Monday, April 21, 2008

bleu clair

Quando você me disse para dizer adeus, eu pensei que era algum tipo novo de brincadeira ou peça a ser pregada, então fechei os olhos e disse: adeus, adeus mamãe. Era já a manhã seguinte, e a porta do seu quarto continuava fechada, trancada, e dei batidas leves contra ela, com medo de te acordar com um susto e te deixar mal humorada tão cedo. Sem resposta de volta, passei a bater mais forte, e assim progressivamente, até minhas mãos doerem a um ponto que pensei que iam começar a sangrar sem parar. Cessei as batidas, e meu coração apertou e eu comecei a chorar copiosamente. Na rua uma banda, dessas baratas e meio desafinadas, começou a tocar umas canções, provavelmente contratadas para celebrar sem naturalidade a reinauguração daquela farmácia velha dos Almeida.

Caminhei rumo a janela e da ponta dos pés eu vi a cantoria do coral de senhores vestidos uniformemente. Três deles estavam encarregados dos instrumentos de sopro enquanto outros dois faziam as vezes dos instrumentos de percussão, um batendo num bumbo, ou sei lá o quê, que era quase metade de seu tamanho e um outro rufando dois pratos, creio que para fechar ou abrir os compassos. Prestei atenção no ar de desagrado que vinha do olhar do coral de senhores, e o tamanho era seu esforço em soar agradáveis e felizes, que me lembrei do último jantar que você tinha me obrigado a ir na casa dos meus avós. Eu me recusava a ir, mesmo sabendo que era o aniversário da minha avó, e que ela estava por completar 80 anos de vida “muito bem vividos, senhorita”. Mas é que aquela casa e o que ela significava me apavorava sempre, mesmo dentro de meus pensamentos mais aleatórios. As palavras dela ecoando em minhas memórias, como “a minha vida me dá muito orgulho”, e “espero que você tenha metade da felicidade que eu tive, Mimi”, me traziam sensações então indescritíveis, que somente muito depois pude descrever como pena e remorso. Pena porque eu, mesmo que inconscientemente, sentia que as coisas que vovó dizia eram mentira. Mentira, digo... ela não parecia realmente feliz com a vida de aposentada, inválida, naquela cadeira de rodas. Por mais que ela dissesse o contrário, e que meu avô com veemência concordasse com ela. Remorso porque mesmo sabendo e sentindo essas coisas, eu não conseguia ser uma neta mais agradável. Quero dizer... eu não conseguia me sentir bem dentro daquele lugar, antigo, que remetia a um passado que eu jamais vivenciara, com fotos de pessoas das quais eu só tinha comigo histórias mal memorizadas, pouco fixadas mesmo após inúmeros detalhes narrados repetidamente ao longo dos anos. O passado, de um jeito que não defino com precisão até hoje, nunca me fez bem.

Mas lá estávamos nós, sentadas na sala, você contando as últimas novidades, mesmo elas não sendo tão novas assim. O “sem notícias” do meu pai; a alegria de minha avó ao ouvir isso (de você eu nunca conseguia distinguir o alívio da saudade com relação ao meu pai); comentários semi-aleatórios, como sobre as minhas notas na escola, que andavam regulares, porém sem grandes feitos ou surpresas, e o meu avô como sempre repetindo o mesmo sermão, de que eu para ser uma boa menina deveria me importar e dedicar me mais aos estudos, pois a minha “mãe” gastava tanto do dinheiro dela para nos sustentar, e que na minha idade, você só tirava nota máxima na maior parte das disciplinas... e assim por diante, como se eu realmente estivesse absolutamente alheia à vida que eu mesma tinha com você, ou como se realmente nunca tivesse ouvido antes as mesmas palavras, tão decoradas como um refrão. Já tinha 7 anos, mas continuava sendo subestimada da mesma mecânica maneira desde os meus 3 e pouco, que foi quando os conheci, não é?

