Friday, November 30, 2007


enquanto isso, do lado esquerdo do peito, um bilhete borrado de sei-lá-o-quê dizia: 'aqui jaz um coração'. pouco depois, ao lado, havia um pedaço de guardanapo com gordura e um pós-escrito: 'perder você para a sorte foi meu último passo em falso.'

Wednesday, November 28, 2007

4e2

Era para ser só poro com anis
Dois soluços em um arpejo
Lábio no veneno dedo em foice
Arrepio e convulsão ao tato
Apetece sacia quando hora propícia
Que sejam 15 minutos
Suor duo funde queima
Cospe fumaça em carbono
Bufa arqueja sopra
Guturalmente esgüela
Elaelaelaelaelaela
filho amo puta
te caralho de
O peito pingando
Que sejam 6 minutos e um terço
Vai breu e vem luz
Deixa o cansaço em dia
Pra esquecer que dia

...

Cicatriza selando rompendo
Orloff Lambrusco Heineken
Enxarca pele quase toca
Que sejam 15 segundos e meio
Faz madrugada assim
Quatroquatroquatro números divinos
E dois
Finge se vestir
Cai pela janela
Entra pela portinhola
Se escondem de lençol
Inundam seus corpos de maremotos
E suas almas de silêncio

.

Friday, November 23, 2007


"...queria eu que aquela paz não fizesse esquina com este desespero"

Saturday, November 17, 2007

Azul lá longe

"Realmente me importa saber o que tanto você rabisca aí, nesse canto, esfolando esse papel azul machê,” disparou R., tentando mostrar segurança e incisão em suas palavras. Havia dito em vão, contudo, afinal T. mostrava total desatenção acerca de qualquer coisa que não fosse o citado papel azul. Machê. E arranhava um traço, dois traços, dando a impressão de ser apenas ela um gato revoltado tentando se defender de alguma ameaça. A ameaça, no caso, o papel, que faça-se a verdade, era rabiscado forçada e impetuosamente, a ponto de ser quase atravessado pela ponta de seja-lá-o-quê estava sendo usado para pungir-lhe à tinta.

Pingos azuis e verdes manchavam a mesa quando por instantes T. levantava a folha de papel para observá-la contra luz. De tão rápida e praticamente instintiva forma o movimento se fazia, que visualizar com exatidão do que se tratavam os traços se tornava tarefa impossível. Porém, à uma hora da manhã, cansaço começava a imprimir suas cores na face de T. Faria em pouco tempo cerca de 8 horas que começara o misterioso “ritual”, como R. mesmo afirmava em voz alta. Na verdade... Dentro da sua cabeça. E franzindo a testa ao tentar passar gravidade nesse gesto, esquecendo-se de que nada havia dito em voz alta, e que ela não virava a cabeça para outra posição do cômodo da sala à não ser a direção do papel, no meio da mesa, até então. O seu estado parecia um constante transe que se movia vagarosamente assim como fazem nuvens em formas de elefante ou cegonhas, riscando o céu afora.

R. chegara do trabalho no horário de sempre neste dia. T. parecia ter chegado do seu serviço mais cedo do que de costume, visto que no determinado horário da chegada dele, ela estaria ainda trabalhando. Talvez sequer tivesse saído de casa, reconsideraria ele posteriormente. Quando chegou encontrou-a fitando o papel com a mesma intensidade de agora. Somente pôde supor que começara o ato naquele instante, ou dentro de poucos minutos anteriores a este, após notar dentro de um certo tempo que a pilha de papel amassado jogado sob a mesa, em um canto afastado contra a parede, crescia com certa regularidade e constância, e que quando chegara, apenas havia dois pedaços rasgados em simetria quase perfeita, provavelmente o primeiro rascunho rabiscado e abandonado.

A impressão que a situação marcara em R., e esta seria um outro ponto das coisas que ele depois refletiria, mais frio e impassível, passava a idéia de uma T. correndo contra o tempo, à passos largos, contudo, com saltos de joaninhas. Havia pressa fugaz e desespero em cada traço, sim, mas havia calma evidente onde deveria haver insatisfação e inquietude quando um esboço se mostrava aquém das expectativas, e que era amassado, rasgado e jogado à pilha, junto dos outros pedaços passados. Os traços, curiosamente, difusos e aparentemente aleatórios a princípio, representavam certa ordem lógica após os recomeços dados a cada novo pedaço de papel azul machê pego na pilha, envolta em um embalagem de azul mais escuro, postado ao lado dela. E havia outra questão intrigante na situação, deixando R. realmente apreensivo: a face de T. Ela parecia constantemente virada pra dentro, de uma forma que em momentos passados de sua vida ele jamais poderia imaginar ou visualizar através de quaisquer descrições. Somente ali, ao vivo, isso faria sentido. Que os gestos encenados involuntariamente pela boca, pálpebras, narina e, bem mais discretamente, orelhas, pareciam acenar para um eu lírico invisível, que ele apenas conseguia, ou se atrevia imaginar, ser um espelho abstrato. O espelho abstrato das palavras. Ou das palavras que estão no embrião de formação na mente, que nem chegam a ser palavras de fato, que tem seus sentidos ainda intangíveis pela razão, cheias de figuras oníricas ininteligíveis a compreensão dos demais. Ela parecia observar cautelosamente os traços e os gestos do seu rosto, e isso descrever. Descrever através daquilo que ela rabiscava no papel. Fosse o que fosse. Caía como chocolate quente sob ambos a escuridão da noite.

