Saturday, March 29, 2008
.Eu
Vou aprender a beber água de chuva
Vou aprender a fugir quando precisarem de mim
Vou aprender a olhar pra trás (e cuspir naquilo que eu ver)
Vou aprender a rir de você (e nas horas mais inapropriadas)
Vou aprender a me esconder por trás do que eu deixar de dizer
Vou aprender a correr com desespero rumo a cada coisa que eu odiar
Vou aprender a ser falso e vil, e a usar o próximo em meu proveito, e a saber trair
Vou aprender apertar a vida contra o peito com tanta força que vai ela sufocar, praguejar e morrer
Vou aprender a desconfiar de quem eu amo até chegar a hora que deixarei de amar qualquer coisa que respire
Vou aprender a escorrer a minha saliva e sangue em cima da ferida dos outros (e depois jogá-las na cara dessas pessoas)
Vou aprender a fingir que sei que estou errado quando eu 'realmente estiver' (sem ter idéia de que eu possa estar de verdade)
Eu juro.
Wednesday, March 26, 2008
Sobre maçãs
Sunday, March 16, 2008
11º Dia
Agachei-me mais ou menos na direção dos trilhos para pegar uma meia-meia dúzia de pequenas pedras e jogá-las contra o lago, absurdamente quieto, e enfim testar se o resto do mundo estava inanimado ou se, por acaso, assim ele reagiria de alguma forma, pois já havia horas que eu estava deitado contra os trilhos, inclusive já havia dormido, acordado, tido pesadelos, e algumas dessas coisas aconteciam ao mesmo tempo e eu cantava canções para mim mesmo e tentava fazer o tempo ou coisa que o valesse passar, só que nada acontecia, até o ar parecia estático e, assim, foi quando eu saí dali um pouco, e fui mirar as pedras contra o lago e, parece, que haviam mais montanhas do que eu supunha, e elas eram mais altas do que qualquer montanha que eu jamais tenha visto antes, e a base delas parecia ser constituída de rochas amareladas, e o seu topo era levemente arroxeado, e, no céu, havia alguns trechos onde as cores se misturavam como quando chocolate quente começa a se misturar ao café, e as cores são distinguíveis entre si através de finas linhas distintas, que se entrelaçam em forma de espirais, ondas, etc, e, lembro-me agora, as nuvens eram verdes e púrpuras, e o lago era cinza, cinza escuro, e ela estava caminhando na superfície dele, aproximadamente no meio, e eu andei com calma pela praia em sua direção, mais surpreso por encontrá-la ali do que por vê-la naquelas condições, e deixei a água me tocar até os joelhos, e ela então parou, e, é importante dizer, olhando para baixo, com as mãos cruzadas para trás, na beira de sua coluna, e estava de lado, de acordo com o ângulo em que eu me encontrava, mas era fácil reconhecer seu perfil, com o qual já estava tão familiarizado, e, enfim, eu voltei a fitá-la, e ela estava lá, olhando para algo dentro da água, e, também, acabo de me recordar que mesmo vestindo meias, os pés dela que tocavam a água estavam bem secos, e, aliás, a superfície do lago não esboçava nenhum movimento, mesmo quando eu havia entrado em sua parte rasa, e, eu tentei socá-lo, chutá-lo, e nada era dado como resposta, nenhuma reação, e, nessa hora, notei que nada era refletido na sua superfície, nem eu, nem o céu, só havia o cinza, cinza escuro, e eu gritei com muita força, voltando-me uma vez mais para a direção dela, tentando fazer com que ela voltasse a se mover, como há então há pouco, e cantei o refrão de uma canção que amávamos, e xinguei ela de nomes que sei que ela odiava, mas ela continuava parada, e eu tentei adentrar-me no lago, e caminhar até a direção dela, e a água estava, até então, apenas batendo no meu joelho, quando meu próximo passo pareceu ser em falso, e senti estar sobre um abismo, e eu caí por um tempo que me é impossível tangir agora, e como tudo ao meu redor, e tive a sensação de que a única coisa que não parecia inerte em todo o universo, naquele instante, era o meu corpo a cair, só que eu, finalmente, depois, recobrei