Wednesday, May 23, 2007

Bromélia

Nos revezávamos em nossos abraços
Eu a afagava enquanto estava longe o bastante
E ela me tocava quando eu já estava distante, à salvo
Do risco de sentir o toque à pele
E estávamos bem-bem-assim-assim
Currando nossos sonhos sobre o capim seco
Sobre um feno qualquer, repleto de carrapatos famintos
Lágrima?
Era o nome que ela dava a vesguidão.
É, soslaio, era pleno olhar que me fitava, dela, então
Quando limpava as marcas de sangue azeviche
Atravessando, roçando as pernas até no ar, atravessando...
O quê? Que se vai.
Que se vai e perfura a dor de calcanhar
Faça me o favor de ser a chave que vira
A curva cruzada na hora de voltar
A embriaguez, a pressa, o desfiladeiro, a explosão, os destroços
A inapetência, o ciso que espicaça meu lábio
Não por paixão, sim por repulsão
Que quero ver logo a hora se semear suas cinzas
No teto daqui de casa
Ver você nascer como realmente é
Não mais orquídea, ou lis (ou merda que for)
Mas como bromélia
(Carnívora.)

Monday, May 21, 2007

Al (II)

Esse lugar já foi mais belo... A cafeteria não existia mesmo, deve estar aqui há pouco mais que um ano ou dois. Droga, na sola ainda tenho um chiclete, pensei que tinha saido. Quer dizer, espero que seja realmente chiclete, e não outra coisa... Hahaha. Droga, ninguém olhando? Ah, tanto faz. Vejam, crianças pulando pra lá e pra cá. Em pleno entardecer de domingo? Que coisa mais estranha. Ainda com esse frio. Gente do céu... Elas se divertem, ao contrário de mim... Pera, estou tão entediada assim?Às vezes eu mesma caio nesses paradigmas que as pessoas impõem a si mesmas e a seus decendentes, filhos, e tal. Só por estar sozinha não é exatamente estar só, e, conseqüentemente, estar triste. Já passei por momentos muito mais maravilhosos d’eu comigo mesma, do que com certas companhias. É, aquele céu nublado está desaparecendo. E choveu há pouco mais de meia hora... Menos mal. Vejam elas, nossa, essa brincadeira eu não conhecia...

...

Ah, essa sim, essa eu conheço.

...

*Um grupo de crianças se aproxima caladamente pela lateral esquerda, e uma menina de olhos azuis e cabelos castanho-claros puxa a ponta do seu casaco.

Hum.. Abaixo assinado? Para quê, minha jovenzinha? Ah... Bela causa, hein? Tão jovem, e já uma ativista política! Haha. Ok, sim. Deixe-me assinar... Pronto. Hum? Ah, não pode ser rúbrica? Tudo bem, certo. Mas não está legível o meu “Mah”, não? Hahaha, eu sei, estou só brincando. Pronto... De nada. Bom domingo pra você também.

*O grupo de crianças se afasta

Tão, tão, tão... Eu sinceramente tenho vontade de ter filhos. E ai deles se crescessem! E se tornassem como eu, ou... o Sol se pondo! Vejam só! Eu costumava sorrir de dia em dia, e é dia, e eu sorria. E a gente via o pôr do sol junto, é. Eu devia sorrir bem agora, rir também desse... Droga, não acredito. Hahahahahahhahaha. Pisei nessa troça de cavalo defecada. Gente... Hahahahahaha. Ai, dio... Vamos arranjar um lugar pra limpar isso. Hum, aquela lavanderia deve ter uma pia, sei lá... Que saudades do que eu era... Eu deveria amar meu presente, pra ser plena e feliz, e motivos realmente não me faltam. Estou em um relacionamento harmonioso, estou encaminhando uma carreira de pesquisadora bem sucedida... Claro que vou ter que sair do país, pois essa área de pesquisa aqui é a mesma coisa que nada. Estou caminhando pra algo bom... Estável. Estável? É, talvez. E talvez isso seja ser feliz. Só que... Será que ele está em casa? Droga, que idéia, eu ir até a casa dele... Que... Que... É. Vou. Lá.

...

*Havia um parque, uns destroços enferrujados, em meio a uma porção de grama fresca. Em torno, uma placa de escritos ilegíveis pra seu estado de consciência.

...

Até onde eu lembro, foi ali que eu o conheci. Tinhamos nos fitado algumas vezes, quando iámos a nossos portões receber nossos pais, mas ainda estudávamos em escolas diferentes, e era impossível uma aproximação maior. É, foi a bola dele que varou do quintal até a minha cabeça, em cheio. Minto, quase em cheio, pois ricocheteou na corrente que prendia o balanço àquela barra de ferro. Era uma bola de borracha, se eu estivesse mais distraída, eu nem sequer sentiria, ou simplesmente seria um mosquito me esbarrando. Só que eu não pude evitar a vontade chorar, e comecei e berrar, como que adivinhando... Intuição feminina em plenos 7 anos? Haha. Eu nem tinha uma idéia fixa da diferença entre menino e menina...E ele veio me pedir desculpa, e conversamos. Me disse seu nome, e eu disse o meu, e só. E disse que meu cabelo era lindo. E foi embora, sem esquecer a bola. E... Dez anos depois. O dia era belo, e nós estávamos no auge de nossa distância. Pediu me pra servir de modelo, a uma pintura dele. Porém ele nunca, NUNCA foi de pintar nada. Tirando aquela vez que ele coloriu uns bonequinhos-paltinho e tentou fazer uma pseudo animação, pra nos entreter em alguma aula de química inorgânica. Ele nunca foi de pintar nada.. E afinal de contas, era uma certa mentira. O que ele fazia era uma porção de pala...

O que é esse barulho?

...

Ahn? É impressão minha ou saiu alguém correndo de dentro da casa dele?

Am... o quê...?

Eu fiquei 10 minutos aqui parada, vendo isso aqui, que um dia foi um playground, e não me dei conta que o portão da casa dele estava escancarado o tempo todo, desde o início... Deus... E que...?

...

Tem gente vindo dos outros lados, murmurando muito, muito alto. O que há? O quê? O quê? O quê?

*O tempo se fechou, mais uma vez. O sol já tinha se posto há alguns minutos, e as nuvens voltavam a se espalhar. Pequenos pedaços de chuva começavam a se a rarear pelo ar, até ocupar espalhar a umidade fria por toda parte, causando a sensação de que pequenos retalhos instantâneos se faziam em torno da face, conforme ela caminhava rapidamente, para, então, finalmente, correr.

