eu sou filho das coisas que odeio
eu me digo pelo adeus que lhe nego
refaço na estrela, manhã que rodeio
à órbita remota, mundo, desapego
incircunstancialmente carreguei a saudade em meus braços até o rio baldio mais próximo e lá fizemos nossos filhos com pressa e temor doído de que chovesse, de que nos vissem, de que nos abraçassem e beijassem, de que estivesse escuro em breve, de que o céu aberto se tornasse derepente os elevadores e os azulejos das segundas e quinta-feiras, e com o amor inteiro que nos restava aprendemos a nos jogar com paixão e dúvida nos esgotos e valas da vida pelas quais pássavamos frequentemente desde então e sempre, e deixamos a terra mijada por ratos e cadaverizada por baratas e latas de refrigerante entrar em nossos tênis, e nos arrependemos de nós mesmos afinal.
na tv, na internet, nas poucas rádios que restaram, nas ruas e becos e assaltos, nas boates e botecos, no jardim e colegio, na universidade, nossos estranhos, coadjuvantes, figurantes, pais, amigos, colegas, apresentadores, professores, advogados, personal-trainers, astrólogos, cientistas, psicólogos, filósofos, comentaristas esportivos, narradores, cineastas, cantores, romancistas, poetas, críticos de arte e culinária, nos ensinaram apenas uma palavra, e com ela dizemos, e suas letras desmembramos, recombinamos, resignificamos, negamos o que estava escrito antes de nós, negamos o que fora escrito antes por nós, vezes o bastante até sangrar os ossos da mão suja que buscara em desespero um sentido destro, sem tempo, nem sempre foi possível ser e estar, o tempo esgota e descobrimos só enfim que a tal única palavra era a palavra errada (pra nós).
noite a fora nos bolsos, meus amigos n'umbigo
meu amor na beira da boca, meu prazer na palma da mão
agora esqueço as verdades que me têm lido
e cedo e tarde em mim entram em comunhão
não.
Saturday, March 14, 2009
no dia que eu disser o que sou
deixarei no mesmo exato instante de sê-lo
(ainda que o que eu diga não seja de fato nada:
nem eu, nem ela, nem ninguém)
aliás, desconfio que já me disseram isso
-
veja bem,
escrever é absoluta e concretamente diferente de querer escrever
verbos diferentes, semânticas diferentes, planetas diferentes
quem quer dizer acha que diz, enquanto quem diz nem está consciente daquilo
-
e que fique claro que estou bem longe de querer ditar
o verdadeiro e o falso
(como se o mundo fosse tão limitado quanto um bolo de morango - divisível pela metade)
sobre qualquer merda que eu possa proferir aqui
eu não quero nada
[dá série "eu gosto do óbvio". 'parte 02']
deixarei no mesmo exato instante de sê-lo
(ainda que o que eu diga não seja de fato nada:
nem eu, nem ela, nem ninguém)
aliás, desconfio que já me disseram isso
-
veja bem,
escrever é absoluta e concretamente diferente de querer escrever
verbos diferentes, semânticas diferentes, planetas diferentes
quem quer dizer acha que diz, enquanto quem diz nem está consciente daquilo
-
e que fique claro que estou bem longe de querer ditar
o verdadeiro e o falso
(como se o mundo fosse tão limitado quanto um bolo de morango - divisível pela metade)
sobre qualquer merda que eu possa proferir aqui
eu não quero nada
[dá série "eu gosto do óbvio". 'parte 02']
Tuesday, February 17, 2009
here's to you
estamos sós na mesma fotografia
você encena uma despedida e eu penso em dizer oi
mas estamos sem tempo para sentimentalismos
ou de fazer o que nos der vontade
enquanto chove você fica perto d'aqui
e a marquise se encolhe de alfinetes
vamos nos abraçar mas esquecemos
nossos braços em casa
e o que sobra é o que dizemos
e dizemos nada
estamos a sós na mesma memória
temos tempo o bastante para estragar as coisas
ainda, você pensa, e pensa duas vezes
enquanto eu penso dezesseis, até finalmente
não termos mais paciência para frescuras d' carne e d'alma
uma vez me disseram que as coisas são mais fáceis
para o lado que quer dizer adeus
mas esqueceram de me avisar que elas são desumanas
quando ambos tem que dizê-lo
sem ninguem ter vontade de querê-lo.