um pouco de força que eu devia ter guardado, ou que eu, momentaneamente, esquecera que possuía, e, com umas dez braçadas, atingi a superfície novamente, e saí do alcance do lago com desespero e pressa, e quando eu pude recobrar plenamente os sentidos e respirar novamente, levantei a cabeça e vi que ela ainda estava lá, na mesma posição, a fitar o fundo da água, e foi aqui que eu joguei a única pedra que ainda tinha em mãos em direção a ela, talvez em uma última tentativa desesperada, e eu tinha certeza que tinha mirado na direção correta, porém o projétil fez uma curva estranha no ar, em piruetas assimétricas, pequenos movimentos em forma circular, como se uma força superior me estivesse me impedindo daquele ato, e foi para uma direção totalmente oposta da qual eu tinha o jogado, passando por cima da minha cabeça e voltando à altura dos trilhos, e, então, o céu multicolorido de outrora se tornou negro, e trouxe nuvens, na verdade, talvez fosse uma única nuvem, enorme, colossal, que ocupava ele por completo, ou pelo menos até onde os meus olhos podiam atingir, e uma chuva fina começou a cair, e ela era estranha, pois tinha gosto de mel, e era fria, e ela se tornou intensa, e se tornou em tempestade, e só aí a superfície do lago demonstrou ainda conter vida por meio de intensas borbulhas, e um barulho forte começou a soar por trás de mim, e eu vi que uma locomotiva estava passando, com todas as suas luzes acesas, e um apito estrondoso cortou meus ouvidos, e por uns instantes nem a mim mesmo eu podia ouvir, e mais alguns segundos depois, quando a locomotiva parou, pouco a frente de onde eu estava no início, e eu voltei a olhar para o lago, e vi que ela não estava mais lá, e eu corri, sem pensar, para ver o que havia ocorrido, onde ela estava, e percebi que dessa vez eu podia andar sobre a superfície da água, como ela estava fazendo, e notei, ao chegar mais ou menos no ponto onde ela estava antes, que somente aquela parte da água podia refletir algo, e foi aí que, depois de um longo período de tempo, eu pude ver a minha face novamente, e quando isso aconteceu, eu parei, e me olhei-me, e me olhei, como jamais havia feito antes, como se o meu rosto tivesse mudado radicalmente desde a última vez que eu o vira, ainda que racionalmente eu sabia que pouco havia mudado, e, então, tive a sensação de que a locomotiva tinha voltado a pitar, ameaçando ir embora, e de que meteoros começavam a cair por todo o lugar, destruindo superficialmente o solo e fazendo a terra tremer, e de que um enxame de milhões de abelhas tinha surgido não sei de onde, já que não havia florestas lá, e de que o céu tinha se tornado um vermelho só, e de que o lugar começara a ficar terrivelmente quente, e também estava sentindo que tudo parecia estar de alguma forma acabando, e eu acho que ouvi gritos distantes, e outros sons que não sabia distinguir, mas eu não conseguia mais me mexer, eu estava parado, e parado eu só conseguia olhar para o meu próprio rosto, e não porque era belo, e não porque me trazia paz, mas porque... porque eu não sei.
Saturday, February 23, 2008
Friday, January 18, 2008
otherwise
and now we're back here one more time
and now we'll fly away from our nests
very fast, very fast, very fast, every burning cradle
we'll spit us back
and
you...
you...
will hold me very tight
very tight
tighter than the last time
and now you know why
why I took all the hell back
cause it's so much easier
to repeat our last steps
you...
you...
will stab me very deep
very deep
deeper than the last time
c'mom, take my hand
pretend and take my hand
Monday, January 14, 2008
A Despeito
você sabe querer
sabe infiltrar
no que se vê
e no que não tenho mais
e me diz assim, tão simples
é hora de partir
me diz o que passou
o que eu perdi
enquanto dormia
lá atrás
as horas eram tanto sono
serei eu o que eu fizer do que sobrar de mim?
