Thursday, June 19, 2008
Thursday, June 05, 2008
Ainda Pt. 2
obscuro, disfarçado, dessentido
o lado que você não escolheu para ser
o lado que outros poderiam ver
deixa eu ver a sua indecisão
e a sua dúvida quanto ao que mentir dessa vez
o lado que você fingiu realmente ser
o lado que você queria ter
e você irá apontar o caminho com estrelas nuas
e nenhum de nós irá brilhar, de noite ou de dia
o lado que você não escolheu para ser
o lado que outros poderiam ver
e você irá dizer que é medo, é errado, é estúpido
e confuso, destroçado, desmedido
o lado que você fingiu realmente ter
o lado que você queria ser
e ainda assim eu vou querer ver
Sunday, May 11, 2008
Five Little Boats Kept Inside A Margarine Pot
Digo dois, você diz quatro
e então seis, aqui está
O frio está em gotas
O papel em alto mar
Embaço, meu, seu
Nomes, temos assim
Quanto tempo mais?
Dois minutos, ok
Segure aqui, diga xis
Diga bis, diga o que você
Não quer, e então diga
O que você mais quer, e
Então diga se você me quer
Tenho em mãos, as suas mãos
Cinco barcos e dois braços, e você
Some, em tempos assim
Quanto temos mais?
Quanto tempo faz
Que você passou
Que você esteve aqui
Friday, May 02, 2008
pêndulo
precisamos ir pra um lugar muito distante
distante o bastante das coisas que já fizemos
distante em um instante de nós mesmos
longe daqui, e desse riso que guardamos
breve e tênue, como... como aquela lembrança!
vai planando no ar, pendulante à nossa frente
mas tocá-lo, nem eu nem você conseguimos
muito mal sabemos querê-lo aqui presente
vamos para longe daqui, e agora
lugares novos, livres de saudade e horas
e secretos, como o tempo que não temos
escondidos entre pedaços de bolo e selos
escondidos entre pedaços de sonho e vê-los
voar desajeitados - com uma asa a menos
longe daqui, e desse peso que guardamos
escuro e bruto, como... como a insegurança
que caía entre flocos de neve e pesadelo
que tocávamos pra fazer de conta a esperança
mas no final dos versos que acabamos por sê-los
acabamos e acabamos por sê-los
acabamos por sê-los, acabamos por
for
por um distante o bastante das coisas
por distante um o bastante coisas das
baby, longe daqui riso guardamos que
baby, secretos como o não temos se
vamos ser adiantes longe de a aqui
escuros, brutos, novas saudades, parti
distante o bastante das coisas que não fizemos
distante em um instante dos nós mesmos
Monday, April 21, 2008
bleu clair
Quando você me disse para dizer adeus, eu pensei que era algum tipo novo de brincadeira ou peça a ser pregada, então fechei os olhos e disse: adeus, adeus mamãe. Era já a manhã seguinte, e a porta do seu quarto continuava fechada, trancada, e dei batidas leves contra ela, com medo de te acordar com um susto e te deixar mal humorada tão cedo. Sem resposta de volta, passei a bater mais forte, e assim progressivamente, até minhas mãos doerem a um ponto que pensei que iam começar a sangrar sem parar. Cessei as batidas, e meu coração apertou e eu comecei a chorar copiosamente. Na rua uma banda, dessas baratas e meio desafinadas, começou a tocar umas canções, provavelmente contratadas para celebrar sem naturalidade a reinauguração daquela farmácia velha dos Almeida.
Sunday, April 20, 2008
Sobre Caramujos Alpinistas Na Parede Do Banheiro
E diz que ”sempre” é duas vezes
Aquele dia formalmente dividido em 7 partes
Repete “tanto faz, um dia ou 9 meses
Fazem-me prisão e decomponho qualquer arte”
Eu estive além do muro, onde quem mente
Encontra a mais supremadivinacasta rendenção
E, sim, lá estive porque lá o fiz, “’sente?
Eu perco um dedo a mais cada vez que extendo a mão”
Enquanto a hora passa, o vento arrota
Vão dizendo que um dia você se atreve
E morre com 3 facadas diferentes, “sem porta
Aberta, ou certezas e convicções: jamais as teve”
Preste atenção! quando acabar, corra e não desate os nós
E associe esta lógica ao seu mais extremo sentido
Ninguém jamais dirá, e palavras em si não se dizem por si sós
A verdade é inogârnica e só grita ao pé do ouvido:
“Desejas-me quanto mais sabe que jamais me terás
Porém não me amas, pois não existo: o que é jamais será."