você encena uma despedida e eu penso em dizer oi
mas estamos sem tempo para sentimentalismos
ou de fazer o que nos der vontade
enquanto chove você fica perto d'aqui
e a marquise se encolhe de alfinetes
vamos nos abraçar mas esquecemos
nossos braços em casa
e o que sobra é o que dizemos
e dizemos nada
estamos a sós na mesma memória
temos tempo o bastante para estragar as coisas
ainda, você pensa, e pensa duas vezes
enquanto eu penso dezesseis, até finalmente
não termos mais paciência para frescuras d' carne e d'alma
uma vez me disseram que as coisas são mais fáceis
para o lado que quer dizer adeus
mas esqueceram de me avisar que elas são desumanas
quando ambos tem que dizê-lo
sem ninguem ter vontade de querê-lo.
e surpresa
.
*respira*
o tempo que torramos é o suficiente
a saudade que colhemos nos basta
só que há de desmedido aqui
é essa mania de (querer) dar certo
e a fobia do (que é) contrário
[dá série "eu gosto do óbvio". 'parte 09']
*respira*
o tempo que torramos é o suficiente
a saudade que colhemos nos basta
só que há de desmedido aqui
é essa mania de (querer) dar certo
e a fobia do (que é) contrário
[dá série "eu gosto do óbvio". 'parte 09']
cansado de
se
ferir, resolveu
tornar
pro lado que
fere
(fazendo de conta que as duas coisas são tão diferentes assim)
para
pôr fim
na cantoria, decide
se tornar a audiência
calada
... (um lado finge que diz, outro finge que ouve;
mas no fundo estão fazendo isso mesmo)
[dá serie "eu gosto do óbvio, eu acho" - parte '03']
se
ferir, resolveu
tornar
pro lado que
fere
(fazendo de conta que as duas coisas são tão diferentes assim)
para
pôr fim
na cantoria, decide
se tornar a audiência
calada
... (um lado finge que diz, outro finge que ouve;
mas no fundo estão fazendo isso mesmo)
[dá serie "eu gosto do óbvio, eu acho" - parte '03']
Saturday, February 14, 2009
up there
agora há pouco houve um tempo:
pessoas que se amavam se procuravam versos para dar-lhes umas às outras
Sofia saía de manhã pra colher gotas de chuva, exclamações e comprar pães
A parte boa do dia, sempre, ela dizia por debaixo de um meio sorriso
A tarde e a noite e a madrugada era o corpo inteiro dela que chamava
O universo que se reduzia à atómo para acarinhá-la e tê-la consigo
E os dois se guardavam, para si, para ti, para que o resto do mundo tivesse ainda sentido
A cada manhã que levantassem para continuar vivendo o tempo que lhes restavam
Então que Sofia saía de manhã, colher gotas de sereno e lágrimas, porque era muito bom
e triste que a vida estivesse tão cheia nela, antes que cheia de si, cheia no céu que caía na chuva, na gravidade, no meteorito, na nuvem e na névoa, na luz de sol e radiação lunar
Triste porque... porque sei lá, tem sentimentos que são tão grandes e sem nome que o melhor é dizer que são o que não são, fiapos de velha fantasia vazando sob a cama em pedaços de carne de um velho monstro já extinto
A vida que estava com tempo o bastante para ter tempo de sobra e gastar sua vaidade pura, desespero quieto, poesia eunuca, e ansiosa de despejar seu desejo cego e sincero sobre o(s) que amava.