Saturday, January 05, 2008
atmosférica
define
constata
reflete
pondera
esmiuça
contesta
recrimina
declara
dispara
relata
comenta
diz
pontua
opina
disfarça
revela
confessa
gagueja
sussurra
resmunga
grita
choraminga
esbraveja
implora
sua
escorre,
o etílico rapaz da contramão acerca de si mesmo .
Wednesday, December 26, 2007
Cof
daqui de cima é difícil de ver algo
mas claro que há!
eu mesmo vi umas balanceando rimas sobre despeito e ódio
sentadas na calçada que dava de frente pra padaria que abriram semana passada
e isso foi ontem
Pare de levantar essa sobrancelha
você dá descrédito a tudo que digo!
veja, eu vi o soneto, isso, o mesmo de quem te falei outro dia
comprando café, cuspindo, e depois derramando dois litros de vodka garganta a dentro
e entrando em coma alcoólico e sendo levado de maca àquela clínica
acho que nunca mais saiu de lá, mas a questão é exatamente o fato dele estar vivo
e completamente no controle do que chama de vida
O quê?
que vida? como assim que vida, a vida, você sabe...
a vida, que fazemos e vivemos, e o tempo
que algemamos bem no pescoço e cuspimos à cara
Dedique seu papo de que só fazemos o que fazem de nós à outra pessoa, cara
Ninguém está enganando ninguém! é poesia! a vida é isso!
vivo loucamente, e o desejo e o prazer que carrego
são minhas únicas bandeiras
e...
O que é isso molhado em meu rosto?
Monday, December 10, 2007
Ode a Saudade
sou aquilo que sobrou de você dentro de mim
e sinto falta do que está aqui
do que desabafa traçando a mão
contraaboca
des, abafa, des, aprende
des, constrói em pingos
muitos, muitos pingos
monumentos inteiros de gelo
q'eu mesmo derreto ao tocar
e
ao
nem
parar
de
secar
cansado, remenda dois cacos e meio
eu derrubei sem querer
desculpe
prometo que isso jamais se re, re
remendando dois cacos ao meio
assim que se faz a saudade
ou costumava fazer
seja como for, queria aprender a sentir falta
do que se foi
do que está distante
distantedemaisassim
mas se não se foi, e se está aqui
bem aqui
aqui, assim, ó
e, se pelos pesares plenos e definidos, continuo
definitivamente devo dizer
que não sei o que querer
mais
só sou aquilo que sobrou de você dentro de mim."
Friday, November 30, 2007
Wednesday, November 28, 2007
4e2
Dois soluços em um arpejo
Lábio no veneno dedo em foice
Arrepio e convulsão ao tato
Apetece sacia quando hora propícia
Que sejam 15 minutos
Suor duo funde queima
Cospe fumaça em carbono
Bufa arqueja sopra
Guturalmente esgüela
Elaelaelaelaelaela
filho amo puta
te caralho de
O peito pingando
Que sejam 6 minutos e um terço
Vai breu e vem luz
Deixa o cansaço em dia
Pra esquecer que dia
...
Cicatriza selando rompendo
Orloff Lambrusco Heineken
Enxarca pele quase toca
Que sejam 15 segundos e meio
Faz madrugada assim
Quatroquatroquatro números divinos
E dois
Finge se vestir
Cai pela janela
Entra pela portinhola
Se escondem de lençol
Inundam seus corpos de maremotos
E suas almas de silêncio
.
Saturday, November 17, 2007
Azul lá longe
"Realmente me importa saber o que tanto você rabisca aí, nesse canto, esfolando esse papel azul machê,” disparou R., tentando mostrar segurança e incisão em suas palavras. Havia dito em vão, contudo, afinal T. mostrava total desatenção acerca de qualquer coisa que não fosse o citado papel azul. Machê. E arranhava um traço, dois traços, dando a impressão de ser apenas ela um gato revoltado tentando se defender de alguma ameaça. A ameaça, no caso, o papel, que faça-se a verdade, era rabiscado forçada e impetuosamente, a ponto de ser quase atravessado pela ponta de seja-lá-o-quê estava sendo usado para pungir-lhe à tinta.