Você comentava em contrapartida, talvez sob o intuito de compensar algo ao ponto de vista deles, que eu me tornara uma grande aspirante a pianista, e que o seu velho piano não estava mais abandonado na sala de estar. E com um estranho misto de espanto e subestimação, eles me pediram para tocar um pouco para eles no piano da sala, que estava desempoeirado menos pelo ânimo de alguém ali tocá-lo com freqüência que pela obsessão por limpeza e organização de minha avó. Eu, que fingia prestar mais atenção ao casal de bonecos que tinha levado comigo de casa que na conversa que vocês travavam, sentada sob um tapete velho no canto oposto da sala, ouvi o chamado e encaminhei-me, já esperando que me solicitariam uma peça musical desde que vocês começaram a tocar no assunto. Desde nova sou insegura e desajeitada, e estava nervosa de antemão. Sentei na cadeira que vovô ajeitou, e dedilhei a primeira das duas únicas canções que você havia me ensinado até então. O tema simples e introdutório daquela melodia de Bach realmente era missão fácil de cumprir. Tanto que mesmo meus avós enxergavam com moderado entusiasmo o que eu fazia, e assim ficaram até você dizer que havia me ensinado a música há menos de uma semana. Provavelmente foi aí a vez que mais ouvi elogios da parte deles para minha pessoa, pela minha vida inteira. E os planos recitados e promessas randômicas citadas, de que quando o tal dinheiro que estaria por vir enfim viesse, minha avó me arranjaria aulas com um antigo professor amigo da família, sem ter certeza de que ele ainda lecionava... e assim por diante.

Comemos dois pedaços de bolo, e você voltou a conversar com eles, e hoje e vejo com admiração a comunicabilidade que você e meus avós tinham... coisa que jamais pudemos ou tivemos tempo de cultivar... Enfim, a noite não foi tão desagradável, e passou um pouco mais rápido quando me sentei ao piano, e lá fiquei brincando, pois ele me distraía melhor do que aqueles bonecos que eu tanto já tinha mordido e que já estava enjoada de estar enjoada. Saímos rápido de lá, torcendo para não perder o último ônibus, pois você precisaria estar no seu serviço no dia seguinte bem cedo. Correndo pegamos um pouco de garoa, a condução logo chegou e uma vez sãs e salvas dentro do ônibus, deitei no seu colo assim que nos ajeitamos nos acentos, uma do lado da outra. Passando a mão pelos meus cabelos e sem me fitar diretamente, você mantnha um olhar perdido em um ponto distante, muito além da janela do ônibus. Chegando em casa a chuva desatou a cair de vez. Depois de trocar as roupas molhadas e a bota encharcada, eu me deitei primeiro. Entrei no meu quarto enquanto você arrumava sua bolsa para o trabalho, e só então notei que havia esquecido os bonecos na casa dos meus avós (pois vi minha cama e lembrei do lugar onde eles costumavam estar). Eu sei que no dia anterior eu me abraçara e eles, e que se eles estivessem ali, eu o faria novamente, e que eram imprescindíveis para eu “pegar no sono”... só que aquela chuva caindo, eu simplesmente me jogando no colchão e "desmaiando", e você vindo me trazer um cobertor a mais, pois, mesmo adormecida eu reclamara do frio em alto bom som...Você ali me cobrindo, e me entregando palavras que mesmo que sejam-me impossíveis de recordar com exatidão, trazem agora e sempre a mesma sensação de paz, intacta, que me diz que eu jamais poderia precisar de algo além da sua mão, para me cobrir, afagar e bater, e sua voz, para me culpar, desculpar, e cantar.

A banda tocou sua última música, e as pessoas começavam a entrar na farmácia nova, os músicos e os cantores ajeitavam suas coisas e caminhavam para fora dali. O cocker spaniel do vizinho do 303 se soltara da corrente pela centésima primeira vez, e corria pela calçada, parando e então atravessando educadamente a rua pela faixa, assim impedindo uns vários carros de dispararem rua afora quando o sinal finalmente abriu. Uma senhora vestindo um cachecol vermelho (mesmo que não estivesse tanto frio assim), velha conhecida do dono e de seu cachorro, por sorte estava do outro lado da rua, e segurou o bicho, esperando o senhor chegar. Logo depois uma bola alaranjada saltou de uma janela acima da nossa para a rua, em movimento de parabólico perfeito e eu a vi caindo no meio dos carros, que corriam indiferentes, e ouvi o estrondo forte da explosão dela quando um caminhão de entregas a esmagou.