Sunday, May 20, 2007

Al (I)

*Pé dela arrastando alguma coisa na sola, chiclete ou coisa assim, e ela abre a porta da cafeteria, e se senta com as pernas, as tais das pernas, cruzadas, ajeita o casaco e a bolsa. E diz de si para si mesma:


Já faz tempo que recebi a carta, três semanas, acho, e que agora nem sei mais quando, a data borrou, caneta tinteiro, manchou todos os lados da folha. Choveu. Me lembro muito bem o que ele queria. Me encontrar aqui nesse bar, doceria, sei lá... Minha pele tá uma desgraça, descascando, tá parecendo escama de cobra. Nesse mesmo horário, mas há duas semanas atrás. Duvido que ele venha pra cá, desde então, todos os dias na mesma hora. Ele tinha deixado o número de celular, mas só dava fora de área, quanto tentei retornar. Mandei 500 mensagens pra ele vir me encontrar aqui hoje. Se ele recebeu... Pra completar, está bem nublado, deve chover em breve. Ele detestava chuvas. E mesmo que viesse debaixo disso, duvido que me fosse reconhecer, já que não sou mais aquela menininha raquítica por quem ele era apaixonado. Já não sou a garota que ele... naquele dia... Eu só sei que devia ter cortado as unhas, e retocado a droga do esmalte, que tá todo borrado. Merdé. Eu agora sou mulher, tenho um brilho diferente, uma coisa assim, assim, não suspiro à toa mais por ninguém, ninguém, ninguém, não espero a sorte, o amor, ou o sexo bater a porta de casa e dizer "vem". Não mando mais cartas pro papai noel, nem telefono todos os dias pra minha mãe, que meu irmão enfiou no asilo janeiro passado. E essa cabeça que coça, meudeusdocéu, tenho que trocar o shampoo anti-caspa. Visito a velha sempre, ela se tornou caduca, de educação antiga, religiosa, eu preciso... Onde está a droga do garçom? ...Eu preciso visitá-la essa semana ainda. De educação antiga, a família dela sempre achou que lugar de mulher é na cozinha, e essas baboseiras. E pirilim, lá vai ele atender a mesa da moça mais gostosa, safado. E pirilim, nunca passou do ginasial, sei lá o nome, coisa como a nossa quarta série, por aí. E por que raios estou repassando essa pseudo biografia de tudo que venho fazendo? Eu não vou encontrar ele aqui. E eu mesma não sei como ele soube que eu via pra cá por esses dias... De certo se equivocou nas tais das datas. Semana passada ou retrasada era impossível vir. Mas é, o doutorado começou nessas semanas, biologia, animais marinhos. Sempre gostei, e me lembro de quando eu ficava folheando aquelas revistas sobre tartarugas, e ele vinha me cochichar que eu seria veterinária. Meio lesado, hahaha, as vezes ele era tão, tão... Será que ainda tem esses ataques de bobices? Não sei. Mas as vezes ele me torrava a paciência. Ah, enfim vem esse garçom lerdinho.
Ok, eu vou querer um capuccino, e umas torradas amanteigadas. É, só isso. Ok.

A viagem até aqui teve de ser de trem, aqueles novos, que o governo instalou no início do ano. Acho que também choveu no caminho, mas não, não lembro. Posso só ter sonhado... E sai tão exasperada de lá, com medo de perder a estação, que nem reparei se as janelas estava molhadas. E espero só que não demore. Ele me torrava a paciência, com exigências estranhas. Teve da vez que me pediu pra que dissesse o nome da minha estrela favorita, e eu com sombrancelha levantadinha murmurava: “Sol?” E ficava rindo, e me perguntava porque o Sol, e lá ia eu dissertando sobre coisas assim: “Ah, o Sol é mais perto da Terra, logo, é o que eu conheço melhor. Digo todo dia ‘bom dia’, ofereço o chá das cinco... Sem contar que as outras estrelas estão longe demais, e parecem todas iguais. É que nem uma multidão, sabe. Olhando de cima, todas as pessoas são iguais, um, e mais um, e mais um. Se alguém mais quente que algum outro, não dá pra saber, porque nunca estaremos perto o bastante pra ter certeza e sentir o seu calor.” E ele me perguntava, sorrindo, tantas vezes, “Por que você não faz um poema?”, e eu sempre repetia a mesma coisa, que eu não era poetisa, que o que eu gostava era de biologia, de decorar nomes de proteínas, e etc.

*Um pouco de chuva começa a cair, novamente. Mas ela mantém o casaco dobrado sob a bolsa.

O Al... Eu o chamava de Al. Enfim! Enfim as torradas e o capuccino. Obrigada. Essa mesa é suja demais pra mim. Está frio, aqui sempre foi frio assim, mas depois de passar tanto tempo no Rio, a impressão que tenho é que esse lugar se tornou ainda mais frio, como que em contrapartida, dizem, dizem, que o Rio de Janeiro está cada vez mais quente. Deve ser o fim do mundo. E eu o chamava de Al. Al, de au, au, de onomatopéia de latido de cachorro, mesmo. Ele gostava, suponho eu, porque sorria sem ficar constrangido ou bravo. E suponho também que seja porque nunca o chamaram de apelido algum. Seu nome era estranho mesmo de se apelidar, tanto que pensei algo completamente diferente, tal da sílaba que nem tinha no nome ou sobrenome dele. Mas era do cara que tinha escrito um poema que ele gostava muito, desses que morreu faz tempo. Dizia que as primeiras estrofes, assim como todo resto, mas as primeiras estrofes o definiam com, hum... hum.. Com as próprias palavras dele, o que ele costumava dizer mesmo...? Hum... Ah! “Plenitude”. As primeiras estrofes o definiam com plenitude. Já esqueci há décadas os tais dos versos, tinha algo a ver com Nada, e querer ser nada, sei lá. Droga, esse capuccino tá sem açúcar. Garçom, açúcar por favor. E ele me pertubava tantas vezes com coisas bobas. Certo que nos sentíamos bem 90% do tempo. Mas tinha dias que ele prefiria debater Nietzsche e Sartre telepaticamente com a barata semi-morta no canto da sala, do que me chamar pra beber alguma coisa. E assim ia. Estávamos sempre conversando coisas simples, pois em tese, em tese, erámos muito diferentes, nos atraíamos por coisas quase que opostas, ou diferentes demais, para debatermos de forma aprofundada sobre o que mais gostávamos. Em tese, digo, porque parece que ambos gostávamos de alguma forma da vida em si. (Que coisa poética, gostar da vida...) E não poucas vezes ficávamos comentando como as pessoas reclamam de política, que os vereadores e derivados são todos uns safados, mas nem param pra refletir e pesquisar sobre o candidato em que votam. E fazem isso quase que aleatoriamente, tacando lá o primeiro que lhes vinha na cabeça, que geralmente era o que fazia mais propaganda, que muito provavelmente era o menos confiável de todos.

*Ela limpa ambas as mãos, sujas pelas torradas.