E então Sofia saía de manhã sem pensar quantas manhãs seriam daqui pra frente, ou daqui pra trás, ou daqui pra cima... Sofia saía e queria muito que o resto do mundo saísse também.
pessoas que se amavam se procuravam versos para dar-lhes umas às outras
Sofia saía de manhã pra colher gotas de chuva, exclamações e comprar pães
A parte boa do dia, sempre, ela dizia por debaixo de um meio sorriso
A tarde e a noite e a madrugada era o corpo inteiro dela que chamava
O universo que se reduzia à atómo para acarinhá-la e tê-la consigo
E os dois se guardavam, para si, para ti, para que o resto do mundo tivesse ainda sentido
A cada manhã que levantassem para continuar vivendo o tempo que lhes restavam
Então que Sofia saía de manhã, colher gotas de sereno e lágrimas, porque era muito bom
e triste que a vida estivesse tão cheia nela, antes que cheia de si, cheia no céu que caía na chuva, na gravidade, no meteorito, na nuvem e na névoa, na luz de sol e radiação lunar
Triste porque... porque sei lá, tem sentimentos que são tão grandes e sem nome que o melhor é dizer que são o que não são, fiapos de velha fantasia vazando sob a cama em pedaços de carne de um velho monstro já extinto
A vida que estava com tempo o bastante para ter tempo de sobra e gastar sua vaidade pura, desespero quieto, poesia eunuca, e ansiosa de despejar seu desejo cego e sincero sobre o(s) que amava.
E então Sofia saía de manhã sem pensar quantas manhãs seriam daqui pra frente, ou daqui pra trás, ou daqui pra cima... Sofia saía e queria muito que o resto do mundo saísse também.
Sunday, February 08, 2009
quiçá
e para quem chora para se lembrar que não é mais preciso sofrer
eu leio uma história de dentro de uma garrafa vodka
dum papiro que eu mesmo rascunhei em uma vida retrasada
que me insinuava que viver é a melhor solução para a vida
mas disso tenho tantas dúvidas ainda... tanta-tanta que é mais seguro me perder
e tenho vindo por esse caminho torto cheio de atalhos que me mais me atrasam
matando sede com água de pombo, e abraçando estátuas de pedra mijadas e pixadas
de praças que eu sei que ninguém visita em finais de semana
pelo o que sei o teto lá de casa era azul até outro dia
e o céu que era feito de lajes acimentadas e de amontoados de água de chuva
mentira, mal tenho tempo de amar e transar, quanto mais de ter comigo as coisas que eu quero
e que eu quero, eu quero é beber pra esquecer, só que só consigo lembrar e contrapôr
substantivos opostos, antônimos, e dizer que isso e aquilo é poesia
e dizer com conjuções conectivas que o mundo é o que eu digo e o que eu vejo
quando que mais sou uma barata, uma baratinha vagabunda viciada em Raid
tentando entender de uma vez por todas porque as estrelas ficam bilhões de anos
queimando e fundindo em seus núcleos hélio e hidrogênio
(e o que eu quero? eu só quero amar, porra
quantas vezes vou ter que repetir?)
Saturday, January 31, 2009
q
se inexistisse a identidade?
se a necessidade do isso e aquilo fosse desespero clínico psiquiátrico tratável
ou doença erradicada
se o meu e teu fosse nem nosso nem del
fosse infinito qu'eu quero
fosse deslocado onde estou
incógnita insolúvel a certeza e beijo à três o descaso que faço de ti agora
por sermos diferentes
que restos de eternidades seriam essa noite e as quarta-feiras-não-sextas
que incontáveis, inrotuláveis canções cantaria em sacadas, quartos, terreiros
que sonhos pariria sob quantas árvores, colégios e celeiros
que misturas heterogêneas amaria num mesmo abraço
onde guardaria meu medo de amar
se amasse tudo
quê seria eu, se amasse tudo.
quem seria eu se amasse o que
se a necessidade do isso e aquilo fosse desespero clínico psiquiátrico tratável
ou doença erradicada
se o meu e teu fosse nem nosso nem del
fosse infinito qu'eu quero
fosse deslocado onde estou
incógnita insolúvel a certeza e beijo à três o descaso que faço de ti agora
por sermos diferentes
que restos de eternidades seriam essa noite e as quarta-feiras-não-sextas
que incontáveis, inrotuláveis canções cantaria em sacadas, quartos, terreiros
que sonhos pariria sob quantas árvores, colégios e celeiros
que misturas heterogêneas amaria num mesmo abraço
onde guardaria meu medo de amar
se amasse tudo
quê seria eu, se amasse tudo.
quem seria eu se amasse o que
Monday, January 26, 2009
10 e meia
e hoje em dia o que que é que te abriga
se está prestes a chover ácido e coca-cola do céu
você corre prum teto e abraça seus lençóis pingados de suor
ou extende as mãos pros céus e diz "sou bem maior do que pensas, viu?"?