A manhã tinha um azul claro no seu céu, e disso eu também me lembro. Após o estouro, a rua ficou em silêncio, tirando um ou dois transeuntes que volta e meia entravam na farmácia nova conversando alto. Ela estava lotada de cartazes anunciando promoções e descontos, e fiquei quieta o bastante para ouvir ruídos do seu quarto. Correndo contra a sua porta, evitei tropeçar em suas roupas jogadas do dia anterior, e mais uma vez bati com força, gritei seu nome, e ouvi um som leve, grave e rouco que parecia ser sua voz. Bati de novo, e de novo, e quando parei, já não havia som algum, e, naquela idade, eu não saberia o que pensar. Supondo que você tinha apenas e nada mais que um sono pesado, me aliviei por uns instantes, e caminhei rumo ao piano. Tirei a toalha verde e branca, com tomates pintados, que cobriam a tampa do seu teclado, e me ajeitei na grande cadeira, começando a tocar em dois, e três e finalmente em quatro acordes a nova música que você me ensinara três dias antes. Lembro-me muito bem que era uma canção para mim então de dificílimo aprendizado. Porém na hora esqueci completamente de qualquer dificuldade, e a executei com quase perfeição. Minha mão direita foi indo e voltando, e a esquerda recitava o tema principal timidamente, e assim repeti a melodia várias vezes, me distraindo e esquecendo do tempo, não associando por trás da melodia o que depois fui concluir ser o barulho ou da extensão do telefone do seu quarto caindo no chão ou de você mesma caindo da cama. Ou ambos.

Toquei, e toquei, e só parei ao ouvir da porta uma grande batida, de pessoas que pareciam estar com sérios problemas. Minha prematura intuição supondo apenas se tratar de uma emergência em minha casa, incêndio que eu não havia percebido, ou algo do gênero, pois pouco antes eu ouvira uma ambulância ou sei lá o que era, disparada e desesperada subir a rua e estacionar na frente do nosso prédio. Eu abri a porta antes que as pessoas achassem necessário arrombá-la, e já se passaram 19 anos, mãe.

Sunday, April 20, 2008

Sobre Caramujos Alpinistas Na Parede Do Banheiro

E diz que ”sempre” é duas vezes
Aquele dia formalmente dividido em 7 partes
Repete “tanto faz, um dia ou 9 meses
Fazem-me prisão e decomponho qualquer arte”

Eu estive além do muro, onde quem mente
Encontra a mais supremadivinacasta rendenção
E, sim, lá estive porque lá o fiz, “’sente?
Eu perco um dedo a mais cada vez que extendo a mão”

Enquanto a hora passa, o vento arrota
Vão dizendo que um dia você se atreve
E morre com 3 facadas diferentes, “sem porta
Aberta, ou certezas e convicções: jamais as teve”

Preste atenção! quando acabar, corra e não desate os nós
E associe esta lógica ao seu mais extremo sentido
Ninguém jamais dirá, e palavras em si não se dizem por si sós
A verdade é inogârnica e só grita ao pé do ouvido:

“Desejas-me quanto mais sabe que jamais me terás
Porém não me amas, pois não existo: o que é jamais será."

Saturday, March 29, 2008

.Eu

Vou aprender a dizer não
Vou aprender a beber água de chuva
Vou aprender a fugir quando precisarem de mim
Vou aprender a olhar pra trás (e cuspir naquilo que eu ver)
Vou aprender a rir de você (e nas horas mais inapropriadas)
Vou aprender a me esconder por trás do que eu deixar de dizer
Vou aprender a correr com desespero rumo a cada coisa que eu odiar
Vou aprender a ser falso e vil, e a usar o próximo em meu proveito, e a saber trair
Vou aprender apertar a vida contra o peito com tanta força que vai ela sufocar, praguejar e morrer
Vou aprender a desconfiar de quem eu amo até chegar a hora que deixarei de amar qualquer coisa que respire
Vou aprender a escorrer a minha saliva e sangue em cima da ferida dos outros (e depois jogá-las na cara dessas pessoas)
Vou aprender a fingir que sei que estou errado quando eu 'realmente estiver' (sem ter idéia de que eu possa estar de verdade)
Eu juro.

Wednesday, March 26, 2008

Sobre maçãs

Que nome mesmo você dá à inspiração, transcendência,
dedicação, rendenção... e essas coisas?
Você nem ao menos consegue tocá-la sem pensar em si mesmo.