Saturday, March 29, 2008
.Eu
Vou aprender a beber água de chuva
Vou aprender a fugir quando precisarem de mim
Vou aprender a olhar pra trás (e cuspir naquilo que eu ver)
Vou aprender a rir de você (e nas horas mais inapropriadas)
Vou aprender a me esconder por trás do que eu deixar de dizer
Vou aprender a correr com desespero rumo a cada coisa que eu odiar
Vou aprender a ser falso e vil, e a usar o próximo em meu proveito, e a saber trair
Vou aprender apertar a vida contra o peito com tanta força que vai ela sufocar, praguejar e morrer
Vou aprender a desconfiar de quem eu amo até chegar a hora que deixarei de amar qualquer coisa que respire
Vou aprender a escorrer a minha saliva e sangue em cima da ferida dos outros (e depois jogá-las na cara dessas pessoas)
Vou aprender a fingir que sei que estou errado quando eu 'realmente estiver' (sem ter idéia de que eu possa estar de verdade)
Eu juro.
Wednesday, March 26, 2008
Sobre maçãs
Sunday, March 16, 2008
11º Dia
Agachei-me mais ou menos na direção dos trilhos para pegar uma meia-meia dúzia de pequenas pedras e jogá-las contra o lago, absurdamente quieto, e enfim testar se o resto do mundo estava inanimado ou se, por acaso, assim ele reagiria de alguma forma, pois já havia horas que eu estava deitado contra os trilhos, inclusive já havia dormido, acordado, tido pesadelos, e algumas dessas coisas aconteciam ao mesmo tempo e eu cantava canções para mim mesmo e tentava fazer o tempo ou coisa que o valesse passar, só que nada acontecia, até o ar parecia estático e, assim, foi quando eu saí dali um pouco, e fui mirar as pedras contra o lago e, parece, que haviam mais montanhas do que eu supunha, e elas eram mais altas do que qualquer montanha que eu jamais tenha visto antes, e a base delas parecia ser constituída de rochas amareladas, e o seu topo era levemente arroxeado, e, no céu, havia alguns trechos onde as cores se misturavam como quando chocolate quente começa a se misturar ao café, e as cores são distinguíveis entre si através de finas linhas distintas, que se entrelaçam em forma de espirais, ondas, etc, e, lembro-me agora, as nuvens eram verdes e púrpuras, e o lago era cinza, cinza escuro, e ela estava caminhando na superfície dele, aproximadamente no meio, e eu andei com calma pela praia em sua direção, mais surpreso por encontrá-la ali do que por vê-la naquelas condições, e deixei a água me tocar até os joelhos, e ela então parou, e, é importante dizer, olhando para baixo, com as mãos cruzadas para trás, na beira de sua coluna, e estava de lado, de acordo com o ângulo em que eu me encontrava, mas era fácil reconhecer seu perfil, com o qual já estava tão familiarizado, e, enfim, eu voltei a fitá-la, e ela estava lá, olhando para algo dentro da água, e, também, acabo de me recordar que mesmo vestindo meias, os pés dela que tocavam a água estavam bem secos, e, aliás, a superfície do lago não esboçava nenhum movimento, mesmo quando eu havia entrado em sua parte rasa, e, eu tentei socá-lo, chutá-lo, e nada era dado como resposta, nenhuma reação, e, nessa hora, notei que nada era refletido na sua superfície, nem eu, nem o céu, só havia o cinza, cinza escuro, e eu gritei com muita força, voltando-me uma vez mais para a direção dela, tentando fazer com que ela voltasse a se mover, como há então há pouco, e cantei o refrão de uma canção que amávamos, e xinguei ela de nomes que sei que ela odiava, mas ela continuava parada, e eu tentei adentrar-me no lago, e caminhar até a direção dela, e a água estava, até então, apenas batendo no meu joelho, quando meu próximo passo pareceu ser em falso, e senti estar sobre um abismo, e eu caí por um tempo que me é impossível tangir agora, e como tudo ao meu redor, e tive a sensação de que a única coisa que não parecia inerte em todo o universo, naquele instante, era o meu corpo a cair, só que eu, finalmente, depois, recobrei um pouco de força que eu devia ter guardado, ou que eu, momentaneamente, esquecera que possuía, e, com umas dez braçadas, atingi a