(páre de rir pois agora sei onde está se escondendo)
fique longe de mim
dê uma sapatada no abajur
e esteja perto outra vez de vez
hoje em dia o que te abriga é a dúvida?
vou te dizer que acho que ainda preciso entender o que sinto por você, tá?
mas fique calma, terei menos certeza se às 11 e meia da manhã vai estar claro
do que disso
então, hoje em dia o que te abriga é o que enlaçamos agora?
espero que isso seja um bom sinal
.é
se está prestes a chover ácido e coca-cola do céu
você corre prum teto e abraça seus lençóis pingados de suor
ou extende as mãos pros céus e diz "sou bem maior do que pensas, viu?"?
(páre de rir pois agora sei onde está se escondendo)
fique longe de mim
dê uma sapatada no abajur
e esteja perto outra vez de vez
hoje em dia o que te abriga é a dúvida?
vou te dizer que acho que ainda preciso entender o que sinto por você, tá?
mas fique calma, terei menos certeza se às 11 e meia da manhã vai estar claro
do que disso
então, hoje em dia o que te abriga é o que enlaçamos agora?
espero que isso seja um bom sinal
.é
Wednesday, January 14, 2009
Estava pensando hoje de manhã... pr'onde aqueles pássaros vão? E as baratas que entram pelo ralo do banheiro, onde elas dormem e escovam os dentes? Tem tanta coisa sem importância que me encho a mala às vezes, e tem tanta coisa que eu... na verdade devo me infernizar com quase tudo. Aquele pássaro verde e amarelo (estilo Copa de 70) de outro dia por exemplo. Pousou por uns segundos no varal de casa, o vi pela janela enquanto eu bebia água na pia da cozinha. Ele o tempo inteiro tentava alçar vôo para algum lugar y que ele havia esquecido qual seria, porque parecia que ele simplesmente desconhecia onde estava. Tentava, se perdia bem no meio do impulso e acabava por voltar no ponto inicial. Fazia isso repetidamente, parecia um Ioiô, aliás, ainda existem Ioiôs? As crianças devem brincar de outras coisas hoje em dia, tipo desespero e terrorismo. Mas voltando ao pássaro, acho que fiquei cerca de 20 minutos vendo até onde a sua sorte o levaria. Cheguei a pegar um banco pra sentar e observá-lo com mais conforto. Só que o telefone tocou, e eu fui atender, e, claro, desviei minha atenção para outras coisas. Só lembrei novamente de sua existência horas e horas depois, ao me deparar com a cadeira vazia no meio da cozinha, em mais uma das minhas incursões em busca de H20. Olhei novamente para o varal sem roupas, e não havia nenhum passarinho ali. Me pergunto agora se ele caiu duro e morto de tanto tentar chegar aonde queria, estando agora em processo de decomposição, ou se conseguiu. Conseguiu? Nunca sei quem conseguiu nada. As pessoas conseguem coisas também? Sempre penso em corpos putrefados, em primeiro lugar. (Depois vou dar uma olhada no quintal do vizinho e ver se acho algum cadáver.)