E ele desengrachava as mãos, e me abraçava quando eu ficava ajeitando a porta de ferro da loja do meu pai. Esses momentos eram de gentileza, que o sorriso dele era compáravel a de um menino de 5 anos. E passou muitas tardes comigo naquela lojinha fria, comendo paçoca e bala juquinha enquanto esperávamos os bêbados pagarem suas contas. Mas isso faz ainda mais tempo. É muito antes do que aconteceu naquele dia. Uns 5 anos antes. Aquele dia... Droga, começou a chover. Ainda bem que o guarda chuva tá aqui enterrado na bolsa. Um cachorro felpudo vivia no quintal dele, e nunca soubemos de onde ele veio. Parecia um puddle misturado com pastor-alemão. Eu sei que aessas raças não cruzam, por conta do tamanho, blá-blá-blá. Ah... Que parecia, parecia. Joguei tantas vezes o soufflé queimado que a irmã mais velha dele fazia. Ele nem se chateava, já que era dele a iniciativa de alimentar o bichinho. De fato, foi bem depois disso que eu comecei a chamá-lo de Al. Foi n’algum dia chuvuso, parecido com esse, aliás. Acho que vou pedir uma sobremesa, faltam 5 minutos pro horário. Ah, o garçom tá vindo pra cá. Oi, poderia me trazer o cadárpio de sobremesas? Obrigada. A aula de Física tinha acabado, e, bem como ultimamente ele vinha fazendo, estava distante de todo e qualquer influente externo, e estava jogado na cadeira, no canto extremo da sala, lendo e rabiscando alguma coisa no caderno. Como era feia a letra dele, deus-do-céu, e eu ria, “hahaha”, claro que baixo, só pra ele ouvir. Brincava se ele ainda fazia curso de aramaico, e ele mostrava a língua como adorava fazer quando cheia de paçoca. Mas tinha algo diferente. Eu me acostumei a presença dele, e ele a minha, desde não lembro quando. O tempo, porém, estava nos afastando, de uma forma que inevitável, intangível, sei lá. Como se a correnteza afastasse dois botes no mar, e um visse que o outro estava furado e afundando, e este que observava estivesse distante demais para fazer alguma coisa. Merda. Isso lembra... Ele sempre sorria de forma encantada com essas minhas comparações idiotas. Deve ser um dos detalhes que fez ele se apaixonar por mim. E porque diabos eu me...?Ah... Obrigada, de novo. Espere, eu vou escolher rápido. Já tenho em mente, um... Um sorvete de morango, mesmo. Isso, taça pequena. Ok. Sim, com cobertura. Ok.

*Seu cotovelo direito começou a arranhar a mesa, em círculos imperfeitos, e seus dedos quicavam na mesma com arritmia.

Vou deixar isso ao deus dará. Fazia anos que eu conseguira enclausurar esses pensamentos na minha memória, trancá-los num bau podre cheio de cupins carcomidos, e engolir a chave. Santa hora que eu vim pra essa cidade maldita, de novo. Santa hora que minha tia-avó resolveu morrer de enfarto, e deixar a herança pra sobrinha-neta-favorita-a-qual-ela-não-dava-a-mínima-há-15 anos. Bem, desse lado não posso reclamar, pois pode ser essa grana que garanta o meu pós-doutorado na França. É uma compensação, ao menos. Ah, chegou. Obrigada, pode trazer a conta também. Hum... Realmente está bom. Essas cafeterias que também vendem sorvete costumam ter uns tão mal preparados... O que eu queria saber é como ele soube disso. Tá certo que ele morava do lado da minha casa, mas será que ele mantinha contato com a minha família, mesmo depois que eu parti? E por que ele não fez uma faculdade, de museologia, sei lá, que fosse, de letras? Ficou enclausurado nesse fim de mundo a vida toda. Ele que, nos bons tempos, era tão inconformado com a vida, com a conformismo das pessoas... São coisas que eu perguntaria se continuasse aqui por mais alguns minutos...Talvez. Mas a chuva tá rareando, e eu... Acho que vou embora. Sem contar que já são 10 minutos da hora marcada. Posso depois explicar que houve um imprevisto... Bem, a conta está vindo, onde está minha carteira? Aqui. Hum, ok. Pensei que ia sair por mais. Aqui está. Obrigada. Obrigada, de novo. Eu vou dar uma volta nesse pracinha daqui de frente. E ficar observando, e ver se ele vem. Pronto, acabei.

*Ela ajeita a bolsa, e penteia o cabelo, mesmo com as mãos. A tarde começou a cair, e a temperatura ia abaixo, concomitante. Pega a bolsa, abre a porta, e dá adeus, a quem, nem ela sabe.

(Continua...)

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Ps: Foto capturada por Daniel Camacho. (Site Olhares.com)

Tuesday, April 24, 2007

Bloody Babel

Era cor de mármore o brilho. Cortava a multidão, à velocidade do som, enquanto ele cortava os postes e as idosas passantes à velocidade de cágado. De passos, dos passos, contados, perdidos em conta, o ar se cortava em papel de seda. Fino, tanto quanto. À superficie, a face rabiscada, em assimétrica doçura. Dela lembrou-se, e àquela manhã de abafamento, de contentamento, de estrangulamento, estava por entre seus dedos. Gofava, dentre uma tosse e outra, minúsculos pedaços de vida. Fitava a "artéria" pulsante, ruborizada, no globo ocular. Fedia e babava sobre a testa, e então, a nuca, desta. Ao redor, nem sombras testemunhas, o juramento de silêncio, e já seriam 11 da manhã.

Era de cor amarelada o brilho. Cortava a multidão, à velocidade da luz, enquanto ele cozia os neurônios em banho maria, de pé, em Auschwitz, em hora, na hora certa que se distanciava da linha branca do acostamento. Chegara a chuva, e o a chuva de meteoros da galáxia Cygnus X-1 rasgavam o concreto e o asfalto. E a chuva ácida que derretia sua pele, fundida no azulejo do chão, extirpa aquela saudade, estripa a verdade quase romântica do sonho cumprido à risca, estrupa, ao meio dia e meio, o meio dia inteiro. Seu pânico: estava dentro de sua canção de rádio, ecoando-se pelas paredes.

Era cor, de si por si só. Cortava a multidão, à velocidade de gente manca, enquanto ela carregava o peso da vida no cocuruto torto. Ode a roupa suja, a sede rasgada, ao choro raquítico, murmurava melodias populares. Mas aquela paisagem era quase gótica, com seus cactus verde musgo, com suas caveiras roídas, com a cadela -que um dia fora baleia, mas agora nada mais era que uma sardinha moribunda, mortíça- e suas costelas viradas do avesso, com o camundongo quase morto atarrachado por entre os caninos. E meteoros cortam novamente o céu, rasgam a estrada de terra em 4, estraçalhando ela, a cadela, o que restava do rato, lá. Vêm telejornais, que trazem notícias, que saem pelas rádios, que saem pelas paredes, que cortam o ar à velocidade do som, que navalham à pele das pessoas à velocidade da luz, que abrem a bica lavando as mãos sujas de vermelho, que aparatam-se com curativos na partes onde a pele é derretida, que abrem e fecham buracos em terrenos baldios, que epilecticamente desfalecem em meio ao passeio público.

“Estamos aqui, à uma hora da tarde, direto da 13º DP, onde um homem, cujo nome ainda não foi divulgado, declarou-se culpado pelos três brutais assassinatos, que chocaram o país nessa última semana. Mesmo com seu advogado apresentando, e, inclusive, comprovando o álibi para os dois casos mais recentes - o homem estaria na cidade do Rio de Janeiro a semana toda, onde já havia sido indiciado pelo primeiro crime, ocorrido nesta terça-feira-, este afirma ser o algoz dos assassinatos cometidos, tanto em Belo Horizonte, na manhã dessa última quinta-feira, quanto em São Paulo, às 3 da tarde do mesmo dia.”