Pingos azuis e verdes manchavam a mesa quando por instantes T. levantava a folha de papel para observá-la contra luz. De tão rápida e praticamente instintiva forma o movimento se fazia, que visualizar com exatidão do que se tratavam os traços se tornava tarefa impossível. Porém, à uma hora da manhã, cansaço começava a imprimir suas cores na face de T. Faria em pouco tempo cerca de 8 horas que começara o misterioso “ritual”, como R. mesmo afirmava em voz alta. Na verdade... Dentro da sua cabeça. E franzindo a testa ao tentar passar gravidade nesse gesto, esquecendo-se de que nada havia dito em voz alta, e que ela não virava a cabeça para outra posição do cômodo da sala à não ser a direção do papel, no meio da mesa, até então. O seu estado parecia um constante transe que se movia vagarosamente assim como fazem nuvens em formas de elefante ou cegonhas, riscando o céu afora.
R. chegara do trabalho no horário de sempre neste dia. T. parecia ter chegado do seu serviço mais cedo do que de costume, visto que no determinado horário da chegada dele, ela estaria ainda trabalhando. Talvez sequer tivesse saído de casa, reconsideraria ele posteriormente. Quando chegou encontrou-a fitando o papel com a mesma intensidade de agora. Somente pôde supor que começara o ato naquele instante, ou dentro de poucos minutos anteriores a este, após notar dentro de um certo tempo que a pilha de papel amassado jogado sob a mesa, em um canto afastado contra a parede, crescia com certa regularidade e constância, e que quando chegara, apenas havia dois pedaços rasgados em simetria quase perfeita, provavelmente o primeiro rascunho rabiscado e abandonado.
A impressão que a situação marcara em R., e esta seria um outro ponto das coisas que ele depois refletiria, mais frio e impassível, passava a idéia de uma T. correndo contra o tempo, à passos largos, contudo, com saltos de joaninhas. Havia pressa fugaz e desespero em cada traço, sim, mas havia calma evidente onde deveria haver insatisfação e inquietude quando um esboço se mostrava aquém das expectativas, e que era amassado, rasgado e jogado à pilha, junto dos outros pedaços passados. Os traços, curiosamente, difusos e aparentemente aleatórios a princípio, representavam certa ordem lógica após os recomeços dados a cada novo pedaço de papel azul machê pego na pilha, envolta em um embalagem de azul mais escuro, postado ao lado dela. E havia outra questão intrigante na situação, deixando R. realmente apreensivo: a face de T. Ela parecia constantemente virada pra dentro, de uma forma que em momentos passados de sua vida ele jamais poderia imaginar ou visualizar através de quaisquer descrições. Somente ali, ao vivo, isso faria sentido. Que os gestos encenados involuntariamente pela boca, pálpebras, narina e, bem mais discretamente, orelhas, pareciam acenar para um eu lírico invisível, que ele apenas conseguia, ou se atrevia imaginar, ser um espelho abstrato. O espelho abstrato das palavras. Ou das palavras que estão no embrião de formação na mente, que nem chegam a ser palavras de fato, que tem seus sentidos ainda intangíveis pela razão, cheias de figuras oníricas ininteligíveis a compreensão dos demais. Ela parecia observar cautelosamente os traços e os gestos do seu rosto, e isso descrever. Descrever através daquilo que ela rabiscava no papel. Fosse o que fosse. Caía como chocolate quente sob ambos a escuridão da noite.