superfície novamente, e saí do alcance do lago com desespero e pressa, e quando eu pude recobrar plenamente os sentidos e respirar novamente, levantei a cabeça e vi que ela ainda estava lá, na mesma posição, a fitar o fundo da água, e foi aqui que eu joguei a única pedra que ainda tinha em mãos em direção a ela, talvez em uma última tentativa desesperada, e eu tinha certeza que tinha mirado na direção correta, porém o projétil fez uma curva estranha no ar, em piruetas assimétricas, pequenos movimentos em forma circular, como se uma força superior me estivesse me impedindo daquele ato, e foi para uma direção totalmente oposta da qual eu tinha o jogado, passando por cima da minha cabeça e voltando à altura dos trilhos, e, então, o céu multicolorido de outrora se tornou negro, e trouxe nuvens, na verdade, talvez fosse uma única nuvem, enorme, colossal, que ocupava ele por completo, ou pelo menos até onde os meus olhos podiam atingir, e uma chuva fina começou a cair, e ela era estranha, pois tinha gosto de mel, e era fria, e ela se tornou intensa, e se tornou em tempestade, e só aí a superfície do lago demonstrou ainda conter vida por meio de intensas borbulhas, e um barulho forte começou a soar por trás de mim, e eu vi que uma locomotiva estava passando, com todas as suas luzes acesas, e um apito estrondoso cortou meus ouvidos, e por uns instantes nem a mim mesmo eu podia ouvir, e mais alguns segundos depois, quando a locomotiva parou, pouco a frente de onde eu estava no início, e eu voltei a olhar para o lago, e vi que ela não estava mais lá, e eu corri, sem pensar, para ver o que havia ocorrido, onde ela estava, e percebi que dessa vez eu podia andar sobre a superfície da água, como ela estava fazendo, e notei, ao chegar mais ou menos no ponto onde ela estava antes, que somente aquela parte da água podia refletir algo, e foi aí que, depois de um longo período de tempo, eu pude ver a minha face novamente, e quando isso aconteceu, eu parei, e me olhei-me, e me olhei, como jamais havia feito antes, como se o meu rosto tivesse mudado radicalmente desde a última vez que eu o vira, ainda que racionalmente eu sabia que pouco havia mudado, e, então, tive a sensação de que a locomotiva tinha voltado a pitar, ameaçando ir embora, e de que meteoros começavam a cair por todo o lugar, destruindo superficialmente o solo e fazendo a terra tremer, e de que um enxame de milhões de abelhas tinha surgido não sei de onde, já que não havia florestas lá, e de que o céu tinha se tornado um vermelho só, e de que o lugar começara a ficar terrivelmente quente, e também estava sentindo que tudo parecia estar de alguma forma acabando, e eu acho que ouvi gritos distantes, e outros sons que não sabia distinguir, mas eu não conseguia mais me mexer, eu estava parado, e parado eu só conseguia olhar para o meu próprio rosto, e não porque era belo, e não porque me trazia paz, mas porque... porque eu não sei.
Saturday, February 23, 2008
Friday, January 18, 2008
otherwise
and now we're back here one more time
and now we'll fly away from our nests
very fast, very fast, very fast, every burning cradle
we'll spit us back
and
you...
you...
will hold me very tight
very tight
tighter than the last time
and now you know why
why I took all the hell back
cause it's so much easier
to repeat our last steps
you...
you...
will stab me very deep
very deep
deeper than the last time
c'mom, take my hand
pretend and take my hand
Monday, January 14, 2008
A Despeito
você sabe querer
sabe infiltrar
no que se vê
e no que não tenho mais
e me diz assim, tão simples
é hora de partir
me diz o que passou
o que eu perdi
enquanto dormia
lá atrás
as horas eram tanto sono
serei eu o que eu fizer do que sobrar de mim?
Saturday, January 05, 2008
atmosférica
define
constata
reflete
pondera
esmiuça
contesta
recrimina
declara
dispara
relata
comenta
diz
pontua
opina
disfarça
revela
confessa
gagueja
sussurra
resmunga
grita
choraminga
esbraveja
implora
sua
escorre,
o etílico rapaz da contramão acerca de si mesmo .