Além, T. parecia evitar, ignorar suas necessidades físicas. Durante o tempo transcorrido, R. observou que ela ainda não se levantara para ir ao toalete ou para se dirigir a cozinha pegar algo para comer. Assim, ele tomou a iniciativa de extender um prato cheio de frutas cortadas próximo a ela -e foi isso o mais perto que ele chegou dela até aquele instante-. Esperou reações físicas à fatores diferentes ao conteúdo de sua tarefa, sentou-se em um sofá o canto extremo oposto da sala, e voltou a observá-la atentamente. Após um período de horas, notando que pequenos insetos já demonstravam maior interesse em fazer moradia por entre as maçãs e as pêras do que ela em comê-las, retirou o prato, evitando chegar mais perto do que antes, esticando o braço o máximo que podia. Já não tinha esperanças de ouvir sinais de protestos, e assim foi. O silêncio deslizava como a tardinha depois do almoço. Às 3 da manhã, R. apenas continuava a observá-la em sua distância calmamente porque o dia seguinte seria feriado, sem haver risco para qualquer um dos dois de perder horas de sono ou se atrasar para o emprego.

Novamente, R. roía os dentes uns contra os outros quando disse, e dessa vez efetivamente, em voz alta: “Também gostaria de saber até quando você ficará aí. Até quando ficaremos assim?”. Foi a segunda vez que se comunicara verbalmente com ela dentro de um período de 12 horas. E sequer atrevia-se a se levantar, sair do lugar, fazer algo, ou pronunciar outra palavra além daquelas. Parecia que o esforço extremo e derradeiro do seu corpo havia sido dado, e que agora já força alguma restava dentro dele. O último suspiro. Sem açúcar. Em momento nenhum, também, se atreveu a tentar olhar por cima dos ombros dela, ou aproximar-se discretamente por suas costas, evitando fazer barulho, para saciar a dúvida que apetecia-lhe o peito. O que tanto ela rabiscava no papel. O que tanto...

A questão? Ele sabia. A resposta. Chamava de dúvida o que na verdade tinha fobia de formar em sua mente. É. Isso aí. A certeza.

Friday, November 16, 2007

e

u não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso

Tuesday, October 30, 2007

então

sim
sim
sim
sim
sim
não
SIM















e sim e sim e sim

Thursday, October 25, 2007

3am

Alô!
É, boa noite!
E chega!
Já tive saudade de tudo em monte!
Exatamente!
Eu sei que você sabe o que eu quero dizer!
Não é preciso gritar!
Sem figuras de linguagem, por favor!
Vai continuar transpirando forte assim!?
Pare de gritar!
Já terminou de falar?
Deixa que agora é a minha vez!
Fim!
Já senti falta, o bastante por uma existência inteira!
Chegadebilhetesrabiscadosemfolhaarrancadasdoblocode...

...notasjogadas...dequalquerjeitoemcimada...

...

...mesaoucolocadascomfita-crepeoudurexnãomeioda...

...teladatelevisãodasaladeestar!!!

Au revoir...
Pare de gritar...
Só eu posso gritar aqui. E é isso...
Se quiser, eu desenho...
Para de fazer essa cara que eu sei que você está fazendo...
Ok...
Devolveria algumas coisas que já não as tivesse queimado...
Já disse quase o que eu queria...
Pode desligar.

Wednesday, October 03, 2007

Ela está chovendo lá fora
Ela me tolhe com os trechos mais frios da manhã
Ela corre até qualquer direção, me cai sob o colo, e me vê esguia
Ela salta e faz, 'foi susto', 'não quero', escala esse muro de cimento áspero e desfaz suas unhas
Ela deixa um fiapo estreito de janela aberto para o sol e a garoa entrarem
Ela dorme com a porta trancada à 10 cadeados
Ela não faz sentido, mas faz outras coisas
Ela anoitece sem querer
Ela amanhece quando quer
Ela estava bem aqui, bem pouco, mas estava
Ela queria dizer, eu não
Ela chove lá fora tantos dilúvios que nada vai ficar submerso
Ela colhe de mim as gotas frias de sereno que ficam espalhadas pela sacada
Ela chove o último dilúvio lá dentro e eu não sei nadar
Não que fizesse diferença
Ela queria dizer 'eu não'
Ela chove em mim as gotas de chuva que não caem em mim
E ela sabe, e ela sabe, e ela sabe que isso me enferruja
Ela sabe que vou me afogar
Ela sabe que vou ficar repetindo isso aqui fora ou lá dentro
Ela sabe que essa foi e será a última vez
Ela chove por toda parte enquanto minha arca está furada
Eu não quero ir a lugar
Ela escorrerá quando eu abrir a porta e disser
Nem eu, nem ela dirá, ou irá ou diremos e iremos ambos?
Eu não faço sentido nem outras coisas nada
E ela vai chover como sempre choveu pra sempre.