Além, T. parecia evitar, ignorar suas necessidades físicas. Durante o tempo transcorrido, R. observou que ela ainda não se levantara para ir ao toalete ou para se dirigir a cozinha pegar algo para comer. Assim, ele tomou a iniciativa de extender um prato cheio de frutas cortadas próximo a ela -e foi isso o mais perto que ele chegou dela até aquele instante-. Esperou reações físicas à fatores diferentes ao conteúdo de sua tarefa, sentou-se em um sofá o canto extremo oposto da sala, e voltou a observá-la atentamente. Após um período de horas, notando que pequenos insetos já demonstravam maior interesse em fazer moradia por entre as maçãs e as pêras do que ela em comê-las, retirou o prato, evitando chegar mais perto do que antes, esticando o braço o máximo que podia. Já não tinha esperanças de ouvir sinais de protestos, e assim foi. O silêncio deslizava como a tardinha depois do almoço. Às 3 da manhã, R. apenas continuava a observá-la em sua distância calmamente porque o dia seguinte seria feriado, sem haver risco para qualquer um dos dois de perder horas de sono ou se atrasar para o emprego.
Novamente, R. roía os dentes uns contra os outros quando disse, e dessa vez efetivamente, em voz alta: “Também gostaria de saber até quando você ficará aí. Até quando ficaremos assim?”. Foi a segunda vez que se comunicara verbalmente com ela dentro de um período de 12 horas. E sequer atrevia-se a se levantar, sair do lugar, fazer algo, ou pronunciar outra palavra além daquelas. Parecia que o esforço extremo e derradeiro do seu corpo havia sido dado, e que agora já força alguma restava dentro dele. O último suspiro. Sem açúcar. Em momento nenhum, também, se atreveu a tentar olhar por cima dos ombros dela, ou aproximar-se discretamente por suas costas, evitando fazer barulho, para saciar a dúvida que apetecia-lhe o peito. O que tanto ela rabiscava no papel. O que tanto...
A questão? Ele sabia. A resposta. Chamava de dúvida o que na verdade tinha fobia de formar em sua mente. É. Isso aí. A certeza.
Friday, November 16, 2007
e
Tuesday, October 30, 2007
Thursday, October 25, 2007
3am
É, boa noite!
E chega!
Já tive saudade de tudo em monte!
Exatamente!
Eu sei que você sabe o que eu quero dizer!
Não é preciso gritar!
Sem figuras de linguagem, por favor!
Vai continuar transpirando forte assim!?
Pare de gritar!
Já terminou de falar?
Deixa que agora é a minha vez!
Fim!
Já senti falta, o bastante por uma existência inteira!
Chegadebilhetesrabiscadosemfolhaarrancadasdoblocode...
...notasjogadas...dequalquerjeitoemcimada...
...
...mesaoucolocadascomfita-crepeoudurexnãomeioda...
...teladatelevisãodasaladeestar!!!
Au revoir...
Pare de gritar...
Só eu posso gritar aqui. E é isso...
Se quiser, eu desenho...
Para de fazer essa cara que eu sei que você está fazendo...
Ok...
Devolveria algumas coisas que já não as tivesse queimado...
Já disse quase o que eu queria...
Pode desligar.
Wednesday, October 03, 2007
Ela me tolhe com os trechos mais frios da manhã
Ela corre até qualquer direção, me cai sob o colo, e me vê esguia
Ela salta e faz, 'foi susto', 'não quero', escala esse muro de cimento áspero e desfaz suas unhas
Ela deixa um fiapo estreito de janela aberto para o sol e a garoa entrarem
Ela dorme com a porta trancada à 10 cadeados
Ela não faz sentido, mas faz outras coisas
Ela anoitece sem querer
Ela amanhece quando quer
Ela estava bem aqui, bem pouco, mas estava
Ela queria dizer, eu não
Ela chove lá fora tantos dilúvios que nada vai ficar submerso
Ela colhe de mim as gotas frias de sereno que ficam espalhadas pela sacada
Ela chove o último dilúvio lá dentro e eu não sei nadar
Não que fizesse diferença
Ela queria dizer 'eu não'
Ela chove em mim as gotas de chuva que não caem em mim
E ela sabe, e ela sabe, e ela sabe que isso me enferruja
Ela sabe que vou me afogar
Ela sabe que vou ficar repetindo isso aqui fora ou lá dentro
Ela sabe que essa foi e será a última vez
Ela chove por toda parte enquanto minha arca está furada
Eu não quero ir a lugar
Ela escorrerá quando eu abrir a porta e disser
Nem eu, nem ela dirá, ou irá ou diremos e iremos ambos?