Monday, April 16, 2007

Mah - I

"Chega, eu já disse que estou sem tempo. Anda!" Eu pedia mais um segundo, mais um trejeito desejeitado, mais um qualquer..., qualquer coisa servia, qualquer pedaço dela, -qualquer, qualquer-. Mah estava saturada, e não cabia nos próprios gestos de inquietude, desdém, e derivados. Perna cruzada (a dela), eu notava até cada um dos milhares de pontos negros ao longo de suas... "distantiosas" pernas (não tinha adjetivos nem então, fitando à 3 palmos à própria, quanto mais agora, a séculos-luz do que ainda me resta da memória, de sua imagem... "cálida", "pura", "cas.."...Raios! Sempre péssimo, previsível, óbvio na escolha dos meus adjetivos...). Coçava a nuca a cada montante de segundos, o couro cabeludo com a ponta fina da unha do dedo mindinho, com esmalte-recém-retocado rosado claro, e os fios finos semi-castanhos no colo superior dos seus dedos, e as mordidas, beslicadas, que Mah mesma dava na ponta de seus lábios de um róseo natural, quase rústico. (Tudo passava por mim, tudo seria transposto no que eu pretendia.)

Forcei a garganta, pouco, escalavrando-me por um instante curto, e enfim o olhar dela recaiu do ponto mais alto do teto da sala, para... para... para... apontar o meu queixo. Pedia para que não se mexesse, a partir dali, e eu que um dia a quis tão impalpável, para não corromper-me e decepcionar-me, caso a tatuagem que já havia marcado, à ferro e água, há anos no meu inconsciente, se revelasse inverossímil... Eu que já a quisera na devida distância, nem transeunte na linha do horizonte, nem na esquina, à porta da confeitaria, podia agora até ajeitar-lhe a cintura, e pedir pra que inclinasse 20 graus a esquerda, e pedí-la para calcular o cosseno daquele ângulo, em uma quase piada, e já esperar seu sorriso torto, porém espontâneo, com o qual eu vinha me familiarizando, tão intimimamente, tempo atrás.

Mah não entendia, e já desistira há algum tempo de compreender minhas loucuras. Talvez pela “intagibilidade e imensurabilidade no que se refere aos pensamentos e alma de cada um”, arriscaria um livro de auto-ajuda, mas ela recusava, sabia eu, essas generalizações, e já tivera atenção específica em mim, também, um dia. Os rabiscos na parede, meu sol de sorriso não-linear, de brilho tangente ao solo, "isso era para ser uma estrela?", o meu verso (ou de outro tolo), meio sem nexo, rabiscado no canto superior direito do caderno. "Quê que tá escrito aqui? Você ainda estuda árabe?". E me fazia soltar o riso, mais barulhento e incômodo do que as pessoas ao redor esperariam, e que ela recebia, sempre, com mesmo espanto, contudo, de sua parte, que se tornaria surpresa agradável. Mah nunca entendera plentamente nada de mim, e preferia assim permanecer, como em um estado de espírito, e estava ali diante de mim, fazendo pose, de Monolisa-pós-moderna, que ao invés de guardar um riso cínico, postava na face os dentes como em alicerces metálicos de algum prédio de luxo (sim, ela e seu aparelho). Eu, não... não... não tinha nada de tinta, nem aquarela, e nada de artigos pintura, como insinuei há pouco, faltava-me, e até hoje é assim, o talento para esse tipo de arte. Eu rabiscara, sim, primeiro, em giz de cera marrom um esboço, traços sem nexo, deslinhados, aleatórios. Refiz e fiz e refiz circulos grandes, mesmo sem compasso. Fiz o serviço em cartolina “papel-40-quilos”, e pronto: um mosaico digno de trabalho de jardim de infância (sem desmerecer a sinceridade de tais "obras", claro).

Mah espreitara minhas intenções com o papel, tivera a noção do que se tratava, e começara a rir desembestadamente... “Mas o quê...? Não acredito...”. Ela me dava naquele instante o “qualquer-qualquer” pedaço dela que eu tentara garimpar até aquele momento. E que agora, agora-agora, tanto me falta, enquanto, deitado, aqui, com dormência impiedosa atacando as pernas, vejo da janela, o sol e a luz amarela pálida, passando por esses vitrais pseudo-góticos, e colorindo tão falsamente o chão e o azulejo branco daquela, dessa sala, de vinho, roxo, e fim e noite precoce. E fim.

Monday, April 09, 2007

Epitáfio Segundo


Eu te amo. E tá, eu sei, palavras só são palavras, velha frase clichê de traseiro de caminhão. E são ditas no ar que se escafedece-se redundantemente antes que tu termines de respirar entre um tossir, um chupar de catarro e mais outro. E te joga entre os pedacinhos dos mousses de chocolate presos nos dentes que tu não escovaras desde o café com leite de ontem de manhã que tomamos antes de sair pra trabalhar. E as baratas daqui de casa estão perdidas de todo tempo, espreitam-se entre a tampa de chá, coador bege, mexilicam os grãos de açúcar com leite que ninguém varreu, e tú gritas “que merda!”. E está lá trás, vá pegar você a pá pra varrer essa melequêra. Traz a toalha, traz o papel higiênico, traz o documento. E onde eu assino? E coças a mão enquanto escreves. E coças as canelas, enquanto mosquitos te pinicam à’lma (alma fede a queijo mesmo). Nariz meu escorre, e tá, eu já disse isso a tarde toda, mas só queria que tu soubesses que: E ponto. E te embrulha o estômago o meu petit gâteau sem talento ou amor, teus olhos me confessam. E ontem de noite foi terrível, eu sonhava que o fim de mundo era hoje, que cães sarnentos do tamanho de elefantes invadiam a sala de estar que, ao invés de azulejo pele de lagarto, era pavimentada de paralelepípedos cor-de-rosa. E sonhei que a goteira do teto do quarto se mudara para o quarto das crianças e pingava bem em cima da tv 14 polegadas. E vamos jogar paciência, meu amor. Quem vencer mais rápido paga a conta do Habib’s. E tá tarde, porque você ainda não está na cama, caralho? E porra, eu já te disse que não é pra subir na janela desse jeito, já me cansei de te dizer que não é pra você se jogar lá embaixo, sujando o pátio da Dona Rita. E a saudade tava cansada, tirou as meias com chulé, a camisa listrada podre de suor, esticou as perninhas no sofá, lembrou-te da vida que foi sem voltar atrás. E atrás. E atrás. E atrás, você sequer vai voltar atrás. E mesmo seu disser que se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade, você já nem lembra do que eu lhe disse. E que as coisas passam, você já sab... (digo) lembra, muito bem.



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Ps:

Foto garimpada do acervo de Geoffroy Demarquet. Vamos, clique aqui para ver seu perfil no site Olhares.com.