Tuesday, September 25, 2007

Ode Aos Poetas

é, tá na hora, pega essa sua metalinguagem e enfia
uhum, pois é, enfia, pois pouco me lixo se você é poeta
se sente a dor do mundo, se respira o ar que as flores
mortas do campo trouxe... foda-se
não vou estar aqui pra cheirar o seu corpo putrefar
pelo triste vento caído do outono em cinzas
e não vou fitar o firmamento com palavras de conforto
de sentimento, de paixão e saudade, pelo amor que se foi
e não volta, a não ser nos seus sonhos, a não ser nas gravações da
secretária...

óooooooooo vida cruel...
eu cuspo o sangue
o sangue que escorre da lingua que eu mesmo mastiguei

ahhhhhhhhh...
é, mesmo, e isso aqui também não é um poema.

Friday, September 21, 2007

três pontos


meio que tudo isso é sempre agora uma maneira de então esquecer de mim para esquecer você, e, enfim, esquecer de novo de vez de mim (pra não me esquecer que esqueci você)

Thursday, September 20, 2007

Vinícola

- É que algumas pessoas, simplesmente nasceram para catar esses farelos melecados de saliva do chão, sabe?
-Mas isso era sobre o quê?
-Pessoas...
-Hierarquias sociais? Quem ascende, vence na vida, vai ao paraíso, ou quem "dá mole", se afunda e cai em ruína, se afogando...
-No próprio vômito? Hahaha...
-É, é sobre isso?
-Não, viajou hein? Mas agora nem sei porque falei isso... Sabe...
-Pense...
-Err... Ah, sim. Não foi nesse sentido, acho, que metaforizei esse...
-Esse...?
-Era sobre a solidão que eu falava. A Solidão humana. Estúpida e humana. Essa necessidade imbecil de se precisar estar com alguém.
-E aí. Por que estúpida?
-Porque seria... seria muito mais simples se fossemos auto-sustentáveis.
-Bem estilinho países europeus de primeiro mundo? Ou os EUA?
-É! Exatamente. Depender só de si mesmo para se sustentar, ou no caso, ser feliz.
-Você está parecendo petista elogiando a Petrobrás.
-Hahaha...
-Mas você sabe que isso não passa de teoria. Discurso de auto-afirmação ou papinho pré-eleitoral pra angariar votos. Claro, eu digo das duas coisas.
-É, eu sei...
-Então...
-Você sabe que eu só estava ensaiando uma tentativa de enganar a mim mesma, certo?
-Sim, claro. E você sabe que eu esperava que você admitisse isso...
-Hum...
-Pois isso tudo é só balela, papo peneira, veja, ninguém é isolado, auto-sustentável. Nem pessoas nem países. Veja Cuba...
-Lá vamos nós para a aula de Ciências Políticas... Ou de auto-ajuda, né.
-Hahaha, desculpe, isso é chato pra cacete, eu sei.
-Até que não, he... Digo, a aula de ciências, claro.
-Sim...
-Sei que tanto ninguém pode estar só, quanto um país, e esse seu blablablá todo aí.
-Sim, exatamente. Já diria aquele cara que eu esqueci o nome.. Nenhum homem... err...
-É uma ilha?
-Isso!
-Mas não falávamos de solidão?
-Sim, e as pessoas se apegam facilmente a outras pessoas ou coisas que podem nem valer tanto a pena.
-E quem julga o que vale ou não a pena?
-Sei lá
-Talvez.
-É...?
-Vai continuar tentando falar dificile-metaforicamente pra me impressionar, ou enrolar, sei lá.. ou vai ser direta?
-O quê? Como? O que você quer dizer com isso?
-Eu que pergunto que você quer com essa ladainha toda.
-...
-Está com dúvida de algo e está jogando pedras ao vento, tentando acertar fantasmas no olho.


.. Certo?
-Mais metáforas?
-Anda. fala.
-É.
-Então digas do que duvidas, jovem pensadora. Que questão que indagas que te afliges?
-Pára.
-Ok, parei.
-Olha pra isso. Isso. Isso. Eu nem sei.. Nem, sei, nem sei, nem sei, nem sei como você é de fato que você quer fato, o que, o que realmente te importa de fato.
-De fato.
-Ha...
-Continue, please.
-Tsc... Veja bem. Nos conhecemos há 5 dias apenas...
-5 dias? Já vai fazer um ano!
-Conhecer nesse outro sentido. Esse aqui, de agora a pouco. E aquele, de ontem de noite.
-Hum... Isso é.
-Faz nem uma semana direito que começamos mesmo, com isso, e já...
-E já aconteceu.





- ...É
-E aí.
-E aí que não é assim que funciona comigo. Ou costumava funcionar até ontem. Eu nunca...
-Nunca ficou com um farelo melecado do chão, né... Isso que você queria dizer.
-Não! Não era isso...
-Então o quê?
-Sei lá... Desisto.
-Tente de novo.
-Não. E tire esse lençol de cima de mim, ele já esta me pinicando. Não roce seu pé tanto assim no meu também... Anda, tira.
-Fique calma...
-Já estou.
-Ok.
-...