Wednesday, December 26, 2007
Cof
daqui de cima é difícil de ver algo
mas claro que há!
eu mesmo vi umas balanceando rimas sobre despeito e ódio
sentadas na calçada que dava de frente pra padaria que abriram semana passada
e isso foi ontem
Pare de levantar essa sobrancelha
você dá descrédito a tudo que digo!
veja, eu vi o soneto, isso, o mesmo de quem te falei outro dia
comprando café, cuspindo, e depois derramando dois litros de vodka garganta a dentro
e entrando em coma alcoólico e sendo levado de maca àquela clínica
acho que nunca mais saiu de lá, mas a questão é exatamente o fato dele estar vivo
e completamente no controle do que chama de vida
O quê?
que vida? como assim que vida, a vida, você sabe...
a vida, que fazemos e vivemos, e o tempo
que algemamos bem no pescoço e cuspimos à cara
Dedique seu papo de que só fazemos o que fazem de nós à outra pessoa, cara
Ninguém está enganando ninguém! é poesia! a vida é isso!
vivo loucamente, e o desejo e o prazer que carrego
são minhas únicas bandeiras
e...
O que é isso molhado em meu rosto?
Monday, December 10, 2007
Ode a Saudade
sou aquilo que sobrou de você dentro de mim
e sinto falta do que está aqui
do que desabafa traçando a mão
contraaboca
des, abafa, des, aprende
des, constrói em pingos
muitos, muitos pingos
monumentos inteiros de gelo
q'eu mesmo derreto ao tocar
e
ao
nem
parar
de
secar
cansado, remenda dois cacos e meio
eu derrubei sem querer
desculpe
prometo que isso jamais se re, re
remendando dois cacos ao meio
assim que se faz a saudade
ou costumava fazer
seja como for, queria aprender a sentir falta
do que se foi
do que está distante
distantedemaisassim
mas se não se foi, e se está aqui
bem aqui
aqui, assim, ó
e, se pelos pesares plenos e definidos, continuo
definitivamente devo dizer
que não sei o que querer
mais
só sou aquilo que sobrou de você dentro de mim."
Friday, November 30, 2007
Wednesday, November 28, 2007
4e2
Dois soluços em um arpejo
Lábio no veneno dedo em foice
Arrepio e convulsão ao tato
Apetece sacia quando hora propícia
Que sejam 15 minutos
Suor duo funde queima
Cospe fumaça em carbono
Bufa arqueja sopra
Guturalmente esgüela
Elaelaelaelaelaela
filho amo puta
te caralho de
O peito pingando
Que sejam 6 minutos e um terço
Vai breu e vem luz
Deixa o cansaço em dia
Pra esquecer que dia
...
Cicatriza selando rompendo
Orloff Lambrusco Heineken
Enxarca pele quase toca
Que sejam 15 segundos e meio
Faz madrugada assim
Quatroquatroquatro números divinos
E dois
Finge se vestir
Cai pela janela
Entra pela portinhola
Se escondem de lençol
Inundam seus corpos de maremotos
E suas almas de silêncio
.
Saturday, November 17, 2007
Azul lá longe
"Realmente me importa saber o que tanto você rabisca aí, nesse canto, esfolando esse papel azul machê,” disparou R., tentando mostrar segurança e incisão em suas palavras. Havia dito em vão, contudo, afinal T. mostrava total desatenção acerca de qualquer coisa que não fosse o citado papel azul. Machê. E arranhava um traço, dois traços, dando a impressão de ser apenas ela um gato revoltado tentando se defender de alguma ameaça. A ameaça, no caso, o papel, que faça-se a verdade, era rabiscado forçada e impetuosamente, a ponto de ser quase atravessado pela ponta de seja-lá-o-quê estava sendo usado para pungir-lhe à tinta.
Pingos azuis e verdes manchavam a mesa quando por instantes T. levantava a folha de papel para observá-la contra luz. De tão rápida e praticamente instintiva forma o movimento se fazia, que visualizar com exatidão do que se tratavam os traços se tornava tarefa impossível. Porém, à uma hora da manhã, cansaço começava a imprimir suas cores na face de T. Faria em pouco tempo cerca de 8 horas que começara o misterioso “ritual”, como R. mesmo afirmava em voz alta. Na verdade... Dentro da sua cabeça. E franzindo a testa ao tentar passar gravidade nesse gesto, esquecendo-se de que nada havia dito em voz alta, e que ela não virava a cabeça para outra posição do cômodo da sala à não ser a direção do papel, no meio da mesa, até então. O seu estado parecia um constante transe que se movia vagarosamente assim como fazem nuvens em formas de elefante ou cegonhas, riscando o céu afora.