Sunday, March 16, 2008

11º Dia

Agachei-me mais ou menos na direção dos trilhos para pegar uma meia-meia dúzia de pequenas pedras e jogá-las contra o lago, absurdamente quieto, e enfim testar se o resto do mundo estava inanimado ou se, por acaso, assim ele reagiria de alguma forma, pois já havia horas que eu estava deitado contra os trilhos, inclusive já havia dormido, acordado, tido pesadelos, e algumas dessas coisas aconteciam ao mesmo tempo e eu cantava canções para mim mesmo e tentava fazer o tempo ou coisa que o valesse passar, só que nada acontecia, até o ar parecia estático e, assim, foi quando eu saí dali um pouco, e fui mirar as pedras contra o lago e, parece, que haviam mais montanhas do que eu supunha, e elas eram mais altas do que qualquer montanha que eu jamais tenha visto antes, e a base delas parecia ser constituída de rochas amareladas, e o seu topo era levemente arroxeado, e, no céu, havia alguns trechos onde as cores se misturavam como quando chocolate quente começa a se misturar ao café, e as cores são distinguíveis entre si através de finas linhas distintas, que se entrelaçam em forma de espirais, ondas, etc, e, lembro-me agora, as nuvens eram verdes e púrpuras, e o lago era cinza, cinza escuro, e ela estava caminhando na superfície dele, aproximadamente no meio, e eu andei com calma pela praia em sua direção, mais surpreso por encontrá-la ali do que por vê-la naquelas condições, e deixei a água me tocar até os joelhos, e ela então parou, e, é importante dizer, olhando para baixo, com as mãos cruzadas para trás, na beira de sua coluna, e estava de lado, de acordo com o ângulo em que eu me encontrava, mas era fácil reconhecer seu perfil, com o qual já estava tão familiarizado, e, enfim, eu voltei a fitá-la, e ela estava lá, olhando para algo dentro da água, e, também, acabo de me recordar que mesmo vestindo meias, os pés dela que tocavam a água estavam bem secos, e, aliás, a superfície do lago não esboçava nenhum movimento, mesmo quando eu havia entrado em sua parte rasa, e, eu tentei socá-lo, chutá-lo, e nada era dado como resposta, nenhuma reação, e, nessa hora, notei que nada era refletido na sua superfície, nem eu, nem o céu, só havia o cinza, cinza escuro, e eu gritei com muita força, voltando-me uma vez mais para a direção dela, tentando fazer com que ela voltasse a se mover, como há então há pouco, e cantei o refrão de uma canção que amávamos, e xinguei ela de nomes que sei que ela odiava, mas ela continuava parada, e eu tentei adentrar-me no lago, e caminhar até a direção dela, e a água estava, até então, apenas batendo no meu joelho, quando meu próximo passo pareceu ser em falso, e senti estar sobre um abismo, e eu caí por um tempo que me é impossível tangir agora, e como tudo ao meu redor, e tive a sensação de que a única coisa que não parecia inerte em todo o universo, naquele instante, era o meu corpo a cair, só que eu, finalmente, depois, recobrei um pouco de força que eu devia ter guardado, ou que eu, momentaneamente, esquecera que possuía, e, com umas dez braçadas, atingi a superfície novamente, e saí do alcance do lago com desespero e pressa, e quando eu pude recobrar plenamente os sentidos e respirar novamente, levantei a cabeça e vi que ela ainda estava lá, na mesma posição, a fitar o fundo da água, e foi aqui que eu joguei a única pedra que ainda tinha em mãos em direção a ela, talvez em uma última tentativa desesperada, e eu tinha certeza que tinha mirado na direção correta, porém o projétil fez uma curva estranha no ar, em piruetas assimétricas, pequenos movimentos em forma circular, como se uma força superior me estivesse me impedindo daquele ato, e foi para uma direção totalmente oposta da qual eu tinha o jogado, passando por cima da minha cabeça e voltando à altura dos trilhos, e, então, o céu multicolorido de outrora se tornou negro, e trouxe nuvens, na verdade, talvez fosse uma única nuvem, enorme, colossal, que ocupava ele por completo, ou pelo menos até onde os meus olhos podiam atingir, e uma chuva fina começou a cair, e ela era estranha, pois tinha gosto de mel, e era fria, e ela se tornou intensa, e se tornou em tempestade, e só aí a superfície do lago demonstrou ainda conter vida por meio de intensas borbulhas, e um barulho forte começou a soar por trás de mim, e eu vi que uma locomotiva estava passando, com todas as suas luzes acesas, e um apito estrondoso cortou meus ouvidos, e por uns instantes nem a mim mesmo eu podia ouvir, e mais alguns segundos depois, quando a locomotiva parou, pouco a frente de onde eu estava no início, e eu voltei a olhar para o lago, e vi que ela não estava mais lá, e eu corri, sem pensar, para ver o que havia ocorrido, onde ela estava, e percebi que dessa vez eu podia andar sobre a superfície da água, como ela estava fazendo, e notei, ao chegar mais ou menos no ponto onde ela estava antes, que somente aquela parte da água podia refletir algo, e foi aí que, depois de um longo período de tempo, eu pude ver a minha face novamente, e quando isso aconteceu, eu parei, e me olhei-me, e me olhei, como jamais havia feito antes, como se o meu rosto tivesse mudado radicalmente desde a última vez que eu o vira, ainda que racionalmente eu sabia que pouco havia mudado, e, então, tive a sensação de que a locomotiva tinha voltado a pitar, ameaçando ir embora, e de que meteoros começavam a cair por todo o lugar, destruindo superficialmente o solo e fazendo a terra tremer, e de que um enxame de milhões de abelhas tinha surgido não sei de onde, já que não havia florestas lá, e de que o céu tinha se tornado um vermelho só, e de que o lugar começara a ficar terrivelmente quente, e também estava sentindo que tudo parecia estar de alguma forma acabando, e eu acho que ouvi gritos distantes, e outros sons que não sabia distinguir, mas eu não conseguia mais me mexer, eu estava parado, e parado eu só conseguia olhar para o meu próprio rosto, e não porque era belo, e não porque me trazia paz, mas porque... porque eu não sei.