-Assim está bom?
-Tá. Está muito quente aqui dentro para nos entrincheirarmos, em tantos panos sujos e suados...
-E melecados. E conspurcados. E ai, poeta, tem certeza que está calma?
-Sem sarcasmos. Sim, tenho.
-Então veja... você se julga solitária?
-Por quê?
-Porque acho que é isso que te aflige.
-A solidão?
-Também.
-Mais o quê?
-Julgar excessivamente e o tempo todo o que você sente... bem, isso é um outro aspecto a ser debatido e analisado...
-Ah...
-Você duvida se está realmente apaixonada por mm, e provavelmente você sempre tem essa dúvida, se está a gostar de verdade da pessoa em questão, pelo o que ela realmente é, ou se é só uma tentativa de fugir de si mesma, dessa sua carência...
-Lá falou o analista... não sabia que tinha cadeira de psicologia em Economia.
-É ou não é assim?



-Pois...
-Pois...
-Pois você está completamente errado. Essa sua mania de ser pseudo-analista te dá ideias precipitadas na cabeça. Um saquinho de equívocos, isso que você é.
-Se você diz...
-Você está errado.
-Então o que é?
-Isso não importa mais, eu já tinha dito que não queria mais falar nada... vamos voltar a debater economia, e pára de ficar metendo o pentelho onde não é...
-Ok. Vou abrir a janela. Tá, tá. O sol tá alto. Deve ser mais de 10...
-Quase, são 9 e meia.
-Uhum.
-Você viu que os analistas estão esperando pra hoje o resultado da reunião da Federal Reserve?
-Do FED?
-É, claro, dã...
-Sempre me enrolo com essas siglas...
-E olha que era pra você saber, e não eu...
-Sim... eles estão otimistas com a reunião de hoje. E...
-Pare. Continue aí, nessa janela.
-Pra quê? -
-Fique aí. Nessa posição
-...
-Fique ai até o sol se pôr.
-Mas vai demorar mais de... oito horas pra ele se pôr!
-Eu sei.
-...E hoje é dia de semana.
-É, eu sei.
-...
-...
-...Ok. Até o sol se pôr.
-Apenas respire. Se quiser sente-se na beira da janela.. Eu deixo.
-Ok... haha...




-...
-...
-Sim, era isso. Agora já está na hora.
-Não está mais brava nem fria?
-Acho que acertei um fantasma no olho.
-Que bom...
-...
-...
-E acho que não era um farelo apenas, hein... mas um rocombole inteiro...
-Haha...jura?
-Sim...
-...
-Mas só acho... não sei de nada. O sol vai se por, já, né?
-Sim... quer dizer, acho que não.
-Eu adianto o relógio aqui, e ele já se põe. Assim, a noite vai estar apenas começando...
-Você muda da água pro vinho... do nada. E o tempo todo.
-Eu sei.
-E agora você é o quê? Qual dos dois?
-Vinho.

Friday, August 31, 2007

18 de outubro, 20XX

tá, eu te sorrio, e já é meia noite
se enrole nesse cobertor
e beba esse café num gole só
cuidado com esse sereno
e abaixe a cabeça quando
passarmos por aquela ponte
o sol não vai nascer tão cedo
talvez nem depois das 10 da manhã
e já saiba de antemão
que aqui não há sonhos nem esboços dos mesmos
e que seus pais e os meus pais
e os pais de qualquer que conhecemos
já estão bem, bem longe
é, eu sei que você sabe
faz uma semana que tudo se foi
(de fato explodiram cidades, casas
com pessoas de verdade dentro)
quando isso tudo vai acabar?
sei lá
só sei que não devemos mais estar
aqui
só sei que alguma coisa tem de 'não'
desintegrar, ainda que tudo
o que conhecemos esteja a fazê-lo.

Depois de 20...

o que há de entrar, depois que todas
as portas e janelas (da casa)
estiverem escancaradas?

que há de surpreender, depois que estiverem todos
os cômodos tingidos de rosa,
os quadros entortados a 75º graus do primeiro quadrante,
os espelhos embaçados (com palavras obscenas escritas
a dedo que ninguém há de apagar)

que que há de se descobrir
depois que cada móvel já atender pelo nome
(e que a poeira deles nem mais atacar a
sua maldita alergia)

que há de se fazer quando as manchas de
infiltração do teto não serem novidade e quando os pedaços
de pizza do fogão serem apenas pedaços de pizza
sobre o fogão e nem um esporro a mais

que há de se recordar quando
o resto da vida inteira estiver fotografado e preso no
rolo do 'filme' da câmera fotográfica analógica
guardado no fundo da gaveta de cuecas?

solução seria um milagre fazer surgir um porão
mágico com paredes cobertas de biscoitos recheados
diéticos, até então indesbravado
bem debaixo do tapete do hall da sala?