R. chegara do trabalho no horário de sempre neste dia. T. parecia ter chegado do seu serviço mais cedo do que de costume, visto que no determinado horário da chegada dele, ela estaria ainda trabalhando. Talvez sequer tivesse saído de casa, reconsideraria ele posteriormente. Quando chegou encontrou-a fitando o papel com a mesma intensidade de agora. Somente pôde supor que começara o ato naquele instante, ou dentro de poucos minutos anteriores a este, após notar dentro de um certo tempo que a pilha de papel amassado jogado sob a mesa, em um canto afastado contra a parede, crescia com certa regularidade e constância, e que quando chegara, apenas havia dois pedaços rasgados em simetria quase perfeita, provavelmente o primeiro rascunho rabiscado e abandonado.
A impressão que a situação marcara em R., e esta seria um outro ponto das coisas que ele depois refletiria, mais frio e impassível, passava a idéia de uma T. correndo contra o tempo, à passos largos, contudo, com saltos de joaninhas. Havia pressa fugaz e desespero em cada traço, sim, mas havia calma evidente onde deveria haver insatisfação e inquietude quando um esboço se mostrava aquém das expectativas, e que era amassado, rasgado e jogado à pilha, junto dos outros pedaços passados. Os traços, curiosamente, difusos e aparentemente aleatórios a princípio, representavam certa ordem lógica após os recomeços dados a cada novo pedaço de papel azul machê pego na pilha, envolta em um embalagem de azul mais escuro, postado ao lado dela. E havia outra questão intrigante na situação, deixando R. realmente apreensivo: a face de T. Ela parecia constantemente virada pra dentro, de uma forma que em momentos passados de sua vida ele jamais poderia imaginar ou visualizar através de quaisquer descrições. Somente ali, ao vivo, isso faria sentido. Que os gestos encenados involuntariamente pela boca, pálpebras, narina e, bem mais discretamente, orelhas, pareciam acenar para um eu lírico invisível, que ele apenas conseguia, ou se atrevia imaginar, ser um espelho abstrato. O espelho abstrato das palavras. Ou das palavras que estão no embrião de formação na mente, que nem chegam a ser palavras de fato, que tem seus sentidos ainda intangíveis pela razão, cheias de figuras oníricas ininteligíveis a compreensão dos demais. Ela parecia observar cautelosamente os traços e os gestos do seu rosto, e isso descrever. Descrever através daquilo que ela rabiscava no papel. Fosse o que fosse. Caía como chocolate quente sob ambos a escuridão da noite.
Além, T. parecia evitar, ignorar suas necessidades físicas. Durante o tempo transcorrido, R. observou que ela ainda não se levantara para ir ao toalete ou para se dirigir a cozinha pegar algo para comer. Assim, ele tomou a iniciativa de extender um prato cheio de frutas cortadas próximo a ela -e foi isso o mais perto que ele chegou dela até aquele instante-. Esperou reações físicas à fatores diferentes ao conteúdo de sua tarefa, sentou-se em um sofá o canto extremo oposto da sala, e voltou a observá-la atentamente. Após um período de horas, notando que pequenos insetos já demonstravam maior interesse em fazer moradia por entre as maçãs e as pêras do que ela em comê-las, retirou o prato, evitando chegar mais perto do que antes, esticando o braço o máximo que podia. Já não tinha esperanças de ouvir sinais de protestos, e assim foi. O silêncio deslizava como a tardinha depois do almoço. Às 3 da manhã, R. apenas continuava a observá-la em sua distância calmamente porque o dia seguinte seria feriado, sem haver risco para qualquer um dos dois de perder horas de sono ou se atrasar para o emprego.
Novamente, R. roía os dentes uns contra os outros quando disse, e dessa vez efetivamente, em voz alta: “Também gostaria de saber até quando você ficará aí. Até quando ficaremos assim?”. Foi a segunda vez que se comunicara verbalmente com ela dentro de um período de 12 horas. E sequer atrevia-se a se levantar, sair do lugar, fazer algo, ou pronunciar outra palavra além daquelas. Parecia que o esforço extremo e derradeiro do seu corpo havia sido dado, e que agora já força alguma restava dentro dele. O último suspiro. Sem açúcar. Em momento nenhum, também, se atreveu a tentar olhar por cima dos ombros dela, ou aproximar-se discretamente por suas costas, evitando fazer barulho, para saciar a dúvida que apetecia-lhe o peito. O que tanto ela rabiscava no papel. O que tanto...
A questão? Ele sabia. A resposta. Chamava de dúvida o que na verdade tinha fobia de formar em sua mente. É. Isso aí. A certeza.