Saturday, February 23, 2008

faz dois dias
assim
e eu
quis muito dizer
e saber
onde você está
como
você ainda está
você ainda sabe
esquecer o que ia falar.
você ainda
sabe de cor as cores
as quais dávamos luz.

Friday, January 18, 2008

otherwise

and now we're learning every mistake
and now we're back here one more time
and now we'll fly away from our nests
very fast, very fast, very fast, every burning cradle
we'll spit us back
and

you...
you...
will hold me very tight
very tight
tighter than the last time

and now you know why
why I took all the hell back
cause it's so much easier
to repeat our last steps

you...
you...
will stab me very deep
very deep
deeper than the last time

c'mom, take my hand
pretend and take my hand

Monday, January 14, 2008

A Despeito

deitado aqui vejo
você sabe querer
sabe infiltrar
no que se vê
e no que não tenho mais
e me diz assim, tão simples
é hora de partir

me diz o que passou
o que eu perdi
enquanto dormia
lá atrás
as horas eram tanto sono

serei eu o que eu fizer do que sobrar de mim?

Saturday, January 05, 2008

atmosférica

conclui
define
constata
reflete
pondera
esmiuça
contesta
recrimina
declara
dispara
relata
comenta
diz
pontua
opina
disfarça
revela
confessa
gagueja
sussurra
resmunga
grita
choraminga
esbraveja
implora
sua
escorre,
o etílico rapaz da contramão acerca de si mesmo .

Wednesday, December 26, 2007

Cof

Claro que há poesia
daqui de cima é difícil de ver algo
mas claro que há!
eu mesmo vi umas balanceando rimas sobre despeito e ódio
sentadas na calçada que dava de frente pra padaria que abriram semana passada
e isso foi ontem

Pare de levantar essa sobrancelha
você dá descrédito a tudo que digo!
veja, eu vi o soneto, isso, o mesmo de quem te falei outro dia
comprando café, cuspindo, e depois derramando dois litros de vodka garganta a dentro
e entrando em coma alcoólico e sendo levado de maca àquela clínica
acho que nunca mais saiu de lá, mas a questão é exatamente o fato dele estar vivo
e completamente no controle do que chama de vida

O quê?
que vida? como assim que vida, a vida, você sabe...
a vida, que fazemos e vivemos, e o tempo
que algemamos bem no pescoço e cuspimos à cara

Dedique seu papo de que só fazemos o que fazem de nós à outra pessoa, cara
Ninguém está enganando ninguém! é poesia! a vida é isso!
vivo loucamente, e o desejo e o prazer que carrego
são minhas únicas bandeiras
e...