Eu não faço sentido nem outras coisas nada
E ela vai chover como sempre choveu pra sempre.
Tuesday, September 25, 2007
Ode Aos Poetas
uhum, pois é, enfia, pois pouco me lixo se você é poeta
se sente a dor do mundo, se respira o ar que as flores
mortas do campo trouxe... foda-se
não vou estar aqui pra cheirar o seu corpo putrefar
pelo triste vento caído do outono em cinzas
e não vou fitar o firmamento com palavras de conforto
de sentimento, de paixão e saudade, pelo amor que se foi
e não volta, a não ser nos seus sonhos, a não ser nas gravações da
secretária...
óooooooooo vida cruel...
eu cuspo o sangue
o sangue que escorre da lingua que eu mesmo mastiguei
ahhhhhhhhh...
é, mesmo, e isso aqui também não é um poema.
Friday, September 21, 2007
três pontos
Thursday, September 20, 2007
Vinícola
-Mas isso era sobre o quê?
-Pessoas...
-Hierarquias sociais? Quem ascende, vence na vida, vai ao paraíso, ou quem "dá mole", se afunda e cai em ruína, se afogando...
-No próprio vômito? Hahaha...
-É, é sobre isso?
-Não, viajou hein? Mas agora nem sei porque falei isso... Sabe...
-Pense...
-Err... Ah, sim. Não foi nesse sentido, acho, que metaforizei esse...
-Esse...?
-Era sobre a solidão que eu falava. A Solidão humana. Estúpida e humana. Essa necessidade imbecil de se precisar estar com alguém.
-E aí. Por que estúpida?
-Porque seria... seria muito mais simples se fossemos auto-sustentáveis.
-Bem estilinho países europeus de primeiro mundo? Ou os EUA?
-É! Exatamente. Depender só de si mesmo para se sustentar, ou no caso, ser feliz.
-Você está parecendo petista elogiando a Petrobrás.
-Hahaha...
-Mas você sabe que isso não passa de teoria. Discurso de auto-afirmação ou papinho pré-eleitoral pra angariar votos. Claro, eu digo das duas coisas.
-É, eu sei...
-Então...
-Você sabe que eu só estava ensaiando uma tentativa de enganar a mim mesma, certo?
-Sim, claro. E você sabe que eu esperava que você admitisse isso...
-Hum...
-Pois isso tudo é só balela, papo peneira, veja, ninguém é isolado, auto-sustentável. Nem pessoas nem países. Veja Cuba...
-Lá vamos nós para a aula de Ciências Políticas... Ou de auto-ajuda, né.
-Hahaha, desculpe, isso é chato pra cacete, eu sei.
-Até que não, he... Digo, a aula de ciências, claro.
-Sim...
-Sei que tanto ninguém pode estar só, quanto um país, e esse seu blablablá todo aí.
-Sim, exatamente. Já diria aquele cara que eu esqueci o nome.. Nenhum homem... err...
-É uma ilha?
-Isso!
-Mas não falávamos de solidão?
-Sim, e as pessoas se apegam facilmente a outras pessoas ou coisas que podem nem valer tanto a pena.
-E quem julga o que vale ou não a pena?
-Sei lá
-Talvez.
-É...?
-Vai continuar tentando falar dificile-metaforicamente pra me impressionar, ou enrolar, sei lá.. ou vai ser direta?
-O quê? Como? O que você quer dizer com isso?
-Eu que pergunto que você quer com essa ladainha toda.
-...
-Está com dúvida de algo e está jogando pedras ao vento, tentando acertar fantasmas no olho.
.. Certo?
-Mais metáforas?
-Anda. fala.
-É.
-Então digas do que duvidas, jovem pensadora. Que questão que indagas que te afliges?
-Pára.
-Ok, parei.