Sunday, August 19, 2007

(De preto)

Nem era isso que eu queria dizer
.Que você está bem ali
..Que entre a porta entreaberta da sala
...tropeçando no frio, berrando aquela dor
....que se desfiando, e se escorrendo
.....se retocando e recortando
......sem muita noção do que realmente
.......vaza pela sua pele, pelo pêlo, pela boca
........pelos cílios, pelos poros, pelos rombos sujos de 'graxa'
.........(talvez fosse mesmo um pouco de graxa e só um pouco de pó de arroz por cima)
..........você tinge o chão que pisa, e você tinge
...........todo "o parêntesis" que beija, e você tinge o céu pelo qual se encanta (só as vezes)
............e você tinge as palavras que sempre quis tingir

de preto

Sunday, July 22, 2007

Dos Passos

Dos dias contados, é, já tinha certeza

Da inacessibilidade dos fatos estava ciente

Da carta, cuja rubrica torta e borrada reconheceria de cara
Tinha receio

Do que ficaria pálido e amarelo, como carne morta,
decompondo-se entre os dentes que então apodreceriam...
Sim, já estava à espera...

e

Da porta batendo, socando meu tímpano, tingindo o suor,
a lágrima, o nanquim do céu estrelado que eu traçara naquela... dia
Acostumei-me

Da voz, que sempre repetia mantras, ah, que dentre certos e errados
Quase certezas de salvações eternas, chamas gloriosas, eu me ria por tanta suposta exatidão
Deflagrei-me

Dos passos, dados, repassados, da varanda, à porta, do tapete rubro
ao altar, da porta ao guichê da rodoviária vazia de madrugada, do Passeio Público chuvoso à ponte interditada,
...eu já tinha o número certo

E das palavras, do 'como está?', ao 'talvez', do 'o que faremos hoje', ao.. ao
...ao 'que tal nos atarmos por entre os trilhos do trem', do 'eu quero você aqui agora', ao 'me diz
3 coisas que te infernizam, porque as quero saber de cor', do '...' ao '...';
...eu perdi até o medo de repetir para mim mesmo quando não estivesse pensando em

Saturday, July 14, 2007

Depois do 'Zê' vem o quê?

Zigoto fecundado, 9 meses se foram, e me cuspiram pra fora do útero e eu
zunia de tanto gemer, chorar, tossir e vomitar na terra da garoa, por isso
zarpei de navio, digo, ônibus, mas balançava como tal, para cidade maravilhosa
ziguezagueando, tropeçando, retalhando joelho, enfim andei, falei, resmunguei e de
zíper escancarado, ri de mim, tinha 15, pensava, resmungava, e, marmanjo, até pra
zona me chamavam, e nem ia, romântico bobo, cheio de grilos, tanto que pra uma
zinha me ‘xonei, me fudi, c'est la vie: fugi de tudo me refugiando no rock n' roll e o
zepelim, minha nova paixão, trouxe a música, abriu caminho pra arte, e revelou o
zênite meu que eu não esperava: A VIDA - finalmente minha tribo era eu e hoje,
zoomorfo, vago de pombo, cagando e voando para tudo o que eu pensava pensar.

--

Texto que mandei pro concurso "Lado Z", promovido pelo site do cantor de mpb (que amo, aliás) Zeca Baleiro. Tudo ia muito bem até eu me dar conta que o prazo do resultado seria curto demais, e que muito provavelmente isso tudo não passaria de um sorteio. Ler textos vencedores que fugiam das regras principais propostas a princípio apenas confirmaram a minha suspeita. Enfim, viva ao Senhor Baleiro, de quem sempre serei fã. *Sorrindo*

=)