O que é isso molhado em meu rosto?

Monday, December 10, 2007

Ode a Saudade

"é sobre isso que falo
sou aquilo que sobrou de você dentro de mim
e sinto falta do que está aqui
do que desabafa traçando a mão
contraaboca
des, abafa, des, aprende
des, constrói em pingos
muitos, muitos pingos
monumentos inteiros de gelo
q'eu mesmo derreto ao tocar
e
ao
nem
parar
de
secar
cansado, remenda dois cacos e meio
eu derrubei sem querer
desculpe
prometo que isso jamais se re, re
remendando dois cacos ao meio
assim que se faz a saudade
ou costumava fazer
seja como for, queria aprender a sentir falta
do que se foi
do que está distante
distantedemaisassim
mas se não se foi, e se está aqui
bem aqui
aqui, assim, ó
e, se pelos pesares plenos e definidos, continuo
definitivamente devo dizer
que não sei o que querer
mais
só sou aquilo que sobrou de você dentro de mim."

Friday, November 30, 2007


enquanto isso, do lado esquerdo do peito, um bilhete borrado de sei-lá-o-quê dizia: 'aqui jaz um coração'. pouco depois, ao lado, havia um pedaço de guardanapo com gordura e um pós-escrito: 'perder você para a sorte foi meu último passo em falso.'

Wednesday, November 28, 2007

4e2

Era para ser só poro com anis
Dois soluços em um arpejo
Lábio no veneno dedo em foice
Arrepio e convulsão ao tato
Apetece sacia quando hora propícia
Que sejam 15 minutos
Suor duo funde queima
Cospe fumaça em carbono
Bufa arqueja sopra
Guturalmente esgüela
Elaelaelaelaelaela
filho amo puta
te caralho de
O peito pingando
Que sejam 6 minutos e um terço
Vai breu e vem luz
Deixa o cansaço em dia
Pra esquecer que dia

...

Cicatriza selando rompendo
Orloff Lambrusco Heineken
Enxarca pele quase toca
Que sejam 15 segundos e meio
Faz madrugada assim
Quatroquatroquatro números divinos
E dois
Finge se vestir
Cai pela janela
Entra pela portinhola
Se escondem de lençol
Inundam seus corpos de maremotos
E suas almas de silêncio

.

Friday, November 23, 2007


"...queria eu que aquela paz não fizesse esquina com este desespero"

Saturday, November 17, 2007

Azul lá longe

"Realmente me importa saber o que tanto você rabisca aí, nesse canto, esfolando esse papel azul machê,” disparou R., tentando mostrar segurança e incisão em suas palavras. Havia dito em vão, contudo, afinal T. mostrava total desatenção acerca de qualquer coisa que não fosse o citado papel azul. Machê. E arranhava um traço, dois traços, dando a impressão de ser apenas ela um gato revoltado tentando se defender de alguma ameaça. A ameaça, no caso, o papel, que faça-se a verdade, era rabiscado forçada e impetuosamente, a ponto de ser quase atravessado pela ponta de seja-lá-o-quê estava sendo usado para pungir-lhe à tinta.

Pingos azuis e verdes manchavam a mesa quando por instantes T. levantava a folha de papel para observá-la contra luz. De tão rápida e praticamente instintiva forma o movimento se fazia, que visualizar com exatidão do que se tratavam os traços se tornava tarefa impossível. Porém, à uma hora da manhã, cansaço começava a imprimir suas cores na face de T. Faria em pouco tempo cerca de 8 horas que começara o misterioso “ritual”, como R. mesmo afirmava em voz alta. Na verdade... Dentro da sua cabeça. E franzindo a testa ao tentar passar gravidade nesse gesto, esquecendo-se de que nada havia dito em voz alta, e que ela não virava a cabeça para outra posição do cômodo da sala à não ser a direção do papel, no meio da mesa, até então. O seu estado parecia um constante transe que se movia vagarosamente assim como fazem nuvens em formas de elefante ou cegonhas, riscando o céu afora.