Tuesday, April 03, 2007

Epifania e Eu: I

6 de Janeiro. Eu estava lá sentada no canto da sala, quieta, na minha, não incomodava ninguém. Era ela que vinha dizendo bom dia mumurado, e jogando as roupas pelo tapete de entrada, e esticando as pernas mal depiladas na minha poltrona favorita. Um abuso só. A sala de aula estava com umas cadeiras tortas, cheirava a desdém, e o quadro negro tinha borralhos brancos, gizes usados pra rabiscar rascunhos fedidos, dos desconhecidos vizinhos de classe. Ela chegou simples e pura, nem disse nada, ela costumava, basicamente, se comunicar com olhos e face, dependurou a mochila na cadeira à frente a que ela se sentou, abriu o caderno iniciando as primeiras anotações do dia. Ela sentava na poltrana rosada, e adorava ir até a geladeira pegar suco de cajú e pudim. Comia, babava, lambuzava, sentava e pulava na poltrona, sempre dizendo do dia, uma bosta como todos os outros.

Ela sequer perguntou meu nome, e indagou que horas eram. Ok, respondi de canto de boca, três e cinquenta da tarde eram, e continuei na minha, procurando ânimo para recomeçar a estudar. Ela ensaiou um sorriso, e já meio sem paciência, cuspi a pergunta: qual era a graça? Ela sempre ria das minhas manias estranhas, como não saber como dizer as horas de forma abreviada, como em "15 p'ras 5", ou mesmo, apesar de ser moça, esquecer sempre a tampa da privada aberta. Pediu desculpas, e continuou a fitar o seu caderno, que nem parecia caderno de "menina". Tinha um tigre branco, de olhos violeta, com bigodes tortos, no meiode uma paisagem que nem de longe parecia a África, aquele mesmo fim de mundo.

Perguntei que de turno ela era, por até então não tê-la visto pelos corredores da faculdade. Ela sempre se gabava de ter conseguido passar na prova de transferência para o curso de Engenharia Civil. Mesmo tendo se formado no ensino médio em colégio público paupérrimo morinbundo, ela era uma nerd com “n” maiúsculo. Dedicada, minto, não, obscecada pela carreira e pelo futuro. Suas obsessões e apegações... Ela comentou que tinha acabado, sim, acabado, bem há pouco, de ajeitar a “papelada” para transferência, e que agora, finalmente, poderia se considerar “caloura da universidade X ...”. Estiquei ambas as vistas, e estranhei, parecia auto confiante demais. Nada tinha a ver comigo, afinal. Não, eu prefiria aquelas mais caladas, silenciosas, até autistas. Ou seja, as parecidas comigo, contudo, ainda mais subjetivas e anti-sociais, anti-anti-sociais, anti-qualquer-coisa. Definitivamente não fazia meu tipo. Ela vivia resmugando sobre a minha mania de ser do contra, e brincava, enquanto arriscava umas quase-cócegas, dizendo que eu era a “pseudo-telectualzinha” dela. Virei de lado e a ignorei, fechando a face voltei para mim mesma.

O professor mentecapto-fedido-aidético-tísico de Cálculo chegara mais cedo, para nosso espanto, e começou a apagar o quadro. Pronto, agora que a paz descera ralo a fora. Ainda faltavam dez minutos para qualquer coisa: aula, contato-calor humano. Blá, blá, blá. Inventei de beber água no bebedouro mais longinquo do universo. Ela perguntava, com a falsa curiosidade dos que já sabem o que querem: “Você não tem distúrbio de uretra, nem nada, então, você não sente tanta sede, sente?”

Tuesday, March 27, 2007

O Pombo e o Assassino

Caído de banda no chão, o pombo tinha cor azul escura, cor cinza, e um pouco de cor roxa de intermedio entre ambas. Fresco, morno, sem moscas, vermes, devia ter sido abatido há pouco. Óbvio, ainda se mexia, ainda emitia ruídos baixos, e piscava o par de olhos a cada par de segundos.

Seu assassino, já devia ter descido rua abaixo, tropeçado em algum paralelepípedo, ralado o joelho, enrubescido a pele e os lábios, levantado novamente, e deve ter ido embora, ainda saltitante, com seu meio sorriso nos lábios, com o elástico preto, velho, comido, do estilingue envolvendo seu pescoço, por sua vez empestiado de suor meninesco, que fedia ardido e salgado.

Estendido, no meio do gramado não-tão-verde, o pombo cavoucava entre suas penas com a asa livre - aquela cujo o peso do seu corpo não imobilizava-, sob um leve, tênue desespero. Tênue a ponto de ser como um desespero tranqüilo. Tranqüilidade que vinha da ausência de consciência sobre este desespero, sobre a morte eminente, sobre a hipótese de que nunca mais faria as coisas que gostava, também ser ter idéia das mesmas. Nunca mais voaria aleatoriamente por pelas ruas cinzas. Nunca mais visitaria praças desertas lotadas de lixo e bagulhos jogados. Nunca mais pousaria no alto daqueles prédios do centro da cidade, em sacadas esquecidas, ciscando pedaços de não-sei-o-quê trazidos pelo vento. Nunca mais seria aquele inconsciente passatempo para os idosos ociosos e suas migalhas de pão dormido, e para as crianças estúpidas e seus trejeitos barulhentos.

Seu algoz já devia estar em casa, teria lavado as mãos depois de ordens maternas, e desobedecendo prontamente, abriria a torneira sem estender suas mãos sob a água, e logo estaria sentado, em algum momento, frente à mesa, com toalha listrada vermelha e branca, e estaria com fome, e estaria anscioso para degustar o que a mãe preparara naquele dia, e se satisfazeria ao descobrir que se tratava de frango, e arroz com feijão fradinho, e comeria com fome e pressa, e ouviria sua mãe dizendo para comer mais devagar, e sorriria com os dentes cheios de feijão enganchado e agarrado, e ouviria da mãe frases do tipo “mas que menino mais lindo. Mais lindo do mundo.”, mas não se importaria com o que isso poderia significar, porque ouvia essas frases todo dia, e fazia essas coisas todo dia, e então não devia haver significado relevante afinal para aquilo tudo.

Desbotado, o pombo se ajeitava, e sentia a cabeça doer deveras. E era apenas isso, a cabeça doendo, e mais nada. Sangrara medianamente, mas o sangramento já se estancara e se tornara coágulo por si só. Ainda se mexia com dificuldade, e como a maior parte do que acontecia na sua vida, não se dava conta do milagre que acabara de vivenciar. Não se dava conta que a pedra acertara de raspão sua cabeça, e não em cheio, e que não morreria mais – mesmo não tendo passado pela sua mente, em nenhum momento, a consciência da sua eminente morte -. Impreciso, vôou dali a uma semana, sem se lembrar de coisa sequer. Ingnorante e ingnorantemente, se dependurou novamente nas sacadas cheias de poeira, planou sem pressa pelas ruas de cinza desbotado e foi mais uma vez a diversão dos velhos ociosos e das crianças estúpidas.

Seu carrasco levantaria da mesa, logo depois do almoço, correndo para escovar os dentes, e os escovaria muito mal, e se jogaria no sofá para ver este fazer barulho, e gritaria um pouco, pela felicidade e satisfação animal de estar de barriga cheia, e sua mãe pediria pra que ele parasse com aquilo, e ele seria teiomoso e não pararia, e ambos seriam interrompidos por um baque estrondoso de porta sendo quebrada e botada à baixo, por onde homens encapuzados com metralhadoras entrariam, e matariam fugazmente ambos, com mais de cem dezenas de tiros, e a sua mãe estaria minutos depois encharcada de sangue, dela própria, e de água, da pia que ficara aberta, com o olhar pintado nos olhos de quem encarou a dama morte de frente e perdeu, e o menino, com uma metade do corpo estendido no sofá, e uma outra metade pendurada, perto de tocar o chão, teria para sempre no rosto a expressão de desespero, angústia, e plena consciência do seu fim.