Monday, July 09, 2007

'Tarde

...quando você tenta ser perfeito e isso por si só é imperfeição, vê? Devíamos nos habituar a ver as coisas partindo com todos os defeitos como referencial. Olha a ponta do meu dedo, ela está torta, e a unha mal aparada, e dou a mínima. Eu risco o vidro embaçado, soco-o, trinco-o, e o sangue da minha mão cortada esvai, vaza pelo punho trancafiado, tinge o chão de rubro, e aí? A dor ecoa, eu sei, a dor ecoa até seu ouvido pelo meu grito, que sai da minha garganta, que arromba a minha laringe. E você interrompeu sua leitura, porque eu faço sempre barulho demais, e você precisa se concentrar. Mas você tem que entender as minhas necessidades. Eu sei que você está aprendendo a ler agora, ok, ok, ok. É um novo recomeço. Ah, eu estou aqui... Não estou? Seja mais leve, eu te amo, veja bem, tudo passará. Não fique brava.. mas... mas... ah, você está rindo já... HAM... E como estava dizendo, tudo está baseado na imperfeição, e é assim que funciona na prática: o defeito ou o perfeito ilusório, visto que nada é realmente perfeito, são apenas outros dentre outros detalhes. Eu desafino quase sempre, mas e ai, Bob Dylan nunca fui o melhor cantor da galáxia, e é reconhecido pelo o que compôs e interpretou, afinal, e é o conjunto que valeu. As pequenas partes que unidas formam algo realmente belo e que vale a pena. Uma vista furada, um dedo ampultado, uma perna levada pelo caminhão de leite... Defeitos que lá vão ajudar a construir um ser humano melhor! Sim, é isso o que eu acho. É difícil, é foda, no início, ok, só que depois as pessoas superam, vê? E ele o fará! Vai passar a dar muito mais valor a vida, aos apertos de mãos, aos abraços, vai agradecer de poder ainda contemplar o crepúsculo, poder devanear sobre que nuvens tem forma de tigres dente de sabre ou de mamutes congelados no polo norte, ou nem um nem outro. De fato, é melhor assim. E eu sou imperfeito também, e é por isso que acho que superamos isso tão facilmente. "Facilmente", é, entre aspas, sei lá... É, eu sei que nem sempre é assim... Mas realmente devia sê-lo! Veja seu caso: o sol está quente hoje, você pode sentir isso com uma perspectiva diferente da minha. Possivelmente você notará melhor os pássaros cantando mais afinados do que eu, distinguirá as nuances de cada nota que eles solfejem, e seu piano tornará as coisas menos difícieis, visto que você se sentirá mais próxima do que nunca dele. E sua voz, você canta tão melhor que eu, cortará meus timpanos, "will rock" meu labirinto, é lindo demais imaginar. E é você que abrirá as garrafas de refrigerante, sim! Hah! Ou apoiará elas para que eu tire as tampas. Eu não estou tentando tornar as coisas mais facéis... Ou menos dramáticas. E você sabe. E você também sente, ontem a noite deu pra notar. Veja esse lábio, veja esse "cê", eu disse que você sabia. E você sabe que sabe. As coisas não são "ideiais", afinal, pra ninguém. Quando sem limitações, como nós, as pessoas se estressam com pia entupida, com o grão de arroz que ficou caído no chão, e é a Terceira Guerra Mundial, a segunda guerra do Golfo, enfim... Elas se matam todos os dias. E isso é imperfeição também. De uma forma ou de outra... Sei lá. Uma chance pra juntar pequenas imperfeições e torná-las...Não sei. É assim que funciona, você é jovem, e eu também, e estamos bem. Apesar dos pesares, eu posso escrever ainda, com o que me resta, e aqui estou. Em que ponto do livro está agora? Oia, 10 páginas pra acabar! E essa coisa era grande! Isso é lindo demais, querida. Você devia agradecer ao... Como era o nome dele mesmo? Ah, é... Frenti ti ti... Louis Braille, assim que pronuncia? É inglês né? Não, francês... Ok. Haha... Então, você devia agradacer ele cantando aquela canção que você compôs outro dia... Né? Ah, eu sei que ele morreu há quase dois séculos, mas você entendeu, ele pode ouvir mesmo assim, pelo menos eu acredito nisso... E você ainda pode cantar, e tocar piano, e até melhor do que antes, tá, eu já disse isso ...e dentro do que tangimos, faremos extensões de nós, desprenderemos pequenos pedaços do que somos, em cada palavra e cada gesto, porque superamos as coisas, e nos tornamos algo, sem referenciais, algo maior, algo com bases maiores, firmes, alicerses de diamante. É, e diamantes nem são usados em construções. Porque você acha que existem tantos suicidios? A graça é essa, querendo ou não, são nos dadas materias primas ruins e boas, e escolhemos, quaisquer sejam as situações em que nos encontremos. A despeito das situações, eu sei, não sou hipócrita, não é fácil pra qualquer um... mas a despeito das situações, é possível chegar a algum lugar, assim, positivo.Tá, eu tenho que parar com esse papo de auto ajuda, e cada um é cada um... mas não vejo outro forma de expressar o que sinto agora, entende? Tudo bem, não vou lançar um livro baseado nisso, haha, embora não fosse má idéia... Ha! Ok, querida, vou parar de falar, haha! Você que bem que gosta afinal de contas, né, sua sapeca...

...

As coisas não são perfeitas, mesmo, mas acho que outras coisas mais relevantes tornam isso um detalhe de pouca importância... Sei lá o quê. Enfim... Já são meia noite, vamos dormir então? Vamos, pegue minha mão. Ah, e agora me dê um abraço... Ok, agora vamos. Cuidado com a cadeira.