R. chegara do trabalho no horário de sempre neste dia. T. parecia ter chegado do seu serviço mais cedo do que de costume, visto que no determinado horário da chegada dele, ela estaria ainda trabalhando. Talvez sequer tivesse saído de casa, reconsideraria ele posteriormente. Quando chegou encontrou-a fitando o papel com a mesma intensidade de agora. Somente pôde supor que começara o ato naquele instante, ou dentro de poucos minutos anteriores a este, após notar dentro de um certo tempo que a pilha de papel amassado jogado sob a mesa, em um canto afastado contra a parede, crescia com certa regularidade e constância, e que quando chegara, apenas havia dois pedaços rasgados em simetria quase perfeita, provavelmente o primeiro rascunho rabiscado e abandonado.

A impressão que a situação marcara em R., e esta seria um outro ponto das coisas que ele depois refletiria, mais frio e impassível, passava a idéia de uma T. correndo contra o tempo, à passos largos, contudo, com saltos de joaninhas. Havia pressa fugaz e desespero em cada traço, sim, mas havia calma evidente onde deveria haver insatisfação e inquietude quando um esboço se mostrava aquém das expectativas, e que era amassado, rasgado e jogado à pilha, junto dos outros pedaços passados. Os traços, curiosamente, difusos e aparentemente aleatórios a princípio, representavam certa ordem lógica após os recomeços dados a cada novo pedaço de papel azul machê pego na pilha, envolta em um embalagem de azul mais escuro, postado ao lado dela. E havia outra questão intrigante na situação, deixando R. realmente apreensivo: a face de T. Ela parecia constantemente virada pra dentro, de uma forma que em momentos passados de sua vida ele jamais poderia imaginar ou visualizar através de quaisquer descrições. Somente ali, ao vivo, isso faria sentido. Que os gestos encenados involuntariamente pela boca, pálpebras, narina e, bem mais discretamente, orelhas, pareciam acenar para um eu lírico invisível, que ele apenas conseguia, ou se atrevia imaginar, ser um espelho abstrato. O espelho abstrato das palavras. Ou das palavras que estão no embrião de formação na mente, que nem chegam a ser palavras de fato, que tem seus sentidos ainda intangíveis pela razão, cheias de figuras oníricas ininteligíveis a compreensão dos demais. Ela parecia observar cautelosamente os traços e os gestos do seu rosto, e isso descrever. Descrever através daquilo que ela rabiscava no papel. Fosse o que fosse. Caía como chocolate quente sob ambos a escuridão da noite.

Além, T. parecia evitar, ignorar suas necessidades físicas. Durante o tempo transcorrido, R. observou que ela ainda não se levantara para ir ao toalete ou para se dirigir a cozinha pegar algo para comer. Assim, ele tomou a iniciativa de extender um prato cheio de frutas cortadas próximo a ela -e foi isso o mais perto que ele chegou dela até aquele instante-. Esperou reações físicas à fatores diferentes ao conteúdo de sua tarefa, sentou-se em um sofá o canto extremo oposto da sala, e voltou a observá-la atentamente. Após um período de horas, notando que pequenos insetos já demonstravam maior interesse em fazer moradia por entre as maçãs e as pêras do que ela em comê-las, retirou o prato, evitando chegar mais perto do que antes, esticando o braço o máximo que podia. Já não tinha esperanças de ouvir sinais de protestos, e assim foi. O silêncio deslizava como a tardinha depois do almoço. Às 3 da manhã, R. apenas continuava a observá-la em sua distância calmamente porque o dia seguinte seria feriado, sem haver risco para qualquer um dos dois de perder horas de sono ou se atrasar para o emprego.

Novamente, R. roía os dentes uns contra os outros quando disse, e dessa vez efetivamente, em voz alta: “Também gostaria de saber até quando você ficará aí. Até quando ficaremos assim?”. Foi a segunda vez que se comunicara verbalmente com ela dentro de um período de 12 horas. E sequer atrevia-se a se levantar, sair do lugar, fazer algo, ou pronunciar outra palavra além daquelas. Parecia que o esforço extremo e derradeiro do seu corpo havia sido dado, e que agora já força alguma restava dentro dele. O último suspiro. Sem açúcar. Em momento nenhum, também, se atreveu a tentar olhar por cima dos ombros dela, ou aproximar-se discretamente por suas costas, evitando fazer barulho, para saciar a dúvida que apetecia-lhe o peito. O que tanto ela rabiscava no papel. O que tanto...