As baratas me intrigam. Em dias frios você quase esquece a existência delas. Pensa em caramujos pendurados na veneziana de suas janelas (e em porque diabos eles escolhem lugares tão peculiares para tirar uma naninha), pensa em assistir novela das oito (ou nove?) pra ter assunto com a trocadora de ônibus, pensa cortar as unhas, porque elas já estão engaixando entre as teclas do teclado do seu computador, pensa em continuar a escrever aquele livro sobre monges australianos e pedófilos, pensa em sair na rua e ser atropelado, enfim... Menos nelas. E elas surgem em dias de calor tão naturalmente quanto a gravidade jogará minha barriga pra baixo daqui uns anos. Da última vez eu vi, inclusive, a tampa do ralo se mover, e se fechar para trás, enquanto um desses indivíduos passava à velocidade da luz (na verdade li uma vez, usando minhas horas vagas para ler sobre baratas na enciclopédia, que se elas tivessem o tamanho de um homem correriam 150 km por hora. Weird.) Tentei contornar o problema com um tijolo, e só deus sabe como, elas passam por debaixo dele, se materializando aos poucos do lado de fora. Conclui que as baratas são paranormais, alheias à qualquer coerção social, tem poderes psiquícos, se teletransportam, voam como jatos supersônicos, emitem raios ópticos destrutivos de calor, e nunca vão desaparecer. Tá, em parte eu devo sentir um pouco de inveja.
Meu quintal tem uns esquilos também, que volta e meia entram pela famigerada janela da cozinha. De lá pegam alguma coisa do fruteiro, geralmente frutas (dã), claro, sem deixar derrubá-lo e espalhar as coisas chão a fora. Uma vez um deles veio e dormiu na minha estante de livros, e certo dia, à procura de um livro do Dostoievski, eu vi... Tá, é sacanagem, não há esquilos na droga do meu quintal, e tãopouco eles entram na minha casa, conseqüentemente (com trema mesmo). Mas eu queria de fato que isso acontecesse. Porque sei lá. Eles são rápidos, e comem nozes, e eu adoro nozes... tá, não me olha com essa cara, não tenho deficiência mental, é sério! Acho eles especiais. A beleza involuntária, a vida natural em florestas temperadas, hiperatividade compulsiva, moradia em buracos de casas de árvore, escalar dezenas de metros todos os dias, e, dependendo da espécie, a incrível capacidade de voar (pelo menos reza a lenda)! Na próxima vida eu arranjo um requerimento e nasço esquilo.
Quando acordo tenho certeza do quero e de onde estou. E os gafanhotos que vi outro dia na televisão, sendo esmagados contra a hélice do avião, daqueles E-16 ou alguma sigla do gênero, tipo antigo, adoram me vir à mente com seus três pares de pata e asas. Uma manhã de sábado, você sai de casa em busca de alimento para si e sua família quando uma máquina de metal gigante atrevessa teu caminho te trudidando em incontáveis pedaços. Bem em dias assim que eu não me sinto melhor que inferno algum nesse mundo.
Será que há fila de espera para o requerimento de esquilos?
As baratas me intrigam. Em dias frios você quase esquece a existência delas. Pensa em caramujos pendurados na veneziana de suas janelas (e em porque diabos eles escolhem lugares tão peculiares para tirar uma naninha), pensa em assistir novela das oito (ou nove?) pra ter assunto com a trocadora de ônibus, pensa cortar as unhas, porque elas já estão engaixando entre as teclas do teclado do seu computador, pensa em continuar a escrever aquele livro sobre monges australianos e pedófilos, pensa em sair na rua e ser atropelado, enfim... Menos nelas. E elas surgem em dias de calor tão naturalmente quanto a gravidade jogará minha barriga pra baixo daqui uns anos. Da última vez eu vi, inclusive, a tampa do ralo se mover, e se fechar para trás, enquanto um desses indivíduos passava à velocidade da luz (na verdade li uma vez, usando minhas horas vagas para ler sobre baratas na enciclopédia, que se elas tivessem o tamanho de um homem correriam 150 km por hora. Weird.) Tentei contornar o problema com um tijolo, e só deus sabe como, elas passam por debaixo dele, se materializando aos poucos do lado de fora. Conclui que as baratas são paranormais, alheias à qualquer coerção social, tem poderes psiquícos, se teletransportam, voam como jatos supersônicos, emitem raios ópticos destrutivos de calor, e nunca vão desaparecer. Tá, em parte eu devo sentir um pouco de inveja.