Enganchado, o pombo prende a sua asa em um pedaço de arbusto, entreaberto à uma raiz grande de árvore. Solta-se, perde 3 penas, e volta a voar, apreciando com um par de vista negro, ignorante e indiferente, o pouco que resta do dia, das pessoas passando, e do sol que se pôe, nem amarelo, nem branco, mas como todo resto: cinza.

--

Fonte (da foto): site: www.olhares.com
Usuário: Manuel Ribeiro (clique aqui para ver seu perfil e seu álbum de fotografias).


Friday, March 23, 2007

De

De que ele já havia aposentado seus calos. Tombou cabeça para canto, novamente, apontando parede, fechando olhos, palpebras, mente. Escrevia com quase coragem e quase covardia, quando mais jovem. De coragem tinha de fitar desconhecidos, deste ou de outro lado de espelho. De covardia havia “bons dia” e “...’tarde”, sequer evitados, ou senão, respondidos com sustos e gaguejos. De seu relógio sem ponteiro, não digital, cuja importância era irrelevância: jamais soubera ver horas nele. De indeterminação, tanto fazia.

De saudades de mãe e irmã sua. Com dados sinais periódicos de vida, em quarto de lado. Saudáveis, sociáveis, normais, saudáveis, deve-se citar. Lembram-se de dia que ele desaprendera pronuncia de nomes próprios. Vocativos. Sem mais, pensavam vizinhos ser mudo, agora. Não. Gritava, quando calor e sufoco das cobertas quentes pinicavam. Iam interjeições, deuses, putas. Nunca ninguém chamado. De si para si, tudo. Da mesma forma, não atendia chamados. Mãe, irmã, batendo em porta de quarto. Sem resposta. Abria porta e saia quando queria. Trancava-se sob mesma regra. Apenas. Em início, consternação de parte delas. Com tempo, costume. Sentia falta, claro, como qualquer boa mãe e/ou irmã. Tardes eram solitudes, contudo, nada mais que isso. Solitudes.

D’ele, em seu quarto, divagava, devaneava, sem lembrar de certo quando deram início surtos, sandices crônicas, ou quê. Desaprendera vocativos, já acostumara-se com isso. Preocupação veio quando artigos também foram desaprendidos. Nem determinados, ou indeterminados. Tanto fazia se aglutinados em preposições ou tolices linguísticas outras. Seja que era que fosse, chegara a controlar cada palavra. Escrita, pensada. Seu último souvenir de desesperanças e memórias vagas reinventadas –escrever- despedaçava-se junto de outras coisas. Indefiníveis.

E escreveu até tinta de teclas apagarem.

E escreveu até tinta de canetas secarem.

De folhas em branco, inimigas de antes, agora criara costume.

E escreveu até tinta que ilustrava pensamentos acabar.

Deu por fim a saudade da mãe e da irmã.

E de céus estralados e campos verdejantes de glacê.

Só a parede, do sem sentido tombado e ao calo maior cada vez mais.

A vida do ensaio improvisado era uma vaga sentença do primeiro versinho daquele poema, enpacotado em papel crepom rosado, forma de coração-abacate.

O primeiro soneto também estava debaixo da cama, num papel manchado de café, dividindo moradia com umas aranhas feitas de poeira e umas formigas desabrigadas.

Monday, March 19, 2007

...

Preciso de idéias leves e compactas
Que caibam de baixo do braço
Que eu possa tocar rapidamente
Pela tecla certa
Pelo acorde dissonante
Pelo braço descoberto

Nem tão feliz assim
Até que talvez faça chuva e sol no quarto trancado

--

Ele era um menino que curtia poesias, sabe? Tava rodeado de rascunhos tortos e palavras, frases, textos prontos. Tinha toda e cada solução para cada atribulação d'alma, e essas simpatias universais. Tava bem entre os quereres e os deveres. Tava bem com seus horóscopos, com suas estrelas em parede quarto, com seus rabiscos...

(Se)

Havia talhos e telhas despencando pelas pontas da casa e dos quartos.

(Se)

Vazavam acordes p'ros ouvidos: escorriam versos das unhas

(Se)

Sentia que quase meio caminho estava andado: o vento batia a porta e rachava as frestas e fazia parte do teto despencar.

E tudo havia começado com seus devidos pedaços faltando...

Thursday, March 15, 2007

Cale-se

E eu estou meio cansado de estar acorrentando minha língua lambida e babada
Eu não digo "calalho", digo "caralho", não digo "pola", digo "porra"
Com suavidade cuspo "foda-se", "susurro" te amo, e tudo vai
Sem precisar voltar, nem deixar um bilhete em cima da mesa
Ainda estou meio termo, meio livre, e me sinto quase completo
O que digo evapora com minha saliva, e o que fica é um éter estranho, que nem me dou o trabalho de distinguir ou discernir
O que digo nem faz questão de fazer sentido, nem pra mim, quanto mais pra mim (ou vocês)
Evitem o trabalho de se magoarem ou emocionarem por qualquer coisa que saia desse buraco aqui
É tudo por ser, por estar oco de tangibilidade e recheado de pó de estrelas.

Tuesday, January 23, 2007

sobre watashi

(aquele que tava com as tripas do avesso, cansado de ver sonhos em forma de souvenirs se despedaçarem e exausto de chegar sempre atrasado e ter de ver o barca furada partir. aquele que, irritado com as mesmas canções tortas e desafinadas gritando alto em seus tímpanos, começou a socar a parede crespa até estourar e sangrar os pulsos. aquele que engoliu o seco, e uma meia dúzia de facas de 2 gumes afiados, fantasiadas de amor-meu-bem-me-ame, disfarçando a agonia de ter que continuar a sorrir, mesmo quando o resto do mundo lhe faz careta e atira-lhe pedras e garrafas de cerveja -vazias-.)

Monday, January 15, 2007

Ela e a Inspiração Dela.

A garotinha queria escrever, sabe? Mas estava sem inspiração. Rabiscava com seu compasso e com a ponta da lapiseira sem ponta a superfície do papel. Rasgava-a, na verdade. Chegava a arranhar a mesa de madeira, até. “Merda!”, pensava, sem censuras. Na verdade, sem ninguém para censurá-la. “Quero escrever! Preciso escrever! Estou morrendo, e não sai uma porra d’uma palavra da minha cabeça!”. A situação deixava a menina inquieta, como vocês podem ver...

