. E quebrada.

Cantei, suei, girei a roleta russa no carnaval da vida.

Estou aqui, não tão melhor do que antes. Mas completamente diferente do que eu poderia estar.

Wednesday, July 05, 2006

Acredi...


Eu acredito em anjos de papel
"Acredito nas gotas respingadas na face daquele que joga a pedra na boca da lagoa calada."
Eu acredito em restos de promessas
"Acredito naquilo que você tentava negar ser mas acabava sendo de uma forma ou outra pois não se escapa dessas coisas"
Eu acredito na minha escravidão pela inspiração
"Acredito nos rabiscos desconexos jogados ao vento por essa boca pagã com relação ao sagrado silêncio"
Eu acredito em horas que duram segundos
"Acredito que entre um abraço e algum outro apreço, o tempo se partirá em 1000, e deixará só faísca e luz restando aos olhos"
Eu acredito em verdades improvisadas
"Acredito no que você diz, quando não diz, quando pensa em dizer, quando quer dizer mas acaba nem dizendo e nem fazendo e nem e nem e nem..."
Eu acredito em chuvas secas, mas prefiro as molhadas
"Acredito na gripe que se pega no meio do banho de chuva, bem aquela dos filmes, bem aquela direta que penetra a pele como se tocasse teu peito por dentro num único aperto, num único sufoco, d'um único jeito, que não vai largar tão cedo, ou tão nunca"
Eu acredito em anjos de papel
E em anjos de vestidos de rosa
E em anjos que tocam a campanhia ou o telefone na hora certa.
E te levam para onde não deveria ter saído.