Meu quintal tem uns esquilos também, que volta e meia entram pela famigerada janela da cozinha. De lá pegam alguma coisa do fruteiro, geralmente frutas (dã), claro, sem deixar derrubá-lo e espalhar as coisas chão a fora. Uma vez um deles veio e dormiu na minha estante de livros, e certo dia, à procura de um livro do Dostoievski, eu vi... Tá, é sacanagem, não há esquilos na droga do meu quintal, e tãopouco eles entram na minha casa, conseqüentemente (com trema mesmo). Mas eu queria de fato que isso acontecesse. Porque sei lá. Eles são rápidos, e comem nozes, e eu adoro nozes... tá, não me olha com essa cara, não tenho deficiência mental, é sério! Acho eles especiais. A beleza involuntária, a vida natural em florestas temperadas, hiperatividade compulsiva, moradia em buracos de casas de árvore, escalar dezenas de metros todos os dias, e, dependendo da espécie, a incrível capacidade de voar (pelo menos reza a lenda)! Na próxima vida eu arranjo um requerimento e nasço esquilo.
Quando acordo tenho certeza do quero e de onde estou. E os gafanhotos que vi outro dia na televisão, sendo esmagados contra a hélice do avião, daqueles E-16 ou alguma sigla do gênero, tipo antigo, adoram me vir à mente com seus três pares de pata e asas. Uma manhã de sábado, você sai de casa em busca de alimento para si e sua família quando uma máquina de metal gigante atrevessa teu caminho te trudidando em incontáveis pedaços. Bem em dias assim que eu não me sinto melhor que inferno algum nesse mundo.
Será que há fila de espera para o requerimento de esquilos?
Thursday, January 08, 2009
como dizia, eu
vou te abraçar até desconhecer quem é quem
vou gritar até meu grito soar como meu
vou esquecer até minhas memórias serem as de outros
vou cantar até minha voz ter vida própria, ter pernas e correr
vou pular até a gravidade desistir de mim
vou anoitecer até as estrelas serem quem eu quero
e vou ensejar até serem estas cadentes e pegá-las com o peito
vou suar até ver oceano
e vou lagrimar até me crer oceano
então, uma vez lágrima, serei uns vários lampejos de esperança atmosfera à fora
e vou voar até despertar ou adormecer de vez
Monday, January 05, 2009
Thursday, January 01, 2009
Wednesday, December 31, 2008
.
demo tape 06
mas estar ciente disso deve ser um bom começo
eu acho
espero
Thursday, December 25, 2008
Monday, December 22, 2008
assim
demo tape 04
hora de partir
está em casa ainda
despedida sem tanta saudade
acumulando-se em tufos de poeira pelas vielas sem varrer.
meu lado que grita desaprende de ver do céu as coisas que ele precisa ver para estar aqui
rezaedesesperaaindaassimcontudo, para as estrelas que... não faz idéia se tem nome
ele diz com tanta certeza que não quer mais que me convence por um segundo negativo
daí lembro que isso não existe
hoje cedo chutei as paredes do quarto até aranhas caranguejeiras caírem do teto e
e foi então que eu descobri que eu não sabia mais o que dizer, e, naquele ponto. eu resolvi parar de sentir saudade daquilo, para sentir saudade disso.
hora de partir
está em casa ainda
despedida sem tanta saudade
acumulando-se em tufos de poeira pelas vielas sem varrer.
meu lado que grita desaprende de ver do céu as coisas que ele precisa ver para estar aqui
rezaedesesperaaindaassimcontudo, para as estrelas que... não faz idéia se tem nome
ele diz com tanta certeza que não quer mais que me convence por um segundo negativo
daí lembro que isso não existe
hoje cedo chutei as paredes do quarto até aranhas caranguejeiras caírem do teto e
e foi então que eu descobri que eu não sabia mais o que dizer, e, naquele ponto. eu resolvi parar de sentir saudade daquilo, para sentir saudade disso.