O ócio, o mal de nossa geração, e o silêncio, outro mal, mas não só de nossa geração, fazia-a lembrar de seus primeiros poemas. Tortinhos, com rimas óbvias. Porém, dela. Todos dela. Os sentimentozinhos, correndo naquele coraçãozinho, tudinho à flor da pele e alma. Lembrou daquele soneto, seu primeiro, sobre a chuva. Escorria da janela muita água. Do teto, despencavam goteiras. “Ó, a nossa casa era humilde. E eu era tão feliz. Só não sabia. Bosta...” E lá foram os versos... Um, dois... decassílabos! Um par... dois pares... sete pares... Pronto! Lá estava seu primeiro soneto, “Ode À Garoa”. Como ficara orgulhosa de si.

Esta noite, contudo, fedia a óleo. A casa era grande, a porta saia para a Avenida X., e os carros cortavam-na à velocidade do som... ou da luz. Tanto fazia. O cheiro de óleo queimado, do dióxido de carbono espalhado, já começara a entranhar em sua pele. E aquilo “desinspirava” a jovenzinha. Além de lhe encher de dores de cabeça. Queria campos, verdejantes, com vacas a pastar. Esconder-se naquele sítio que a vovó tinha. Queria, também, voltar àquela casa de praia, aonde tinha ido com o ex-marido o verão passado. “As crianças tinham adorado...“.

A cozinha era espaçosa demais. “Eu vou enforcar esse corretor de imóveis. Nunca compre uma casa grande quando você vai se mudar sozinha”. Barulho da água batendo no fundo do copo era companhia dela, das aranhas nos cantos das paredes e das poucas baratas escondidas sob o armário. “Em dias bons, eu comporia uma prosa inteira, simplesmente dissertando sobre o quanto o eco de um ruído idiota numa cozinha pode ser barulhento quando se está sozinha em casa”. Sem perceber, tentou se equilibrar num pé só, fingindo ser Saci. Pulou duas vezes, sem cair. E orgulhou-se, também.

Sentada, novamente, à mesa, ajeitou o abajur, espreitou o bloco de papel, e tomou nota sobre o que acabara de pensar. “Vou dissertar futuramente sobre o eco da cozi...” E de repente rasgou o papel. Tivera uma genial idéia. A inspiração, aparentemente, voltara de supetão. “Vou falar sobre goteiras, isso! O jovem morava no segundo andar de um prédio de 20 andares! E goteiras de chuva caiam no meio da sua sala de estar! E...”. Os carros continuavam passando, como loucos, do outro lado da rua. O cheiro ainda era podre. Para os padrões dela, ao menos. Porém a menina se sentara, puxara, com sede, o papel e lápis, e mergulhara a escrever. Os seus olhos brilhavam tanto, que parecia aquela mesma “Liginha”, que acompanhada de sua excitação, abria a embalagem vermelha, cercada de durex, separando-a de sua tão sonhada boneca da Cinderela... Os olhos brilhavam tanto, que lembravam muito de perto, a mesma “Lí” que acompanhada de sua inquietação, ouvira do namorado as palavras “casar” e “comigo” numa mesma sentença... Brilhavam tanto, que nem parecia a mesma Lígia, acompanhada, agora, apenas de seus 35...

Épico romântico em Liqüidação de queima de estoque:

De graça

Digo que te amo
E me contradigo no verso seguinte
Antes mesmo do poema acabar
Pois não te faço o sentido, nem a cabeça

...Vá se fuder antes que eu me esqueça.

Tuesday, January 09, 2007

Ponto final

bela hora, você escolheu
para se juntar ao circo
e ir embora da cidade
momento ótimo
este
para se juntar as minhas palavras
joga-lás no sentido literal
e ir pro inferno
de vez

outro dia estava eu
sentado na beira da calçada
amarrando em cadarços
sujos
o sonho mais cru
de te ver aqui
pra sempre:
até meus olhos se decomporem
e deles se esbaldarem outros olhos
e de minha boca
que jamais tocará a sua
fazerem festa outras bocas
e por onde eu disse
o que virou pó
em pleno ar
na frente de nós dois

tudo é tão colateral
tudo é tão proporcional
o ódio
seco
que escorre dos lábios molhados do amor
o ciúme
cru
que se espreme
no espaço vazio entre cada linha escrita
ou pulada
dos versos de paixão e paixão

o reflexo irreconhecível no espeplho
é tão tristeza quanto tudo o que dissemos
por termos deixado de dizer tudo

e a poeira
que como sem sal
enquanto comtemplo a
(sua)
carruagem
(uma vez abóbora)
ir embora
pra bem longe
.

Wednesday, January 03, 2007

Ele
















Fim.

O rito de tempos em tempos se repetia, fazendo-se de tolo
Ainda que da ponta dos olhos se pudesse ver
Ele cruzar a esquina, murmurando, de mãos nos bolsos
Aproximando-se, com os relógios parados, com palavras tatuadas
O rito de tempos em tempos se repetia
Encostava-se na porta, ouvindo, de manso, o que diziam do outro lado
O ouvia os ruídos se tornarem cada vez mais intensos
Até a hora que ele chegava, novamente

Ele, em qualquer média definição
Arrastando...se. E eu sabia tão bem o que isso significava

Ah, ele era a moeda jogada no poço sem fundo dos desejos
Era a saudade sutil do que estaria por vir
Ah... ele causava aquelas sílabas, afiadas, ricocheteando dentro da boca
Cada vez mais cortando um pedaço do céu
Que vermelho, avermelhava-se mais
E que de tanto rubro, viria sair, escorrer
Ou cedo, ou tarde, e por todo resto.

Fim.

E então.
E de novo.
Ele, vinha, em riscos e travessias
Em saltos de uma perna só
De anos à fio, fazia
Frases monossilábicas mal trocadas (depois daquele dia)
Abraços retalhadores, segredos pálidos, cometas perdidos e apressados
Arrastando...me. E eu nunca fiz idéia o que isso significava

Porém me diziam... (que ele)
Era o mal que fazia bem
Era a luz que perpetuava, e fazendo mais luz, seus frutos
Era o que havia de novo nascendo após cada brusco escurecer
Era eterno
Era divino
Era cristão
Era amante
Era desejo
Era o fogo que ardia sem doer
Era cego
Era todas as cores numa só
Era... meu (e dela)

Fim.
Que querer, saber, de tropeços e pedaços cortados?
Pele e mão retalhados e cicatrizados pela metade?
Chega: do que disse, faz-se ponto final.
E faz-se sua memória, que aqui, já nada recorda.
Virando esta página e deixando-a para trás.

Fim.














E então...

-xx-








Edit: Foto originalmente publicada no site Olhares pela usuária Ana Red (clique aqui para ver o seu perfil e suas fotografias).

Monday, December 25, 2006

Dois posts, natalinos, ou não

I

Eu digo adeus, apenas para soar um pouco mais breve
Do sem-fim que isso aparenta ser
Giro, giro, giro uma caneta vazia
Sob o papel vazio
"É a noite que se veste de azul", ela dizia
"Sou eu que me abraço aqui, na quina dessa esquina
Na beira dessa calçada, sou eu, que, cansada também
Te abraço, como se isso trouxesse algum conforto
Como se isso trouxesse o nosso sorriso de volta à estante
E você sabe, não é...
É a noite, também, que se despe do azul."
Porque as palavras são muito mais fáceis de se manipular
Quase dizer dos amores e dos fracassos
Jamais será untá-los, em fôrma de nada, e junta-los n'um futuro qualquer
É quando a soma do todo é menor que as partes
Eu tenho visto o que isso tem feito de mim
Por isso, te digo, mesmo, o adeus, devera, enfim
Que seja mais brusco o intervalo
Entre o desfraldar do lenço, e a porta batendo.