A questão? Ele sabia. A resposta. Chamava de dúvida o que na verdade tinha fobia de formar em sua mente. É. Isso aí. A certeza.

Friday, November 16, 2007

e

u não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso, não posso pensar, não devo pensar, não é recomendável pensar, não queria pensar, posso não pensar, finjo não pensar, não penso

Tuesday, October 30, 2007

então

sim
sim
sim
sim
sim
não
SIM















e sim e sim e sim

Thursday, October 25, 2007

3am

Alô!
É, boa noite!
E chega!
Já tive saudade de tudo em monte!
Exatamente!
Eu sei que você sabe o que eu quero dizer!
Não é preciso gritar!
Sem figuras de linguagem, por favor!
Vai continuar transpirando forte assim!?
Pare de gritar!
Já terminou de falar?
Deixa que agora é a minha vez!
Fim!
Já senti falta, o bastante por uma existência inteira!
Chegadebilhetesrabiscadosemfolhaarrancadasdoblocode...

...notasjogadas...dequalquerjeitoemcimada...

...

...mesaoucolocadascomfita-crepeoudurexnãomeioda...

...teladatelevisãodasaladeestar!!!

Au revoir...
Pare de gritar...
Só eu posso gritar aqui. E é isso...
Se quiser, eu desenho...
Para de fazer essa cara que eu sei que você está fazendo...
Ok...
Devolveria algumas coisas que já não as tivesse queimado...
Já disse quase o que eu queria...
Pode desligar.

Wednesday, October 03, 2007

Ela está chovendo lá fora
Ela me tolhe com os trechos mais frios da manhã
Ela corre até qualquer direção, me cai sob o colo, e me vê esguia
Ela salta e faz, 'foi susto', 'não quero', escala esse muro de cimento áspero e desfaz suas unhas
Ela deixa um fiapo estreito de janela aberto para o sol e a garoa entrarem
Ela dorme com a porta trancada à 10 cadeados
Ela não faz sentido, mas faz outras coisas
Ela anoitece sem querer
Ela amanhece quando quer
Ela estava bem aqui, bem pouco, mas estava
Ela queria dizer, eu não
Ela chove lá fora tantos dilúvios que nada vai ficar submerso
Ela colhe de mim as gotas frias de sereno que ficam espalhadas pela sacada
Ela chove o último dilúvio lá dentro e eu não sei nadar
Não que fizesse diferença
Ela queria dizer 'eu não'
Ela chove em mim as gotas de chuva que não caem em mim
E ela sabe, e ela sabe, e ela sabe que isso me enferruja
Ela sabe que vou me afogar
Ela sabe que vou ficar repetindo isso aqui fora ou lá dentro
Ela sabe que essa foi e será a última vez
Ela chove por toda parte enquanto minha arca está furada
Eu não quero ir a lugar
Ela escorrerá quando eu abrir a porta e disser
Nem eu, nem ela dirá, ou irá ou diremos e iremos ambos?
Eu não faço sentido nem outras coisas nada
E ela vai chover como sempre choveu pra sempre.

Tuesday, September 25, 2007

Ode Aos Poetas

é, tá na hora, pega essa sua metalinguagem e enfia
uhum, pois é, enfia, pois pouco me lixo se você é poeta
se sente a dor do mundo, se respira o ar que as flores
mortas do campo trouxe... foda-se
não vou estar aqui pra cheirar o seu corpo putrefar
pelo triste vento caído do outono em cinzas
e não vou fitar o firmamento com palavras de conforto
de sentimento, de paixão e saudade, pelo amor que se foi
e não volta, a não ser nos seus sonhos, a não ser nas gravações da
secretária...

óooooooooo vida cruel...
eu cuspo o sangue
o sangue que escorre da lingua que eu mesmo mastiguei

ahhhhhhhhh...
é, mesmo, e isso aqui também não é um poema.