Monday, June 25, 2007

Solilóquio

“Há certas coisas na vida que, se nos dedicarmos demais para que tenham sucesso, terminam em desastre, e nada, nada, e...” Ela olha para ela com sobrancelha arqueada, e a interrompe bruscamente: “Como?”. Ela responde para ela, com leve impaciência. “Isso mesmo. Quando você tentar perseguir demais algo que, racionalmente tenha tudo pra dar certo, você não chega a lugar algum.” Ela aumenta ainda mais a expressão grave de dúvida e insiste para ela: “Porque você está ME dizendo isso?” E ela “Não seja megalomaníaca, e, ou, ou, e egocêntrica. Falo de... Veja, da última vez, aquela... Conte me, como sucedeu.”. Ela...” Ahn?”. Ela... “Como as coisas ‘coisaram’, você chegou junto, ou o contrário, ou vice e versa, o primeiro assunto, o que tinha em comum...” Desanuveando, pouco que seja, o rosto, ela começa: “Ah tá... A verdade é que nada tínhamos em comum. Só aquela ligação estranha, intangível, sei lá. Olhávamos eu, ela, a troca, e percebíamos algum pedaço em comum, em um lugar distante dentro de cada uma, poetizando... “ Tossiu... “... poetizando, havia uma luz de mesma cor, reverberando o mesmo brilho, no farol mais longuinquo de cada uma, na ilha mais escondida por entre as sombras, os oceanos infindos, e etcétera, e foi o que trocamos naquele exato primeiro dia...” Ela... “Quando?” Ela... “Ora quando... Eu estava enxarcada com minha blusa no bebedouro, e ela veio conversando com quem-não-lembro-quem. Tentava e tentava conseguir me livrar daquela armadilha, porque o treco lá era uma armadilha, com tantas pontas de ferro muito mal aparadas, enferrujadas, enfim, eu já estava toda molhada, presa com minha blusa lá, e o bico de metal espirrando e espirrando água... e ela riu horrores, não sei se de mim, ou se da amiga, mas riu bastante. Aquilo me subiu a cabeça, né, você sabe como eu sou assim, intolerante, zero, 0%, ai eu perguntei qual era o problema, e amiga disse que nada, e eu não tinha notado ela. Senão me engano era o seu primeiro dia... Bebi a água, enfim, graças, soltando minha blusa, e me encaminhei pro banheiro pra trocá-la, e vestir o uniforme tradicional. Fui bem rápida.... Saindo, fui para o canto do mural, onde havim um calendário desses de açougue, como ele foi parar na secretaria, só Deus sabe. Quando já tinha visto o que queria ver, me viriei, rapidinho, e esbarrei no ombro dela, ela e amiga ainda estavam lá resolvendo sei lá o quê, e aí que nos olhamos pela primeira vez...” Ela interrompe ela “mas e aí, como foi isso. O primeiro olhar! Diga-me!”. Ela manteve o mesmo tom... “Era o que eu dizia, bem, foi estranho, não sei.. Mas não é a mesma coisa você olhar uma pessoa que depois se revela importante pra sua vida, uma antagonista sua, mesmo, assim, pela primeira vez, e olhar a alguma pessoa que não terá relevância pra porra nenhuma, uma típica figurante mesmo. Nunca é igual, sabe. Tem algo lá, é sempre assim. E bem, eu olhei, e ela olhou, é daqueles momentos quevocê sente que alguém olhou de volta. É empatia, talvez.... Who cares. Então, ai foi assim...” Ela então, com queixo entreaberto, insiste. “Mas continue, responda me o que eu perguntei! Como era os assuntos, e tals?”. Ela... “Ah... é... Não tinha assunto!” Ela ri áspera, tosse leve novamente, e continua... “Não tinha nada, éramos completamente diferentes. Eu pensava coisas distintas. Eu sempre me danei pra essas merdas reliogosas, e ela era cheio de grilos, traumas, neuras, e blablablás do gênero. Lembro que eu puxei assunto da primeira vez, como sempre, sobre literatura, e ela empurrou a conversa pra frente, com a barriguinha com piercing n’umbigo, da mesma forma. Ela não gostava tanto dessas coisas, e eu amava, como até hoje amo, mas foi um ponto. E eu queiria insistir, não sei porque. Tirando isso, sei lá, tudo encaixava, sabe. O olhar, os risos... Arrrg...” Ela vira pro canto, cospe contra o cinzero vazio, enorme, aparentando mais uma bacia, e acrescenta: “E assim foi durante 3 anos, cada vez pior, cada vez mais rareando o sentido, praticamente só nos entendíamos na cama. Discussões, horas vazias, sem bons dias, maus dias, sempre sem reuniões familiares, afinal, a familia dela me odiava, assim como ela propria também, e aos poucos, cada vez mais. Mas é, ai um belo dia eu acabei com tudo. Fim. Satisfeita?”. Ela começa a ensaiar um esboço de sorriso nos lábios, enquanto suas palavras mesmo a atropelam jogando por cima de tudo...”Ah... Entendo. Entendo! Passei por tantas vezes por coisas parecidas... Mas no meu caso foi o inverso, entende?”
Ela faz gestos de quem não quer entender nada, se sentando na beira da cama e puxando o lençol contra o chão. Contudo, vira a cabeça, fita-a, diz uma palavra monossilábica incognicível, e faz sinal com as palpebras pra ela proseguir.