--

II

E eu digo a Deus, que passe um tempo mais
fora de casa, porque estamos bem, e é, já é tarde.

Da esperança fizemos um presépio, uma noite,
um alento, uma estrela guia, um labirinto
uma perdição, uma reza oca, uns pares de olhos estrábicos
um retalho, uma colcha, umas ovelhas, um choro rouco
uns magos sem magia, um pastor, uma virgem santa,
um pedaço de argila, um pedaço de papel,
um pedaço de filme, um pedaço de conto
uma luz que desceu de algum lugar além daqui.

(Estava escrito, colorido, tingido, imprimido, impresso)
Que os dias cairiam bem aqui
A virtude: a benevolência
Os dias, os vintes, os cincos, cairiam bem aqui
No bolso do senhor do mundo de lá de fora e daqui de dentro

Orávamos, sentados ali, quando uma estrela passou atrevessada
fez a curva mal feita, tangenciou o céu azul
fechamos os olhos, então os abrimos, abrimos os
presentes, o presente, de embalagem vermelha, de
soluços compulsivos reprimidos, isolamos
a voz do vento lá de fora com uma janela fechada,
tapamos ouvidos, cantamos gritando contra qualquer um, coisa, além de nós,
trancamos, então trituramos, a chave do coração, já apertado,
pedindo a um alguém que o mundo fosse melhor da próxima vez, do próximo instante, do próximo ano.

No tal dia, da discórdia, benção, rendenção
Na tal glória, do juízo inicial, final, e o do meio.

Tuesday, December 19, 2006

Dois posts, para comemorar o fim da abstinência poética.

Completando o título: talvez eu realmente estivesse precisando de um pouco de literatura. O pouco que li de "Crime E Castigo", de Dostoiévski, de certa forma, renovou minhas energias.

E lá vão dois poemas, paridos logo após a nebulosa trégua, dessa constante guerra que é escrever.

--

Equívoco

"Estou errado em querer me curar em suas feridas?"

Minha pergunta cortou o ar como luz em fresta de janela
E sua boca aberta nem murmurava, nem sussurrava

Até que "é a hora de mentir, e você sabe tão bem quanto eu
Que mentiámos, e nos julgávamos, o tempo todo"

Era eu, pensei, que colhia palavras saindo de casa
E a caminho daquele encontro, era eu que colhia
Palavras e frases feitas, para então esquecê-las
A caminho do fim

"O sol está nublado, como sempre, como sempre essa nuvem vai
encobrir nossos pensamentos, até que nos agasalhemos, e encaremos essa chuva
e caminhemos para nossas casas"

Mas você era inquieta também, e bem sabia como
Dizer o que queria, de fato

"Sabe que poesia não salvam as pessoas, que estamos tão longe dos livros
E longe de qualquer idealização, pseudo-romântica. Você sabe que eu te quero, tanto quanto qualquer
besteira grande e pomposa a qual eu possa comparar o nosso amor. Mas você sabe que eu não posso te querer, também..."

E eu sabia que estava errado em querer me curar em suas feridas.

-----------

Ae Revouir

Não, você não pode amá-la
Não pode trazé-la à luz pela mão
Se os braços dela estiverem cruzados

Não pode dizer ae revouir ou eu te adoro
Quando ela estiver perdida n'um abraço de ontem
ou
Quando ela amarrar o riso e o laço apertar-lhe o pescoço

Não, você não pode atacá-la
A cada dia que ninguém disser nada
E que do silêncio não se fizer consentimento
E que do silêncio se fizer ressentimento

Não se atreva, você, também
A atá-la pelos pés, toda vez que ela fugir
Quando alguém esbarrar nas beiras da verdade
Porque ela irá...

Por mais que os caminhos que ambos, vocês, cruzem
Sejam círculos em labirintos viciosos
O retalho viciado não se curou
Mas você também fará de conta que sim

Afinal, a hora mais indicada para dizer adeus
É agora...

O 'de novo'
Para chama-lá pelo nome amanhã de manhã
E acordar com o barulho da porta, pelo vento, batendo no quarto vazio.

--

Sim, os temas são parecidos... E dai? =P


Friday, October 27, 2006

Mais que uma qualquer coisa

O que está em jogo é mais que um meio abraço
E mais que um seco beijo, cortado e raspante
Mais que um talher e um prato, ou o sabor que convir
Mais que uma visita esporádica a sessão de achados e perdidos
Mais que aquela frase não-monossilábica doada com ambas as mãos e bocas
Mais que aquele abraço que interrompeu o discurso e chocou a platéia
De ninguém além de nós dois

Isto nem chega a ser uma despedida
Entalada do lado esquerdo e empoeirado do peito
Nem é um dia, queimadura solta e exposta
Nem é tarde, uma nuvem parada sob a sua exitação
Nem é noite, mesmo, de verdade
Não é a lua minguante que você fez questão de cobrir
Com aquela paixão minguada

Isto nem é o coração, torturas de desapaixonados
Isto nem é oração, ou mantras pagãos que se precipitaram
Boca a fora...

É só tudo aquilo que eu via em mim
E não via em você

-xx-

(Fazia tempo hein? Ainda tenho escrito coisas... a questão é postá-las...)

Thursday, September 07, 2006

Múrmurio

Os braços estão abertos, e girando em círculos
Ambos de mãos dadas, jogam a sorte em dados viciados
Trocam-se de desejos e risos no meio da mesma cantiga
Da mesma canção sem refrão nem verso
É só murmúrio
Que murmura em notas o que nem sente

Lá se vão
Ele diz: "apesar dos outros, serei eu mesmo"
Enxuga a face dele, acaricia a face dela
É de manhã, e é isso apenas o que ele tem
Um bloco de palavras para divdir com o resto do mundo e do sempre
Ou do nada
Tudo

a letra seca, áspera, risca na saliva a página
virada, vidrada, cortada, sangra
a página amassada, orelhas surdas
o canto mudo que não sai, a busca do cego pelo belo
"é belo o meu cantar é belo meu cantar é belo meu cantar"
orelhas ampultadas, palavras afiadas, espinho encravado
espinha encravada, no peito, no rosto, no pedaço da página
amassada, a letra seca e Áspera

que murmura em notas o que nem se sente

Lá se vão
Ele diz: "apesar de mim, serei os outros
apesar de mim... serei eu mesmo"
O bloco de notas se aproxima do fim
O lápis mastigado sangra sua última palavra
Que teima em não escorrer para o rodapé da página

*borrão*

"Estamos tão perto de casa, daqui vejo a nossa janela"
As mãos dadas, voltam a girar e a cantar
Ela limpa o rosto dele borrado pelo borralho da sargeta
(ambos se banham do mesmo sereno)
Ainda não é chegada a hora de parar de murmurar a vida
dos que nem sentem o que é ser alguma coisa
Continua o canto teimoso: "é hora de ser feliz..."

*borrão*