Saturday, December 20, 2008
quase randômico
demo tape 03
a minha alma está em partes
partes diferentes que guardo conforme quero errar
partes iguais tingidas, e que eu quero dividir
eu queria mesmo era que a minha alma
estivesse em toda parte
que eu queria estar
mas até lá, eu vou estar separado e separando
me e os dias que quiser gritar
digo, esquecer o que eu vier a gritar
(as frases que guardo estão em parte de mim também
as que ouvi dizer e as que fí-lo eu mesmo
essas sim estão espalhadas pelo ar
que as vezes ainda tento respirar
essas sim estão por toda parte
no abraço que faço você dar por mim
saudade que digo que os outros sentem
ah, tão pouca verdade eu tenho carregado
e digo que estou bem, que estou bem
mesmo que esteja, querendo dizer
com diferentes letras e idéias
que o mundo inteiro eu queria ter
querer que o mundo inteiro tivesse um pouco mais
de gente do que eu, você, ela, ele
porque quem sabe assim...
quem sabe assim):
fechei a hora e a parte errada, como sempre
a minha alma está em partes
partes diferentes que guardo conforme quero errar
partes iguais tingidas, e que eu quero dividir
eu queria mesmo era que a minha alma
estivesse em toda parte
que eu queria estar
mas até lá, eu vou estar separado e separando
me e os dias que quiser gritar
digo, esquecer o que eu vier a gritar
(as frases que guardo estão em parte de mim também
as que ouvi dizer e as que fí-lo eu mesmo
essas sim estão espalhadas pelo ar
que as vezes ainda tento respirar
essas sim estão por toda parte
no abraço que faço você dar por mim
saudade que digo que os outros sentem
ah, tão pouca verdade eu tenho carregado
e digo que estou bem, que estou bem
mesmo que esteja, querendo dizer
com diferentes letras e idéias
que o mundo inteiro eu queria ter
querer que o mundo inteiro tivesse um pouco mais
de gente do que eu, você, ela, ele
porque quem sabe assim...
quem sabe assim):
fechei a hora e a parte errada, como sempre
Monday, December 15, 2008
cansei
demo tape 02
sua voz só faz sentido
se está frio e tarde e ruim
ma'disfarça e vamos dobrando esquinas
e bilhetes, e vamos colhendo
o que temos:
o que quis ontem
o pedaço era outro
o que eu mesmo está lá
aqui nunca
e eu sei que digo e disfarço mas
faça o contrário ou o que quiser
faça nada, é segredo agora
está frio e tarde e ruim
e a última coisa que quero é fazer sentido
sua voz só faz sentido
se está frio e tarde e ruim
ma'disfarça e vamos dobrando esquinas
e bilhetes, e vamos colhendo
o que temos:
o que quis ontem
o pedaço era outro
o que eu mesmo está lá
aqui nunca
e eu sei que digo e disfarço mas
faça o contrário ou o que quiser
faça nada, é segredo agora
está frio e tarde e ruim
e a última coisa que quero é fazer sentido
Monday, December 08, 2008
prelúdio
demo tape 01
vou te dizer umas histórias e pouca verdade você irá tirar delas. só
espero que quando a hora chegar, saiba você que eu escondia, sim,
principalmente as coisas que eu sabia que me custariam muito. as que me
seriam deveras complicadas de proteger, eu enterrei, e as que ainda
estão por aqui, escondi tão bem que nem me lembro mais onde estão.
as coisas que eu vou dizer aqui são segredo até para mim mesmo, e vão
continuar assim até eu realmente ter vontade (e entenda isso como
capacidade, em sentido de limitação mesmo) de dizê-las.
vou te dizer umas histórias e pouca verdade você irá tirar delas. só
espero que quando a hora chegar, saiba você que eu escondia, sim,
principalmente as coisas que eu sabia que me custariam muito. as que me
seriam deveras complicadas de proteger, eu enterrei, e as que ainda
estão por aqui, escondi tão bem que nem me lembro mais onde estão.
as coisas que eu vou dizer aqui são segredo até para mim mesmo, e vão
continuar assim até eu realmente ter vontade (e entenda isso como
capacidade, em sentido de limitação mesmo) de dizê-las.
Thursday, December 04, 2008
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