“Então.... foi no meio desses sites de relacionamento. É, isso... Eu vi lá algumas coisas sobre ela, e era tão engraçado, gostávamos mesmo de tudo, tudo igual. E ela era linda demais, não uma modelo perfeita, mas era realmente muito bonita. No ponto. Na medida, sabe? Se fosse perfeita demais me inibiria... E traria mais dores de cabeça. Mas enfim.. Ai tinhamos tudo a ver uma com a outra... Até o tal da porra do saco do gosto literário a gente compartilhava! Kafka, esses escrttores que todo cult diz que lê e entende, ela gostava, e, logo nos primeiros minutos de conversa, demonstrava que entendia mesmo! Sem ser aquelas ostentações retardadas pre-adolescentes! Isso me saciava profundamente. E passávamos horas conversando pela internet mesmo... E o problema foi que as coisas nem demoraram tanto. Ela me empurrou contra a parede. Eu, se hoje sou retraída, ainda que solta com relação a certos assuntos, como intelectualidades banais, eu era retraida sim com meus sentimentos... É...” Pára por uns instantes... depois continua... “Como disse, se sou assim hoje, imagine anos atrás... Aí ela as vezes me jogava indiretas diretas demais, e eu me coçava, me reprimia... pensando ‘caralho, porque fui começar com essa merda...’ Mas você sabe, né... Eram já 5 anos de solidão.Cinema sozinha, E tudo...” Ela interrompe rapidamente: “Mas você sempre foi de ter amigos. Nenhuma anti-social” E ela continua: “...Sim. Mas o SOZINHA que digo, é aquele.. sem uma mão pra segurar, sem um perfume alheio pra sentir mais de perto... Uma cabeça pra aconchegar... Fazia tempo, desde a última vez.” Ela faz um gesto de concordância, já menos contrariada, dando mais um sinal para ela prosseguir. “Então, eu sorri pra mim mesma, respirei fundo, e marquei logo pra nos vermos. E o primeiro dia, admito, me deixou otimista. Ainda que as coisas tenham ido rapido demais para o meu gosto pessoal, o primeiro encontro foi bem bacana... Conversamos horas sobre vanguardas modernistas, sobre cubismo, que ela adorava. E até mesmo sobre trivialidades! Eu e ela também éramos fãs inveteradas de Calvin & Haroldo! Bem, mas eu ainda sentia algo faltando. Ah... mas pensava que era frescura, da minha parte, eu idiota, eu ‘letárgica’, como você diz, e deixava as coisas seguirem em frente.” Ela coça a cabeça, se dirige ao cinzeiro. Depois ela, puxando um masso de cigarros, acendendo-o e puxando logo em seguida um trago, dirige seus olhos de encontro aos dela, fazendo novamente um gesto pra ela prosseguir. E ela o fez: “É... faltava algo. Mas eu enterrei minhas intuições, todas elas, sabe. E insisti. Chance potencial de desencalhar, entende...” E ela ri. “É... foi. Demorou 15 meses pra eu ver que eu estava certa desde o início...” Ela trazendo a tona mais uma vez o olhar de dúvida, interpola “O que Aconteceu?” Ela, agora reticente, e dando ares de arrependimento...”Você sabe... Aquilo. Foi horrível...” O silêncio se torna tão denso, que é possível ouvir, pela janela, cachorros se coçando do outro lado da rua. “Precisamos mesmo citar isso? Nem queria chegar a esse ponto. Era pra eu citar só vagamente. Vagamente...” E ela, compreensível diz: “Entendo... tudo bem. Você que começou... Eu só segui o fluxo...” E ela... “Sim, eu sei... Não é sua culpa... Deixa pra lá”. Ambas se levantam da cama, e vestindo as mesmas roupas, fitando o mesmo céu, nublado, dizem ao mesmo tempo: “O fato é que nada dá certo quando você insiste demais naquilo... Mas quando saber se é certo? Se é perfeito?” Após estabelicido o silêncio, insistente, vestem o casaco negro de couro, depois de já aderidos os outros trajes, atracam-se com os mesmos objetos em pulso, orelhas e pescoço, e suspiram pelo mesmo pulmão, fitando com os mesmos globos oculares – completamente vermelhos – um único rosto no espelho. E finalmente dizem para si mesmas... “Já sei... É simples até... Quando algo tornar o perfeito impossível de se realizar de fato...”

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Fotógrafo: Antônio Lança.
www.olhares.com

Friday, June 15, 2007

Bola no saco.

É assim que funciona:

Se você ouve sons "alternativos", você é Indie, pseudo-intelectual, e tem tendências bi-homossexuais;

Se você ouve heavy metal, bandas "gru-gru", e derivados, você é metaleiro, nerd, burro, viciado em rpg;

Se você ouve pagode, "ligapramimtinhamu" é pagodeiro, também burro, alienado, e... ah é, pobre;

Se você ouve bandas de emo-core, com letras que tratam exclusivamente sobre dor de cotovelo, e derivados, você é EMO (e impreterivelmente dá a bunda também);

Se você ouve coisas dentro do padrão considerado "música-para-pessoas-inteligentes" à la -olá, eu sou inteligente, e escuto isso. se você é inteligente, escute isso também-, você tem neurônios em plena atividade. In other words, você é "cult", e superior à todos os demais seres vivos da face da Terra (incluindo os insetos). Se você gosta de algo fora desse padrão, você é burro, "não sabe nada", e, aliás, também fede e sofre de hanseníase contagiosa.

E se eu prefiro comer tangerina ao invés de laranja, vou morrer aos 20 anos de idade (por falência múltipla de órgãos).

Thursday, June 07, 2007

Soneto Ao Martir Pós-moderno



















Uma nova era de sofreguidões
Braços dados, abertos, ampultados
Os sorrisos estéticos vão dados
À mão, ao amor, à porra dos culhões

Cresci criança, vida que então tive
(Tivera...) deteve-se por si só, declive
Ao cimento seco, dissolve o dia
Céu da boca, a solitude, agonia

"Mãe verberando a caca do filho
Que conspurcou quintal da velha alérgica
Com pedaços: próprio corpo espalhado"

Empalhei me então, e agora eu ilho
Meu crânio seco, a verdade letárgica
Meu peito, a dissecar, só, nunca amado