-Olha pra isso. Isso. Isso. Eu nem sei.. Nem, sei, nem sei, nem sei, nem sei como você é de fato que você quer fato, o que, o que realmente te importa de fato.
-De fato.
-Ha...
-Continue, please.
-Tsc... Veja bem. Nos conhecemos há 5 dias apenas...
-5 dias? Já vai fazer um ano!
-Conhecer nesse outro sentido. Esse aqui, de agora a pouco. E aquele, de ontem de noite.
-Hum... Isso é.
-Faz nem uma semana direito que começamos mesmo, com isso, e já...
-E já aconteceu.
- ...É
-E aí.
-E aí que não é assim que funciona comigo. Ou costumava funcionar até ontem. Eu nunca...
-Nunca ficou com um farelo melecado do chão, né... Isso que você queria dizer.
-Não! Não era isso...
-Então o quê?
-Sei lá... Desisto.
-Tente de novo.
-Não. E tire esse lençol de cima de mim, ele já esta me pinicando. Não roce seu pé tanto assim no meu também... Anda, tira.
-Fique calma...
-Já estou.
-Ok.
-...
-Assim está bom?
-Tá. Está muito quente aqui dentro para nos entrincheirarmos, em tantos panos sujos e suados...
-E melecados. E conspurcados. E ai, poeta, tem certeza que está calma?
-Sem sarcasmos. Sim, tenho.
-Então veja... você se julga solitária?
-Por quê?
-Porque acho que é isso que te aflige.
-A solidão?
-Também.
-Mais o quê?
-Julgar excessivamente e o tempo todo o que você sente... bem, isso é um outro aspecto a ser debatido e analisado...
-Ah...
-Você duvida se está realmente apaixonada por mm, e provavelmente você sempre tem essa dúvida, se está a gostar de verdade da pessoa em questão, pelo o que ela realmente é, ou se é só uma tentativa de fugir de si mesma, dessa sua carência...
-Lá falou o analista... não sabia que tinha cadeira de psicologia em Economia.
-É ou não é assim?
-Pois...
-Pois...
-Pois você está completamente errado. Essa sua mania de ser pseudo-analista te dá ideias precipitadas na cabeça. Um saquinho de equívocos, isso que você é.
-Se você diz...
-Você está errado.
-Então o que é?
-Isso não importa mais, eu já tinha dito que não queria mais falar nada... vamos voltar a debater economia, e pára de ficar metendo o pentelho onde não é...
-Ok. Vou abrir a janela. Tá, tá. O sol tá alto. Deve ser mais de 10...
-Quase, são 9 e meia.
-Uhum.
-Você viu que os analistas estão esperando pra hoje o resultado da reunião da Federal Reserve?
-Do FED?
-É, claro, dã...
-Sempre me enrolo com essas siglas...
-E olha que era pra você saber, e não eu...
-Sim... eles estão otimistas com a reunião de hoje. E...
-Pare. Continue aí, nessa janela.
-Pra quê? -
-Fique aí. Nessa posição
-...
-Fique ai até o sol se pôr.
-Mas vai demorar mais de... oito horas pra ele se pôr!
-Eu sei.
-...E hoje é dia de semana.
-É, eu sei.
-...
-...
-...Ok. Até o sol se pôr.
-Apenas respire. Se quiser sente-se na beira da janela.. Eu deixo.
-Ok... haha...
-...
-...
-Sim, era isso. Agora já está na hora.
-Não está mais brava nem fria?
-Acho que acertei um fantasma no olho.
-Que bom...
-...
-...
-E acho que não era um farelo apenas, hein... mas um rocombole inteiro...
-Haha...jura?
-Sim...
-...
-Mas só acho... não sei de nada. O sol vai se por, já, né?
-Sim... quer dizer, acho que não.
-Eu adianto o relógio aqui, e ele já se põe. Assim, a noite vai estar apenas começando...
-Você muda da água pro vinho... do nada. E o tempo todo.
-Eu sei.
-E agora você é o quê? Qual dos dois?
-Vinho.



